segunda-feira, 10 de junho de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO - O PORQUÊ DA ESCOLHA DESTE HETERÓNIMO SEGUNDO SARAMAGO.





 in A estátua e a pedra de José Saramago,
Fundação José Saramago, 2013  

            José Saramago contactou com Ricardo Reis muito cedo, muito antes de saber o que era um heterónimo ou quem era Fernando Pessoa.

            “Da obra magnífica de Ricardo Reis impressionava-me sobretudo um verso que diz “sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”. Quer dizer, deste formidável poeta, que tanto me atraía, indignava-me esta espécie de indolência, esta filosofia de vida tão complacente que se me afigurava monstruosa. […]
            […] caiu-me do teto uma evidência: o ano da morte de Ricardo Reis. Isto é, pensando que Pessoa, que morreu em 1935, não deixou escrita em lugar algum a data da morte de Ricardo Reis, pensando que o heterónimo não pode viver muito mais que o criador, pensando que todos temos nove meses de vida que não contamos porque não vivemos fora das nossas mães, pensando que talvez depois de mortos possamos contar com outros nove meses de vida, que será mais ou menos o tempo que dura a nossa memória, pensando em tudo isto, a sentença que me caiu do teto, “o ano da morte de Ricardo Reis”, misturada com o antigo rancor e a permanente admiração, animaram-me a confrontar Ricardo Reis com o espetáculo do mundo, no ano da sua morte que, na minha lógica, tem de ser 1936, quer dizer, o ano em que começou a Guerra de Espanha, o ano em  que a besta fascista ocupou a Etiópia, o ano em que o nazismo consolidou posições, o ano em que se criaram as mocidades e as milícias fascistas em Portugal… Num tempo convulso em que o que havia de melhor parecia desmoronar-se, […]  Ricardo Reis, o poeta das odes maravilhosas, sentava-se diante do mundo, como se de um pôr do sol se tratasse, e vendo o que se estava a passar, sentia-se sábio. Assim nasceu este romance […]”



terça-feira, 19 de março de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS - DEAMBULAÇÃO E SIMBOLOGIA DE O ADAMASTOR



Ao longo do romance, Ricardo Reis deambula pela cidade com o único propósito de observar a cidade. Ele será uma espécie de guia que nos dará a conhecer, leitores, o espaço citadino lisboeta que vai observando acidentalmente e que será, naturalmente, objeto da sua visão crítica.
Lisboa é descrita como uma cidade envolta pela chuva, triste, cinzenta, sem qualquer atrativo, deserta e imóvel numa metáfora do regime do Estado Novo, que cerca os seus cidadãos, maioritariamente “súbditos, escravos, submissos, reprimidos, oprimidos”, sem vontade para lutar e para sair da situação em que se encontra.
Na sua deambulação pela cidade, Ricardo Reis adota a atitude de observador acidental já conhecida de Cesário Verde, mas evidenciando a sua costela crítica a fazer lembrar o Eça de Os Maias quando, no final do romance, se refere à estagnação de Lisboa – Portugal - passados dez anos.
“A deambulação geográfica nesta obra é igualmente uma viagem literária e quando Ricardo Reis se embrenha no labirinto da cidade, é nas suas personalidades culturais que encontra os marcos norteadores do caminho. Assim, a viagem geográfica cruza-se com a viagem literária e as alusões constantes a Luís de Camões, a Eça de Queirós e ao próprio Fernando Pessoa, autor da Mensagem, ou aos heterónimos, completam a revisitação de Ricardo Reis a Lisboa, (…)”
Pontos da cidade mencionados são o monumento ao Adamastor – um dos preferidos de Ricardo Reis e perto do qual habita, simboliza os obstáculos do passado, opositor à marcha dos portugueses, representando no romance a aurora de uma sociedade nova – o Rossio, a Baixa ou a Praça do Comércio. Com Ricardo Reis partimos do Cais do Sodré, seguimos pela Rua do Alecrim até ao Largo do Barão de Quintela, chegamos ao Largo de Camões, ao Alto de Santa Catarina, ao Chiado.
Os passeios pela cidade, as digressões pelo espaço labiríntico da cidade são igualmente viagens efetuadas através de um “eu”, que para elas encontra inspiração nas deambulações pela capital. Camões constitui o elemento orientador, o guia dos poetas em geral e de Ricardo Reis em particular.

