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domingo, 14 de maio de 2017

O TEMPO EM "FREI LUÍS DE SOUSA (tempo simbólico)



O TEMPO SIMBÓLICO

De referir o valor simbólico que a 6ª feira assume na obra: o primeiro e segundo atos ocorrem a uma sexta-feira uma vez que os separam oito dias, a 4 de Agosto, o Ato I e o segundo, na fala de Maria, Cena I,  “Há oito dias que aqui estamos nesta casa”.
Este dia está conotado com a tragédia o que nos remete igualmente para a crença popular na desdita da sexta-feira 13. É, pois, compreensível que os principais acontecimentos desta obra aconteçam a uma sexta-feira e, naturalmente, conotados com a ideia de tragédia:
1 – dia do primeiro casamento de D. Madalena.
2 – D. Madalena vê Manuel de Sousa pela primeira vez, apaixonando-se imediatamente por ele, apesar de ser casada com D. João de Portugal.
3 – batalha de Alcácer Quibir (4 de Agosto de 1578), desaparecimento de D. João de Portugal e de D. Sebastião.
4 – D. Manuel de Sousa Coutinho incendeia a sua casa, motivando a mudança da família para o palácio de D. João.
5 – regresso de D. João, na figura do Romeiro.

Igualmente importante é a simbologia trágica atribuída ao número e aos seus múltiplos:
1 – D. Madalena procura saber notícias do seu primeiro marido durante sete anos, após os quais casa com D. Manuel de Sousa Coutinho.
2 – o casamento de D. Madalena e de D. Manuel de Sousa durava havia catorze anos (duas vezes sete).
3 – D. João regressa a casa vinte e um anos após a batalha de Alcácer Quibir (três vezes sete).
O número sete corresponde ao número de dias que perfaz uma semana, conclusão de um ciclo que, no caso da obra, corresponde ao final da vida do casal e, consequentemente, a uma situação trágica.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O ESPAÇO SOCIAL EM "FREI LUÍS DE SOUSA"


Refere-se o Espaço Social ao conjunto de informações ou referências textuais que nos permitem concluir sobre costumes e mentalidades que caracterizam uma época, a época em que decorre a ação, em que vivem as personagens.
Sucintamente:
- as características do palácio de D. Manuel apontam para a existência uma família aristocrática;
- ainda na sequência do ponto anterior: a existência de serviçais ou criados como Telmo, Doroteia e Miranda;
- D. Madalena possui um grau de educação pouco habitual para a época, sendo mulher, pois quando a ação se inicia, está a ler;
- o mesmo se passa com Maria que lê “Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro;
- D. João de Portugal, cavaleiro, pois combateu ao lado de D. Sebastião;
- a população de Lisboa vive em péssimas condições devido à peste; as personagens vivem em Almada, razão pela qual não são atingidas visto não haver comunicação;
- próprio da época e usual nas classes sociais mais elevadas: os casamentos eram de conveniência, sem amor, à semelhança do que sucedeu com D Madalena ao casar com D. João por obrigação;
- para todos os efeitos, Maria é filha ilegítima logo que se sabe que D. João está vivo e apesar de ser fruto de um casamento, o segundo de sua mãe;
- as formas de comunicação eram dificultadas pela falta de meios e pela distância, a comprová-lo, o facto de só se saber que D. João estava vivo passados tantos anos;
- a esposa é, normalmente, mais nova do que o marido, assumindo este a função de um segundo pai.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O TEMPO DRAMÁTICO.



O Tempo dramático


“Ato Primeiro”: “Câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século dezassete”…
Apesar da anterior informação cénica, a ação desenrola-se no último ano do século dezasseis. Com efeito, Garrett assume, na Memória ao Conservatória Real, que os aspetos cronológicos não o terão preocupado pois considerou mais importante “o trabalho de imaginação” irreconciliável com os “algarismos das datas”.
            Seguem-se algumas das referências cronológicas que aparecem na obra:

            - período anterior a 1578 – casamento de D. Madalena com D. João de Portugal.
            - 4 de Agosto de 1578 – batalha de Alcácer Quibir; desaparecimento de D. João de Portugal assim como de D. Sebastião.
            - de 1578 a 1585 (decorrem 7 anos) – durante este período, D. Madalena faz todos os esforços para encontrar o paradeiro de D. João de Portugal sem obter qualquer resultado.
            - 1585 – D. Madalena casa com Manuel de Sousa Coutinho por quem se apaixonara ainda durante o seu primeiro casamento.
            - 1586 – da união de Manuel de Sousa Coutinho e de D. Madalena nasce Maria (que tem treze anos no momento em que se inicia a ação).
            - 1599 – ano em que decorre a ação e catorze anos após o casamento de Manuel de Sousa e de D. Madalena.
            O período de tempo que separa o desaparecimento de D. João de Portugal e o momento em que se desenrola a ação é constituído por vinte e um anos, o que nos permite situar a ação no ano de 1599.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O ESPAÇO NO ATO I




