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quarta-feira, 6 de março de 2019

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, JOSÉ SARAMAGO - INTRODUÇÃO



Estudado na faculdade em tempos idos, um tanto esquecido nos armários e na memória, foi necessária a leitura de apontamentos e de publicações entretanto surgidas para que alguns dos posts que se seguem fossem possíveis. São somente o resultado de mais um percurso de aprendizagens agora partilhadas e que, esperemos, possam vir a ser úteis.


A ficção do século XX revela um grande fascínio pela História. (Preparar o Exame Nacional; Português 12; Areal).


A época, a política.
1936. A Europa vive um período bastante agitado, dividida entre forças de direita e de esquerda, umas impunham-se sob a forma de ditaduras, outras procuravam afirmar-se.

Em Portugal, a realidade era a de uma ditadura com Salazar como líder, ambos assentes na ideia de uma moralidade cristã, em que Salazar era apresentado como o salvador, e na criação de movimentos como a Mocidade Portuguesa que propagandeavam junto da população os valores e a ideologia do regime. Com o objetivo de acalmar os mais céticos, eram utilizadas como armas, a perseguição policial, a prisão e a tortura, tudo medidas contra quem se opunha à ordem que vigorava na época, tendo mesmo sido criada uma polícia, a P.V.D.E. (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), que garantia a normalidade. O povo, esse, vivia na miséria e o país estagnava.

Politicamente, Portugal vive os primeiros anos do Estado Novo (193-1974), um período de Ditadura dirigido por Salazar. Esta é também a época de ascensão dos regimes nacionalistas espanhol, alemão e italiano. Em Portugal, a máquina do regime de Salazar divulga uma imagem idealizada e enganadora das realidades portuguesa e europeia. (Preparar o Exame Nacional; Português 12; Areal).

1936 é também o ano que marca uma sucessão de acontecimentos que se revelarão determinantes para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.








quinta-feira, 20 de setembro de 2018

FERNANDO PESSOA E HETERONÍMIA - APONTAMENTOS / NOTAS SOLTAS



APONTAMENTOS / NOTAS SOLTAS



TEXTO INICIAL…

A melhor proposta para a explicação da heteronímia é-nos dada pelo próprio F. Pessoa quando escreveu “o ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo.”
Na verdade, o poeta tem a capacidade de”voar outro”, ou seja, é capaz de construir pessoas inexistentes que sentem, como as pessoas reais, sensações e emoções ainda que diferentes das do seu criador. Este processo assemelha-se ao do ator quando representa as suas personagens, estando na sua origem a capacidade de se despersonalizar.
Pessoa transforma esta despersonalização dramática num modo de criação literária muito bem conseguido, em que cada personagem difere do seu criador, representando uma espécie de drama. Quando estão juntas, estas personagens formam um outro tipo de drama: o drama em gente.

NOTAS SOLTAS

É o profundo autoconhecimento de Pessoa que o leva a desejar ser outro, “Ser outro constantemente” revelando o “eu” fragmentado e revelando o drama de personalidade que o leva à dispersão do real e de si mesmo.
O poeta possui uma grande capacidade de despersonalização “Quantos sou?” e é na heteronímia – cria diferentes personalidades – que Pessoa encontra a possibilidade de exprimir estados de alma e consciência distintos.
Este processo de despersonalização faz dele um ser plural, em que pensar e sentir se harmonizam e assim melhor expressarem a apreensão da vida, do ser e do mundo, permitindo “sentir tudo de todas as maneiras”.
“’Por a alma não ter raízes’, Fernando Pessoa  pretende “viajar” no seu próprio ser, submetendo-se ao processo de outração, de modo a experienciar todas as possibilidades do “eu”. Indivíduo singular, Pessoa apresenta-se “múltiplo”, querendo exprimir o todo e abarcar a totalidade. É a fragmentação que lhe permite, então, ser “variamente outro” e alcançar a unidade.”
A fragmentação do “eu” pessoano resulta da constante procura de respostas para o enigma do ser, aliada à perda de identidade.
Pessoa vê-se confrontado com a sua pluralidade, ou seja, com diferentes “eu”, sem saber quem é nem se realmente existe. O “eu” nega-se como um todo.
Refere o “eu” lírico “Multipliquei-me, para me sentir”, encontrando, assim, a salvação na fragmentação, na vida inventada, em que cada um dos seus heterónimos exprime um novo modo de ser e uma visão própria do mundo.
Despersonalizando-se, o ”eu” desaparece, fazendo surgir a persona, isto é, a máscara.
No interior do poeta encontram-se vários “eu”. Enquanto ser múltiplo, Pessoa não consegue encontrar-se nem definir-se em nenhum deles, sendo incapaz de se reconhecer a si próprio – é um mero observador de si mesmo. Sofre a vida sendo incapaz de a viver.
No poema “Não sei quantas almas tenho”, o sujeito poético confessa a sua fragmentação em múltiplos “eu”, revelando a sua dor de pensar e a intelectualização do sentir. É esta última que o conduz através de um processo constante de autoanálise. Em dúvida e indefinido quanto à sua identidade, angustiado pelo autoconhecimento – “Por isso, alheio, vou lendo / como páginas meu ser” – é incapaz de viver a vida, mergulhando no tédio e na angústia existenciais.
Será através da fragmentação do “eu” que Fernando Pessoa tenta encontrar a totalidade de forma a conciliar o ato de pensar e o do sentir.