O Gigante Adamastor

Caixa de texto: Simbolicamente, o número 7 corresponde ao Antigo Testamento; o número 8 pertence ao Novo Testamento, anunciando o Futuro.


No romance, a estátua do Adamastor é, assim como a estátua de Camões, um marco norteador dentro do labirinto da cidade de Lisboa. Geograficamente, o Adamastor encontra-se num ponto de cruzamento de caminhos. O Adamastor, símbolo de todos os obstáculos, no passado, torna-se no presente a rosa-dos-ventos, que anuncia o novo roteiro do povo. Assim, nas coordenadas do texto, sendo a confluência das 8 direções cardeais, ilumina duplamente o horizonte de expetativas humanas e anuncia um mundo novo.

Oito anos após a partida de Ricardo Reis para o Brasil, o monumento foi erigido.
Oito anos depois de estar no Alto de Santa Catarina, Ricardo Reis regressa à pátria.
O Adamastor simboliza as dificuldades / obstáculos que o homem tem de ultrapassar para atingir os seus objetivos e tem, no romance, a função de representar as forças opressoras da ditadura.



domingo, 17 de março de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO, O TÍTULO DO ROMANCE




O título, O Ano da Morte de Ricardo Reis...

O título do romance remete-nos para o tempo histórico ou da História, 1936, que é, simultaneamente, o ano da morte de Ricardo Reis.

Ricardo Reis chega a Lisboa em 30 de dezembro de 1935, um mês depois da morte de Fernando Pessoa. Permanecerá 9 meses na cidade, findos os quais morrerá, indo fazer companhia ao seu criador, Fernando Pessoa, no Cemitério dos Prazeres.

À semelhança do que já acontece em outros romances de José Saramago, o discurso da ação e o da História entrelaçam-se, confirmando o grande fascínio do século XX pela História.

Assim, estruturalmente, assistimos neste romance à recuperação de um tempo que corresponde ao ano de 1936, de um poeta, Ricardo Reis, de uma obra, a pessoana, sem esquecer a ficção e o futuro de Portugal, país envolvido numa série de acontecimentos mundiais que conduzirão ao eclodir da Segunda Guerra Mundial.

Ricardo Reis sente-se perdido numa Lisboa labiríntica, triste, suja e barulhenta dos mercados, pobre e desconhecida para si e que contrasta vivamente com a Lisboa dos cafés históricos e dos teatros restaurados, com o progresso representado por uma burguesia rica e uma classe média remediada.

Uma cidade, afinal, com a qual Ricardo Reis já não se identifica, passados que foram 16 anos de ausência no Brasil.

quinta-feira, 14 de março de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS E O ROMANCE HISTÓRICO.



No século XX, a relação entre história e verdade foi fortemente abalada e o relato histórico passou a ser entendido como uma versão dos acontecimentos ligados ao poder.
A História deixou de ser encarada como um "armazém de verdade" e o texto histórico passou a ser visto como uma forma parcial e pessoal de abordagem dos factos.
O Romance da segunda metade do século XX recorre ao discurso histórico e, frequentemente, os factos que reconhecemos surgem a nossos olhos sob um ponto de vista novo sendo que o discurso histórico regista apenas uma parte do que aconteceu. 
No Romance histórico do século XX, os acontecimentos passam a ser perspetivados de uma forma múltipla, expondo o ponto de vista do homem comum, dando voz a quem nunca a teve e apresentando versões diferentes de factos reconhecíveis. 

quarta-feira, 6 de março de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, JOSÉ SARAMAGO - INTRODUÇÃO



Estudado na faculdade em tempos idos, um tanto esquecido nos armários e na memória, foi necessária a leitura de apontamentos e de publicações entretanto surgidas para que alguns dos posts que se seguem fossem possíveis. São somente o resultado de mais um percurso de aprendizagens agora partilhadas e que, esperemos, possam vir a ser úteis.


A ficção do século XX revela um grande fascínio pela História. (Preparar o Exame Nacional; Português 12; Areal).