ATO I
ESPAÇO

- vila de Almada
- Pontal de Cacilhas
- vista sobre o Tejo, com faluas, e Lisboa
- próximo do convento de S. Paulo (“quatro passadas”)
- palácio de Manuel Sousa Coutinho, com um eirado
- câmara antiga; luxo, elegância
- retrato de Manuel de Sousa Coutinho
- bufete com livros, tapeçarias, porcelanas
- cadeira antigas, tamboretes, contadores


in nº 21, Texto Editora

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O TEMPO NO ATO I


ATO I
TEMPO

- princípio do século XVII
- fim da tarde
- reformistas da Alemanha (cena 2)
- desavenças entre portugueses e castelhanos (cena 2)
- peste em Lisboa
- “depois daquela jornada de África que me deixou viúva” (cena 2)
- sete anos de buscas (cena 2)
- segundo casamento de D. Madalena há catorze anos (cena 2)
- noite fechada (cena 7)


in nº21, Texto Editora


"FREI LUÍS DE SOUSA": AS PERSONAGENS, ATO I: MADALENA


ATO I
PERSONAGENS
Madalena

- da família dos Vilhenas
- culta, dedicada à leitura (cita versos do episódio “Inês de Castro” de Os Lusíadas)
- frágil, sensível, fraca, dominada por medos e terrores (cena I)
- grata pela prontidão, servilidade de Telmo; respeita-o como a um familiar (cena 2)
- preocupada com a influência que Telmo exerce sobre Maria (cena 2), admoestando-o neste sentido
- reconhecida pela consideração e afeto que Telmo lhe dedicou logo que se casou  com 
D. João de Portugal (cena 2)
- preocupada em relação à sensibilidade / debilidade da filha (cenas 2, 3)
- fiel à memória do primeiro marido, durante 7 anos procedeu a buscas (cena 2)
- ama o segundo marido; sempre respeitou o primeiro (cena 2)
- ciumenta pela devoção que Telmo dedica a Maria (cena 2)
- constrangida pelo facto de Telmo intensificar os seus temores (cena 2), acusando-o por isso
- assustada com a possibilidade de D. João de Portugal viver ainda – “quimera”, “fantasma” (cena 2)
- preocupada com o atraso do marido que fora a Lisboa (cenas 2, 5)
- receosa, impotente perante a ação do marido face aos “poderosos” (cena 7)
- fraca, com falta de coragem para enfrentar a antiga casa (cena 7)
- obediente ao marido (cena 8)
- indiciadora de desgraças, calamidades (cena 8); pânico, presságios “três dias, três horas”
- supersticiosa, tenta salvar, em vão, o retrato de Manuel de Sousa Coutinho (cena 12)


in nº 21, Texto Editora






domingo, 13 de novembro de 2016

ELEMENTOS ESSENCIAIS DA TRAGÉDIA CLÁSSICA


Hybris - Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou de um comportamento que constitui um desafio aos poderes definidos sejam eles de ordem familiar, social, da natureza e / ou outros.

Em FLS, a Hybris verifica-se na realização do segundo casamento de Madalena, sem que esta tenha a certeza da morte de D. João; há um desafio ao Destino. Por sua vez, Manuel de Sousa desafia as leis da política ao incendiar o seu palácio para impedir a sua ocupação pelos espanhóis.

Pathos - Sofrimento, progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankê) e executado pelas Parcas (Cloto, que presidia ao nascimento e sustinha o fuso na mão; Láquesis, que fiava os dias da vida e os seus acontecimentos; Átropos, a mais velha das três irmãs, que, com a sua tesoura fatal, cortava o fio da vida), como consequência da sua ousadia.

Em FLS, verifica-se pelo sentimento de culpa de Madalena, pela instabilidade emocional de Maria; pela aflição de Manuel de Sousa ao aperceber-se da ilegitimidade de sua filha, pela angústia de Telmo que se sente dividido entre a fidelidade a D. João e o amor que entretanto ganhou a Maria.

Ágon – “Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida.”

Em FLS está visível no dilema vivido por Telmo e que o divide entre o seu amor a Maria e a fidelidade a seu amo, D. João de Portugal.

Anankê - É o Destino. Preside às Parcas e encontra-se acima dos próprios deuses, aos quais não é permitido desobedecer-lhe.