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

'SCREVO MEU LIVRO À BEIRA MÁGOA - BREVE ANÁLISE



'Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?


Mensagem, Fernando Pessoa


-          Num momento em que a Pátria se sente “entristecer”, o sujeito poético escreve o seu “livro à beira mágoa” com os “olhos quentes de água”, manifestação física da sua Dor e numa clara alusão ao ato de “chorar”.

-          O apelo a “Senhor” revela a esperança que o “eu” deposita neste, como única fonte de alento.

-          Este “Senhor” conhece ao longo do texto outros epítetos: “Rei”, 2ªest. e “Encoberto”, 4ª est., os quais nos remetem para o manifesto desejo da vinda de um Messias Salvador – o Sebastianismo como mito messiânico.

-          Vislumbra-se na esperança depositada no regresso deste “Messias”, uma tentativa de atenuar o próprio sofrimento que, deste modo, transforma o desespero em esperança através do sonho que, espera-se, virá a realizar-se no futuro.

-          Formalmente, de salientar a frequência de interrogações retóricas que podem sugerir o já referido estado de desespero do “eu” ou, também, a expetativa face a esse “Senhor” que há-de vir;  a confirmá-lo, a predominância de formas verbais no futuro.

-          Num e noutro caso está bem patente a dúvida que martiriza o sujeito poético relativamente à “Hora” do regresso do “Senhor” por ele sonhado.


-          Nota final – Este poema encontra-se profundamente marcado pela subjetividade lírica, pela interiorização das emoções e dos sentimentos.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ULISSES - MENSAGEM, BREVE ANÁLISE



Fernando Pessoa

Primeiro: ULISSES

        Primeiro
        ULISSES
mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
s.d.

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
  - 25.


O título do poema – Ulisses – evoca o herói da Odisseia de Homero, que, segundo a lenda, tendo-se perdido no Mediterrâneo depois da vitória de Tróia, teria aportado no estuário do Tejo e fundado a cidade de Olisipo (Lisboa).


*  Ulisses poderá representar a vocação marítima dos portugueses já que é do mar que chega este antepassado mítico dos portugueses.
*  E se Ulisses é o mito que é nada e é tudo, isso deve-se à sua importância enquanto lenda portadora de força que, por sua  vez, dá vida.
*  Na 3ª e última estrofe dá-se a passagem do nada ao tudo: “a lenda vem (escorre) de cima; ao entrar na realidade, fecunda-a – fazendo o “milagre” de tornar irrelevante a vida cá de baixo, dita do mundo real, objectivo: “Em baixo, a vida, metade/De nada, morre”. Só readquire vida aquilo que o mito/nada tudo fecunda – e o processo não é do passado, mas intemporal – daí os tempos verbais no presente.”