A época, a política.
1936. A Europa vive um período bastante agitado, dividida entre forças de direita e de esquerda, umas impunham-se sob a forma de ditaduras, outras procuravam afirmar-se.

Em Portugal, a realidade era a de uma ditadura com Salazar como líder, ambos assentes na ideia de uma moralidade cristã, em que Salazar era apresentado como o salvador, e na criação de movimentos como a Mocidade Portuguesa que propagandeavam junto da população os valores e a ideologia do regime. Com o objetivo de acalmar os mais céticos, eram utilizadas como armas, a perseguição policial, a prisão e a tortura, tudo medidas contra quem se opunha à ordem que vigorava na época, tendo mesmo sido criada uma polícia, a P.V.D.E. (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), que garantia a normalidade. O povo, esse, vivia na miséria e o país estagnava.

Politicamente, Portugal vive os primeiros anos do Estado Novo (193-1974), um período de Ditadura dirigido por Salazar. Esta é também a época de ascensão dos regimes nacionalistas espanhol, alemão e italiano. Em Portugal, a máquina do regime de Salazar divulga uma imagem idealizada e enganadora das realidades portuguesa e europeia. (Preparar o Exame Nacional; Português 12; Areal).

1936 é também o ano que marca uma sucessão de acontecimentos que se revelarão determinantes para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.








quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA E HETERONÍMIA - APONTAMENTOS / NOTAS SOLTAS



APONTAMENTOS / NOTAS SOLTAS



TEXTO INICIAL…

A melhor proposta para a explicação da heteronímia é-nos dada pelo próprio F. Pessoa quando escreveu “o ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo.”
Na verdade, o poeta tem a capacidade de”voar outro”, ou seja, é capaz de construir pessoas inexistentes que sentem, como as pessoas reais, sensações e emoções ainda que diferentes das do seu criador. Este processo assemelha-se ao do ator quando representa as suas personagens, estando na sua origem a capacidade de se despersonalizar.
Pessoa transforma esta despersonalização dramática num modo de criação literária muito bem conseguido, em que cada personagem difere do seu criador, representando uma espécie de drama. Quando estão juntas, estas personagens formam um outro tipo de drama: o drama em gente.

NOTAS SOLTAS

É o profundo autoconhecimento de Pessoa que o leva a desejar ser outro, “Ser outro constantemente” revelando o “eu” fragmentado e revelando o drama de personalidade que o leva à dispersão do real e de si mesmo.
O poeta possui uma grande capacidade de despersonalização “Quantos sou?” e é na heteronímia – cria diferentes personalidades – que Pessoa encontra a possibilidade de exprimir estados de alma e consciência distintos.
Este processo de despersonalização faz dele um ser plural, em que pensar e sentir se harmonizam e assim melhor expressarem a apreensão da vida, do ser e do mundo, permitindo “sentir tudo de todas as maneiras”.
“’Por a alma não ter raízes’, Fernando Pessoa  pretende “viajar” no seu próprio ser, submetendo-se ao processo de outração, de modo a experienciar todas as possibilidades do “eu”. Indivíduo singular, Pessoa apresenta-se “múltiplo”, querendo exprimir o todo e abarcar a totalidade. É a fragmentação que lhe permite, então, ser “variamente outro” e alcançar a unidade.”
A fragmentação do “eu” pessoano resulta da constante procura de respostas para o enigma do ser, aliada à perda de identidade.
Pessoa vê-se confrontado com a sua pluralidade, ou seja, com diferentes “eu”, sem saber quem é nem se realmente existe. O “eu” nega-se como um todo.
Refere o “eu” lírico “Multipliquei-me, para me sentir”, encontrando, assim, a salvação na fragmentação, na vida inventada, em que cada um dos seus heterónimos exprime um novo modo de ser e uma visão própria do mundo.
Despersonalizando-se, o ”eu” desaparece, fazendo surgir a persona, isto é, a máscara.
No interior do poeta encontram-se vários “eu”. Enquanto ser múltiplo, Pessoa não consegue encontrar-se nem definir-se em nenhum deles, sendo incapaz de se reconhecer a si próprio – é um mero observador de si mesmo. Sofre a vida sendo incapaz de a viver.
No poema “Não sei quantas almas tenho”, o sujeito poético confessa a sua fragmentação em múltiplos “eu”, revelando a sua dor de pensar e a intelectualização do sentir. É esta última que o conduz através de um processo constante de autoanálise. Em dúvida e indefinido quanto à sua identidade, angustiado pelo autoconhecimento – “Por isso, alheio, vou lendo / como páginas meu ser” – é incapaz de viver a vida, mergulhando no tédio e na angústia existenciais.
Será através da fragmentação do “eu” que Fernando Pessoa tenta encontrar a totalidade de forma a conciliar o ato de pensar e o do sentir.


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

'SCREVO MEU LIVRO À BEIRA MÁGOA - BREVE ANÁLISE



'Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?


Mensagem, Fernando Pessoa


-          Num momento em que a Pátria se sente “entristecer”, o sujeito poético escreve o seu “livro à beira mágoa” com os “olhos quentes de água”, manifestação física da sua Dor e numa clara alusão ao ato de “chorar”.

-          O apelo a “Senhor” revela a esperança que o “eu” deposita neste, como única fonte de alento.

-          Este “Senhor” conhece ao longo do texto outros epítetos: “Rei”, 2ªest. e “Encoberto”, 4ª est., os quais nos remetem para o manifesto desejo da vinda de um Messias Salvador – o Sebastianismo como mito messiânico.

-          Vislumbra-se na esperança depositada no regresso deste “Messias”, uma tentativa de atenuar o próprio sofrimento que, deste modo, transforma o desespero em esperança através do sonho que, espera-se, virá a realizar-se no futuro.

-          Formalmente, de salientar a frequência de interrogações retóricas que podem sugerir o já referido estado de desespero do “eu” ou, também, a expetativa face a esse “Senhor” que há-de vir;  a confirmá-lo, a predominância de formas verbais no futuro.

-          Num e noutro caso está bem patente a dúvida que martiriza o sujeito poético relativamente à “Hora” do regresso do “Senhor” por ele sonhado.


-          Nota final – Este poema encontra-se profundamente marcado pela subjetividade lírica, pela interiorização das emoções e dos sentimentos.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ULISSES - MENSAGEM, BREVE ANÁLISE



Fernando Pessoa

Primeiro: ULISSES

        Primeiro
        ULISSES
mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
s.d.

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
  - 25.


O título do poema – Ulisses – evoca o herói da Odisseia de Homero, que, segundo a lenda, tendo-se perdido no Mediterrâneo depois da vitória de Tróia, teria aportado no estuário do Tejo e fundado a cidade de Olisipo (Lisboa).


*  Ulisses poderá representar a vocação marítima dos portugueses já que é do mar que chega este antepassado mítico dos portugueses.
*  E se Ulisses é o mito que é nada e é tudo, isso deve-se à sua importância enquanto lenda portadora de força que, por sua  vez, dá vida.
*  Na 3ª e última estrofe dá-se a passagem do nada ao tudo: “a lenda vem (escorre) de cima; ao entrar na realidade, fecunda-a – fazendo o “milagre” de tornar irrelevante a vida cá de baixo, dita do mundo real, objectivo: “Em baixo, a vida, metade/De nada, morre”. Só readquire vida aquilo que o mito/nada tudo fecunda – e o processo não é do passado, mas intemporal – daí os tempos verbais no presente.”



*** neste poema, Pessoa parece dizer-nos que não importa se as figuras de que vai ocupar-se, os heróis fundadores, tiveram ou não existência histórica. O que é importante é a sua função enquanto mito, com a força própria do mito porque é então que ele é tudo.
Assim, o que realmente importa não é saber se Ulisses terá existido realmente mas ter consciência daquilo que ele representa: “o futuro glorioso de Portugal” só poderá concretizar-se se houver apropriação da energia que ele gera e da força criadora que ele liberta. (3ª est.)
Podemos considerar que este poema ajuda a explicar os que se lhe seguirão na Mensagem onde os heróis fundadores, apesar da sua existência histórica feita de êxitos e fracassos, aparecem mitificados.



sábado, 20 de janeiro de 2018

O DOS CASTELOS - ANOTAÇÕES



Fernando Pessoa
Primeiro: O DOS CASTELOS

        Primeiro
        O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

8-12-1928
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 21.