*** neste poema, Pessoa parece dizer-nos que não importa se as figuras de que vai ocupar-se, os heróis fundadores, tiveram ou não existência histórica. O que é importante é a sua função enquanto mito, com a força própria do mito porque é então que ele é tudo.
Assim, o que realmente importa não é saber se Ulisses terá existido realmente mas ter consciência daquilo que ele representa: “o futuro glorioso de Portugal” só poderá concretizar-se se houver apropriação da energia que ele gera e da força criadora que ele liberta. (3ª est.)
Podemos considerar que este poema ajuda a explicar os que se lhe seguirão na Mensagem onde os heróis fundadores, apesar da sua existência histórica feita de êxitos e fracassos, aparecem mitificados.



sábado, 20 de janeiro de 2018

O DOS CASTELOS - ANOTAÇÕES



Fernando Pessoa
Primeiro: O DOS CASTELOS

        Primeiro
        O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

8-12-1928
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 21.





      O poema está construído com base numa personificação da Europa, como se se tratasse de um corpo humano. Esta personificação permite uma aproximação da realidade da geografia física com o mito que deu origem à designação Europa e possibilita o realce de algumas partes desse corpo.
      A descrição vai-se desenvolvendo do geral para o particular. O sujeito poético refere, logo no início do poema, o tema gerador da descrição – «A Europa» – e apresenta os dois traços definidores: «jaz, posta nos cotovelos» e «fitando». Estes dois traços serão desenvolvidos nas segunda, terceira e quarta estrofes. A segunda estrofe caracteriza os dois «cotovelos», nomeia-os, indica a sua forma e concretiza a visualização (o direito, representando a Inglaterra e o esquerdo, a Itália, locais onde se encontram as raízes culturais que constituem a identidade europeia). A terceira e quarta estrofes organizam-se em volta do verbo «fitar», desvendando a simbologia do olhar no poema e justificando a importância do rosto e do olhar.
      O poema assenta em duas imagens contraditórias: uma imagem de lassidão, de dormência transmitida pelo verbo jazer e uma outra de expectância, de captação e de compreensão traduzida pelo verbo fitar o qual aponta, igualmente, para uma renovação.. Estas duas imagens simbolizam a conjugação do passado com o presente e com o futuro, denunciando a importância de Portugal na construção desse futuro.
      A importância de Portugal, rosto da Europa, e portanto, a face visível de tudo o que ela representa, é posta em relevo pelo monóstico final do poema, sendo Portugal visto também como cabeça (rosto) da Europa. A organização descritiva inicial do poema, de maior fôlego, vai-se condensando, para se apoiar, na parte final, no rosto e no olhar. A diminuição de versos nesta última parte indicia a valorização crescente que se prenuncia e cuja tónica é colocada no último vocábulo do poema – Portugal.
      O texto poético apresentado na prova é o primeiro poema da primeira parte, Brasão, da obra Mensagem. Como este poema já revela, há, na obra, uma valorização de Portugal dentro da Europa e a “mensagem” que se procura veicular é a da importância de um povo como vaticinador de um mundo novo, mas, simultaneamente, a advertência para a decadência desse povo. Como acontece para a Europa, neste poema, várias figuras históricas ou mitológicas são apresentadas em poemas distintos, havendo o realce para os seus traços essenciais. 




quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

D. SEBASTIÃO - BREVE ANÁLISE


D. Sebastião

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

in Mensagem de Fernando Pessoa



Neste texto, Pessoa faz um elogio à loucura, exortando a que outros deem continuidade ao seu sonho (valorização do sonho). Caracteriza-se como um louco.

No 5º verso distingue mais uma vez o ser histórico, como sendo o “ser que houve”, o que perece, desaparece e o ser mítico como “o que há”. Este último sobrevive porque é imortal, é a ideia – símbolo – o sonho que fecunda o real. Na base da loucura encontra-se o desejo de grandeza que o sujeito poético assume com orgulho – por isso, o herói encontra a morte.