      O poema está construído com base numa personificação da Europa, como se se tratasse de um corpo humano. Esta personificação permite uma aproximação da realidade da geografia física com o mito que deu origem à designação Europa e possibilita o realce de algumas partes desse corpo.
      A descrição vai-se desenvolvendo do geral para o particular. O sujeito poético refere, logo no início do poema, o tema gerador da descrição – «A Europa» – e apresenta os dois traços definidores: «jaz, posta nos cotovelos» e «fitando». Estes dois traços serão desenvolvidos nas segunda, terceira e quarta estrofes. A segunda estrofe caracteriza os dois «cotovelos», nomeia-os, indica a sua forma e concretiza a visualização (o direito, representando a Inglaterra e o esquerdo, a Itália, locais onde se encontram as raízes culturais que constituem a identidade europeia). A terceira e quarta estrofes organizam-se em volta do verbo «fitar», desvendando a simbologia do olhar no poema e justificando a importância do rosto e do olhar.
      O poema assenta em duas imagens contraditórias: uma imagem de lassidão, de dormência transmitida pelo verbo jazer e uma outra de expectância, de captação e de compreensão traduzida pelo verbo fitar o qual aponta, igualmente, para uma renovação.. Estas duas imagens simbolizam a conjugação do passado com o presente e com o futuro, denunciando a importância de Portugal na construção desse futuro.
      A importância de Portugal, rosto da Europa, e portanto, a face visível de tudo o que ela representa, é posta em relevo pelo monóstico final do poema, sendo Portugal visto também como cabeça (rosto) da Europa. A organização descritiva inicial do poema, de maior fôlego, vai-se condensando, para se apoiar, na parte final, no rosto e no olhar. A diminuição de versos nesta última parte indicia a valorização crescente que se prenuncia e cuja tónica é colocada no último vocábulo do poema – Portugal.
      O texto poético apresentado na prova é o primeiro poema da primeira parte, Brasão, da obra Mensagem. Como este poema já revela, há, na obra, uma valorização de Portugal dentro da Europa e a “mensagem” que se procura veicular é a da importância de um povo como vaticinador de um mundo novo, mas, simultaneamente, a advertência para a decadência desse povo. Como acontece para a Europa, neste poema, várias figuras históricas ou mitológicas são apresentadas em poemas distintos, havendo o realce para os seus traços essenciais. 




quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

D. SEBASTIÃO - BREVE ANÁLISE


D. Sebastião

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

in Mensagem de Fernando Pessoa



Neste texto, Pessoa faz um elogio à loucura, exortando a que outros deem continuidade ao seu sonho (valorização do sonho). Caracteriza-se como um louco.

No 5º verso distingue mais uma vez o ser histórico, como sendo o “ser que houve”, o que perece, desaparece e o ser mítico como “o que há”. Este último sobrevive porque é imortal, é a ideia – símbolo – o sonho que fecunda o real. Na base da loucura encontra-se o desejo de grandeza que o sujeito poético assume com orgulho – por isso, o herói encontra a morte.

De salientar a interrogação retórica dos 3 últimos versos do poema em que o poeta faz referência à loucura enquanto energia criativa que poderá ser utilizada para a reconstrução nacional. Sem o sonho (loucura) o homem não se distinguirá do animal. É através do sonho que o homem é capaz de seguir em frente, sem temer a morte.




domingo, 14 de janeiro de 2018

D. DINIS - OS LUSÍADAS vs MENSAGEM






D. Dinis


Os Lusíadas - No texto de Os Lusíadas, D. Dinis é-nos apresentado como um rei de ascendência nobre, amante da paz e da justiça (1ª est.)  e um mecenas, na medida em que promoveu o saber e a poesia. Foi ele quem mandou plantar o pinhal de Leiria cuja madeira viria a ser utilizada na construção das naus destinadas aos Descobrimentos.
            No conjunto destas características, salienta-se o facto de ter sido ele quem criou a 1ª universidade do nosso país, em Coimbra, embora hoje já se saiba que a 1ª surgiu em Lisboa. Por esta razão, Coimbra é comparada a Atenas, local onde são premiados os que se dedicam ao estudo da música e da poesia. O seu reinado foi próspero e longo.


            Mensagem - O sujeito lírico apresenta o rei como trovador e o plantador do pinhal de Leiria, sendo estes os aspetos a que dá maior importância. No último caso, sugere mesmo que este rei estaria predestinado a construir um Império rico e abundante.


sábado, 6 de janeiro de 2018

"MENSAGEM": ... TALVEZ INTERESSE SABER.



(D. Sebastião) Mergulhado em Deus, com Deus comungará e de Deus se encherá. E, quando voltar à terra dos homens (“regressarei”), será em forma *hipostática, homem feito Deus, como Cristo, o que cremos ser o significado do “O” e do “Esse” maiúsculos, referidos a ele, D. Sebastião.
António Cirurgião, in O Olhar Esfíngico da Mensagem de Pessoa, ICALP




*  Hipóstase – união da natureza divina e da natureza humana na pessoa de Cristo.



A esperança do Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nabucodonosor.
Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o Quarto de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema porém, que é de Impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que, nesse nível, se interpreta bem.
Não é assim no esquema português. Esse, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do império material da Babilónia, parte, antes, com a civilização que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos.
E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma. O Terceiro o da Cristandade e o Quarto o da Europa – isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá de ser outro que o inglês porque terá de ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal para quem o esperamos.

Fernando Pessoa, (textos transcritos por António Quadros)
in Fernando Pessoa, iniciação global à obra, Ed. Arcádia


 O Quinto Império sonhado por Bandarra não é apenas o do regresso do novo Rei Artur português para restaurar o pequeno reino lusitano, nem propriamente o temporal reino de Cristo, visionado por António Vieira. A restauração política de Portugal do seu tempo interessou a Fernando Pessoa, como é de sobra conhecido, ao ponto de ver em Sidónio Pais um novo D. Sebastião. Mas o Quinto Império com que sonha é um império cultural. É desse império, e não de outro, que talvez seja ele mesmo o D. Sebastião…

Eduardo Lourenço, Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade, Ed. Gradiva




MENSAGEM DE FERNANDO PESSOA - O PENSAMENTO PESSOANO


 Patriotismo e predestinação divina

O meu intenso sofrimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar o  estado de Portugal provocam em mim - como explicar com que ardor, com que intensidade, com que sinceridade! - mil projetos que, mesmo se realizáveis por um só homem, exigiriam dele uma característica puramente negativa em mim ­ força de vontade. (…)
Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de todos aqueles a quem encontro ou conheço.

Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Autointerpretação,
pp. 7-8, Ática (1966)

Só duas nações - a Grécia passada e Portugal futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. (…)
Tristes de nós se faltarmos à missão que Aquele que nos pôs ao Ocidente da Europa, e tais nos fez quais somos, nos impôs quando nos deu este nosso aceso e transcendido espírito aventureiro. Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas.

Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política,
pp. 134 e 240, Ática (1980)



Aqueles portugueses do futuro, para quem porventura estas páginas encerrem qualquer lição, ou contenham qualquer esclarecimento, não devem esquecer que elas foram escritas numa época da Pátria em que havia minguado a estatura nacional dos homens e falido a panaceia abstrata dos sistemas. A angústia e a inquietação de quem as escreveu, porque as escreveu quando não podia haver senão inquietação e angústia, devem ser pesadas na mão esquerda, quando se tome, na mão direita, o peso ao seu valor científico.
Serão, talvez e oxalá, habitantes de um período mais feliz (…) aqueles que lerem, aproveitando, estas páginas arrancadas, na mágoa de um presente infeliz, à saudade imensa de um futuro melhor.

Fernando Pessoa, Da República,
 p. 105, Ática (1979)


O mito sebastianista

Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação - a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. (…)
Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.

Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, vol. 111,
pp. 652/3 e 654



O português das Descobertas

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.
Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo de Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.
Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sem­pre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projetam a sua fé de que a família se não extinguisse.

Fernando Pessoa, op. cit., vaI. 111,
pp. 554 e 555

MENSAGEM DE FERNANDO PESSOA: NOÇÕES E UM POUCO MAIS


P O R T U G A L ¬ oito letras ® M E N S A G E M

“mens agitat molem” (Virgílio, Eneida, 6, 727) – “Mensagitatmolem”
O espírito move a massa (matéria), isto é, a inteligência domina as forças físicas.