De salientar a interrogação retórica dos 3 últimos versos do poema em que o poeta faz referência à loucura enquanto energia criativa que poderá ser utilizada para a reconstrução nacional. Sem o sonho (loucura) o homem não se distinguirá do animal. É através do sonho que o homem é capaz de seguir em frente, sem temer a morte.




domingo, 14 de janeiro de 2018

D. DINIS - OS LUSÍADAS vs MENSAGEM






D. Dinis


Os Lusíadas - No texto de Os Lusíadas, D. Dinis é-nos apresentado como um rei de ascendência nobre, amante da paz e da justiça (1ª est.)  e um mecenas, na medida em que promoveu o saber e a poesia. Foi ele quem mandou plantar o pinhal de Leiria cuja madeira viria a ser utilizada na construção das naus destinadas aos Descobrimentos.
            No conjunto destas características, salienta-se o facto de ter sido ele quem criou a 1ª universidade do nosso país, em Coimbra, embora hoje já se saiba que a 1ª surgiu em Lisboa. Por esta razão, Coimbra é comparada a Atenas, local onde são premiados os que se dedicam ao estudo da música e da poesia. O seu reinado foi próspero e longo.


            Mensagem - O sujeito lírico apresenta o rei como trovador e o plantador do pinhal de Leiria, sendo estes os aspetos a que dá maior importância. No último caso, sugere mesmo que este rei estaria predestinado a construir um Império rico e abundante.


sábado, 6 de janeiro de 2018

"MENSAGEM": ... TALVEZ INTERESSE SABER.



(D. Sebastião) Mergulhado em Deus, com Deus comungará e de Deus se encherá. E, quando voltar à terra dos homens (“regressarei”), será em forma *hipostática, homem feito Deus, como Cristo, o que cremos ser o significado do “O” e do “Esse” maiúsculos, referidos a ele, D. Sebastião.
António Cirurgião, in O Olhar Esfíngico da Mensagem de Pessoa, ICALP




*  Hipóstase – união da natureza divina e da natureza humana na pessoa de Cristo.



A esperança do Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nabucodonosor.
Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o Quarto de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema porém, que é de Impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que, nesse nível, se interpreta bem.
Não é assim no esquema português. Esse, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do império material da Babilónia, parte, antes, com a civilização que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos.
E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma. O Terceiro o da Cristandade e o Quarto o da Europa – isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá de ser outro que o inglês porque terá de ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal para quem o esperamos.

Fernando Pessoa, (textos transcritos por António Quadros)
in Fernando Pessoa, iniciação global à obra, Ed. Arcádia


 O Quinto Império sonhado por Bandarra não é apenas o do regresso do novo Rei Artur português para restaurar o pequeno reino lusitano, nem propriamente o temporal reino de Cristo, visionado por António Vieira. A restauração política de Portugal do seu tempo interessou a Fernando Pessoa, como é de sobra conhecido, ao ponto de ver em Sidónio Pais um novo D. Sebastião. Mas o Quinto Império com que sonha é um império cultural. É desse império, e não de outro, que talvez seja ele mesmo o D. Sebastião…

Eduardo Lourenço, Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade, Ed. Gradiva




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

FERNANDO PESSOA E HETERONÍMIA - APONTAMENTOS / NOTAS SOLTAS

            TEXTO INICIAL…
A melhor proposta para a explicação da heteronímia é-nos dada pelo próprio F. Pessoa quando escreveu “o ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo.”
Na verdade, o poeta tem a capacidade de ”voar outro”, ou seja, é capaz de construir pessoas inexistentes que sentem, como as pessoas reais, sensações e emoções ainda que diferentes das do seu criador. Este processo assemelha-se ao do ator quando representa as suas personagens, estando na sua origem a capacidade de se despersonalizar.
Pessoa transforma esta despersonalização dramática num modo de criação literária muito bem conseguido, em que cada personagem difere do seu criador, representando uma espécie de drama. Quando estão juntas, estas personagens formam um outro tipo de drama: o drama em gente.