  Mensagem é uma coletânea de poemas breves, escritos entre 1913 e 1934, ano da sua publicação. Revela o caráter épico e místico de Pessoa e deveria ser lida simbolicamente pelos iniciados do esoterismo. A obra divide-se em três partes:
·       Brasão (“bellum sine bello”: guerra sem guerra) – Retrato heráldico do Portugal antigo através do brasão nacional. Divide-se em cinco partes: “Os Campos”, “Os Castelos”, “As Quinas”, “A Coroa” e “O Timbre”. Remete para heróis míticos ou lendários como Ulisses, Viriato, o conde D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. Sebastião.
·       Mar Português (“possessio maris”: a posse do mar) – Narração épica dos feitos oceânicos dos portugueses (o apogeu da pátria). Portugal desafia o mar ignoto e triunfa sobre a Distância que, em sentido literal, é a descoberta dos caminhos marítimos da Ásia e da América. Porém, em sentido figurado representa o cumprimento de uma missão religiosa (ou esotérica) simbolizada pela cruz das velas das naus. Esta parte foca personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos como o infante D. Henrique, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, o Adamastor ou o sofrimento do povo português.
·         O Encoberto (“pax in excelsis”: paz nas alturas) – Contém poemas de índole profética e sebastianista e divide-se em três partes: “Os Símbolos”, “Os Avisos” e “Os Tempos”. Refere-se à nostalgia da grandeza perdida, ao presente de sofrimento, de mágoa, que é preciso mudar e ao sonho de um império espiritual. A mudança, anunciada por símbolos e profecias, tornaria Portugal numa grande potência a nível mundial, quer no plano material (como no passado) quer espiritualmente – o Quinto Império.

     Chamou-se Quinto Império ao sonho mítico do Padre António Vieira (1608-1697) segundo o qual Portugal, através de D. João IV (1604-1656), consumaria a realização do reino universal de Cristo. Seria um império espiritual, construído com esforço pelo homem, que abandonaria o reino terreno para viver no divino. A pátria, como símbolo materno, liga-se à terra acolhedora e ao paraíso perdido (Éden) que concentra todas as possibilidades de satisfação dos desejos humanos. O Quinto Império remete para a unidade e perfeição: é uma hipótese de transformação e de purificação da Humanidade. Em última análise representa a relação harmoniosa entre o Homem e o mundo, entre este e Deus.
     O desaparecimento de D. Sebastião (1554-1578) significou, para o país, a perda da identidade nacional. Reencontrar um novo império, através de Portugal, seria a apropriação definitiva da essência do mito sebastianista.
     Assim, para Pessoa estavam criadas as condições para fazer de Portugal um Paraíso na Terra – o Quinto Império.

“E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova que não existe no espaço, em naves que são construídas «daquilo que os sonhos são feitos».”

Fernando Pessoa
“Temos felizmente o mito sebastianista com raízes profundas no passado e na alma portu-guesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo.”
 
O número três é simbólico e em várias religiões a tríade representa a perfeição, tal como na religião católica:
Pai, Filho e Espírito Santo. É também um número fundamental no esoterismo.

“Esta estrutura tripartida [da Mensagem] é simbólica. Com efeito, desenha-se aqui a história cíclica de um povo: o nascimento, o apogeu e a morte. Simplesmente a morte permite o ressurgimento das cinzas.”

António Borregana
“A vinda do encoberto iniciará um novo ciclo, o mais glorioso da nossa história – o Quinto Império. E quanto mais as coisas se degradam em Portugal, mais perto Fernando Pessoa vê a chegada do Salvador.”

O Quinto Império, segundo António Quadros
(ler o poema “O Quinto Império” na terceira parte de Mensagem)
Império Material
Império Espiritual
1º - Babilónia
2º - Medo-Persa
3º - Grécia
4º - Roma
5º - Inglaterra
1º - Grécia
2º - Roma
3º - Cristandade
4º - Europa
5º - (Portugal)

  António Quadros considera que Mensagem “é sem dúvida a obra-prima onde Pessoa (…) imprimiu o seu ideal patriótico, sebastianista e regenerador. É um poema nacional, uma versão moderna, espiritualista e profética de Os Lusíadas.”