NOTAS SOLTAS…
            É o profundo autoconhecimento de Pessoa que o leva a desejar ser outro, “Ser outro constantemente” revelando o “eu” fragmentado e revelando o drama de personalidade que o leva à dispersão do real e de si mesmo.
            O poeta possui uma grande capacidade de despersonalização “Quantos sou?” e é na heteronímia – cria diferentes personalidades – que Pessoa encontra a possibilidade de exprimir estados de alma e consciência distintos.
            Este processo de despersonalização faz dele um ser plural, em que pensar e sentir se harmonizam e assim melhor expressarem a apreensão da vida, do ser e do mundo, permitindo “sentir tudo de todas as maneiras”.
“’Por a alma não ter raízes’, Fernando Pessoa  pretende “viajar” no seu próprio ser, submetendo-se ao processo de outração, de modo a experienciar todas as possibilidades do “eu”. Indivíduo singular, Pessoa apresenta-se “múltiplo”, querendo exprimir o todo e abarcar a totalidade. É a fragmentação que lhe permite, então, ser “variamente outro” e alcançar a unidade.”
A fragmentação do “eu” pessoano resulta da constante procura de respostas para o enigma do ser, aliada à perda de identidade.
Pessoa vê-se confrontado com a sua pluralidade, ou seja, com diferentes “eu”, sem saber quem é nem se realmente existe. O “eu” nega-se como um todo.
Refere o “eu” lírico “Multipliquei-me, para me sentir”, encontrando, assim, a salvação na fragmentação, na vida inventada, em que cada um dos seus heterónimos exprime um novo modo de ser e uma visão própria do mundo.
Despersonalizando-se, o ”eu” desaparece, fazendo surgir a persona, isto é, a máscara.
No interior do poeta encontram-se vários “eu”. Enquanto ser múltiplo, Pessoa não consegue encontrar-se nem definir-se em nenhum deles, sendo incapaz de se reconhecer a si próprio – é um mero observador de si mesmo. Sofre a vida sendo incapaz de a viver.
No poema “Não sei quantas almas tenho”, o sujeito poético confessa a sua fragmentação em múltiplos “eu”, revelando a sua dor de pensar e a intelectualização do sentir. É esta última que o conduz através de um processo constante de autoanálise. Em dúvida e indefinido quanto à sua identidade, angustiado pelo autoconhecimento – “Por isso, alheio, vou lendo / como páginas meu ser” – é incapaz de viver a vida, mergulhando no tédio e na angústia existenciais.
Será através da fragmentação do “eu” que Fernando Pessoa tenta encontrar a totalidade de forma a conciliar o ato de pensar e o do sentir.


FERNANDO PESSOA: APONTAMENTOS (1991) [1]



A ruptura - "Orpheu", a revista





O grupo de Fernando Pessoa assemelha-se ao espectáculo de um artemoto ou sismo artístico que não foi levado muito a sério.

"Uma revolução pode nascer (e muitas vezes nasce) de uma reacção ao tédio."

Era preciso inventar uma vida nova e uma literatura nova.

Almada Negreiros: "Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas."

e não só.

era igualmente necessário reinventar:

- a visão do mundo;
- os valores;
- as metáforas; 
- a sintaxe; 
- a mitologia em vigor;
- a estrutura interna dos poemas;
- toda uma metodologia mais sofisticada do conhecimento.

Ainda as revistas: "A Águia"


- nela surge o que ainda restava do Simbolismo em Pessoa e que agora chegava ao fim. Do refinamento deste, levado ao extremo, nascerá o "paulismo" ...
[que se auto-apelida narcisicamente de vago, subtil e complexo.]

Estilo paúlico?

Voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, "pela associação de ideias desconexas", pelas frases nominais, exclamativas, pelas aberrações de sintaxe, pelo vocabulário expressivo do tédio, do vazio da alma, do anseio de "outra coisa", um vago "além" (ouro, azul, Mistério), pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras.  

Mas será a publicação de "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos no primeiro número de "Orpheu" que anunciará o fim do simbolismo decadente e apontará para algo mais moderno.

O que quer "Orpheu"?

- criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço;
- a nossa época é aquela em que mais materialmente do que nunca e, pela primeira vez, intelectualmente, os países existem todos dentro de cada um e na Europa;
- a Europa é a região civilizada que dá o tipo e a direcção a todo o mundo;
- por isso, a arte moderna tem de ser o mais desnacionalizada possível de modo a acumular dentro de si todas as partes do mundo.

A "Nossa Arte" será aquela onde:

- a dolência e o misticismo asiático...
- o primitivismo africano...
- o cosmopolitismo das Américas...
- o exotismo ultra da Oceânia...
- o maquinismo decadente da Europa

            ... fundam - cruzam - interseccionam

originando uma arte-todas-as-artes.



A primeira vaga de Poesia Moderna com "Orpheu" não era esteticamente homogénea; não foi a única prática de vanguarda desses anos embora se encontrasse em sintonia cronológica com outros movimentos das primeiras vanguardas europeia:

1911 - Futurismo
1911 - Imagismo
1914 - Dadaísmo
1915 - Orpheu [permitiu uma prática de ruptura de vanguarda e uma plataforma de encontro passado/futuro]


terça-feira, 14 de novembro de 2017

FERNANDO PESSOA: ISMOS EM "ORPHEU" [2]



PAÚLISMO 

- directa ultrapassagem de "A Àguia"
- raízes no simbolismo mais decadentista
- influência difusa dos nossos líricos e contistas

INTERSECCIONISMO

- ajustamento a uma diferente exploração psíquica
- aproximação à liberdade futurista  e ao orfismo de Delaunay

SIMULTANEÍSMO

- tradução de uma visão essencialmente plástica
- sugestão da técnica de continuidade de James Joyce

FUTURISMO

- profissão de fé aos manifestos futuristas

SIMBOLISMO

- persistência quase pura ou contaminada de classicismo, da poética simbolista

DECADENTISMO

- quase sempre confundido na estética paúlica
- emprego de verso ou de prosa

SENSACIONISMO

- classificação genérica que incluía toda e qualquer tonalidade órfica



O Futurismo aparece em Portugal como um escândalo sociológico pois assim foi programado. Representa a rejeição do absoletismo da vida portuguesa do momento.

EXALTA:

- o uso exagerado dos pontos de exclamação
- o uso de maiúsculas e a composição gráfica com vários tipos e tamanhos
- o tom altissonante
- o uso substantivo da pontuação


O Futuro Futurista  em Portugal é mais um futuro-desejo do que um futuro-modelo de desenvolvimento. Este facto lança os jovens poetas nos braços do mito - do mito da Pátria e do mito da raça (o Ultimatum de Almada Negreiros é um bom exemplo disso).
Há, por isso, um desejo de progresso, um desejo de Europa, um desejo de identidade do homem e do poeta consigo próprio.

Existe uma contradição que é comum a todos os Futurismos e Vanguardas: a contradição entre o que se deseja fazer e os meios de que se dispõe (entre o programa e o código).
O problema que se coloca reside no assumir de uma tradição que se apresenta como uma continuidade histórica que urge interromper para que o NOVO surja.



FERNANDO PESSOA:O NASCIMENTO DOS HETERÓNIMOS [1]









RICARDO REIS


1913


É médico. De formação latinista e helenista. Escreve Odes, é pagão, um exilado, monárquico, acaba por viajar para o Brasil.



ALBERTO CAEIRO


Por oposição derivada, nasce Alberto Caeiro. É o mestre, de educação filosófica, a sua filosofia é não ter nenhuma. Escreve poesia.


ÁLVARO DE CAMPOS


É o mais novo; o mais rebelde; o mais irreverente; o mais destemido [profere as mesmas ordinarices que os anteriores também disseram.

** Quando nascem os 3 heterónimos em 1914, o terreno já estava preparado; existiam outros anteriores e depois de Campos, poucas surgiram.



O que diferencia todas as personagens literárias referidas anteriormente dos heterónimos?

- Responde Fernando Pessoa:

A diferença corresponde a graus diferentes de despersonalização que Pessoa colocou em cada um deles.

Nas personagens literárias, Pessoa OUTROU-SE de uma forma menor do que nos heterónimos. As personagens literárias ainda têm o cordão umbilical do poeta; não têm uma autonomia própria.


Com António Mora e Bernardo Soares, o corte do cordão deu-se mas a separação não se concretizou.



Em 1935, escreve numa carta a Adolfo Casais Monteiro:


Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho — um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas — e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.
Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas. Era porém mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.
Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.
Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo, em vez de dramas em actos e acção, dramas em almas. Tão simples é, na sua substância, este fenómeno aparentemente tão confuso.  (...) 

 excerto



São várias as categorias das personagens literárias... estas são diferentes do seu autor mas ligadas a ele [de estilo igual mas de resto, diferentes]. 
Já os semi-heterónimos são personagens literárias mais agravadas, mais separadas do seu autor.

No heterónimo, o corpo é outro, não é sombra; é diferente do corpo do seu autor. Por sua vez, o heterónimo surge quando não tem nada a ver com o autor, chegando mesmo a discordar dele.