Encontra-se presente quando os espanhóis escolhem o palácio de Manuel de Sousa para habitar, determinando assim a mudança da família para o palácio de D. João; de igual modo, é o Destino a determinar a ausência deste e o seu regresso 21 anos depois.

Peripécia – “Segundo Aristóteles, "Peripécia é a mutação dos sucessos no contrário".” Caracteriza-se pela existência de um acontecimento imprevisível que altera o normal curso dos acontecimentos da ação, ao contrário do que se podia esperar.

O regresso inesperado de D. João vem alterar a ordem da família deste texto pois o casamento de Madalena e de Manuel de Sousa é anulado, situação que o Romeiro ainda tenta alterar mas que, no entanto, é já irreversível.

Anagnórise (Reconhecimento) – “Segundo Aristóteles, "o reconhecimento, como indica o próprio significado da palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para a amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou a desdita." Aristóteles acrescenta: "A mais bela de todas as formas de reconhecimento é a que se dá juntamente com a peripécia, como, por exemplo, no Édipo”." No reconhecimento podem ser constatados factos ou acontecimentos acidentais, ocasionais mas que se traduzem quase sempre na identificação de uma personagem como, aliás, sucede com a figura do Romeiro de FLS enquanto D. João de Portugal. O clímax dá-se quando este é reconhecido como D. João.

 Catástrofe - Desenlace trágico cujos indícios vão sendo referidos pelas personagens e que deve ser indicado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desafio da personagem) e a anankê (destino), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante). Segundo Aristóteles, a catástrofe " é uma ação perniciosa e dolorosa, como o são as mortes em cena, as dores veementes, os ferimentos e mais casos semelhantes."

Em FLS adquire várias formas: a separação de Madalena e de Manuel de Sousa quando optam pela vida religiosa; a morte de Maria; D. João ganha consciência de que não é ninguém uma vez que perdeu a casa, a vida que tinha e a mulher.

Katharsis (Catarse) – “Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédia, através do terror (phobos) e da piedade (eleos) que deve provocar nos espetadores.”


"FREI LUÍS DE SOUSA": AS PERSONAGENS, ACTO I, TELMO


ATO I
PERSONAGENS
Telmo
- crente, respeitador a Deus (cena 2)
- de baixa condição – não sabe latim (cena 2)
- fiel servidor, leal amigo de seus amos, a quem admira, prevalecendo a admiração e devoção por D. João de Portugal (cena 2)
- devoto a Maria (cena 2)
- respeitado e estimado por Madalena e Maria
- íntimo de Madalena, conhece os verdadeiros sentimentos desta (cena 2)
- amável e bondoso, deu carinho, proteção e amparo a D. Madalena logo que casou com D. João e após a viuvez (cena 2)
- autor de agouros e profecias (cena 2)
- crente de que D. João continua vivo após vinte e um anos (cena 2)
- crente da reciprocidade de estima por D. João de Portugal (cena 2)
- consciente da falta de amor de D. Madalena para com D. João de Portugal, apesar de reconhecer àquela respeito, devoção, lealdade (cena 2)
- substituto de D. João nos ciúmes que este não teve (cena 2)
- consciente da fragilidade, debilidade, doença de Maria
- amigo e apreensivo com a preocupação de Madalena em relação a Maria, compromete-se a não verbalizar a sua crença sebastianista e / ou regresso do primeiro amo junto de Maria (cena 2)

in nº 21, Texto Editora



sábado, 12 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": AS PERSONAGENS, ATO I, MANUEL DE SOUSA COUTINHO

ATO I
PERSONAGENS
Manuel de Sousa Coutinho

- da família dos Sousa; Cavaleiro de Malta
- inteligente, ativo (cenas 7, 9 10)
 nervoso, agitado, revoltado – cena 7
- prudente, toma as devidas precauções (cenas 7, 9); cauteloso, não se deixa surpreender; de decisões rápidas (cena 9)
- indiferente, despreza os receios da mulher em voltar à antiga casa, impõe a sua vontade, relativiza, inferioriza os temores dela – “caprichos” (cena 8)
- tranquiliza a mulher e pede-lhe que lhe faça o mesmo, não se deixando dominar por “vãs quimeras de criança” (cena 8)
- não sente ciúmes do passado de D. Madalena com D. João (cena 8)
- patriota, íntegro (cenas 8, 10, 11, 12); despreza a tirania (cena 10); compara-se a seu pai que morrera pela própria espada (cena 11)

in nº 21, Texto Editora


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": ESTRUTURAS EXTERNA E INTERNA


ESTRUTURA EXTERNA
            Frei Luís de Sousa é constituído por três atos, sendo que o primeiro e o terceiro têm doze cenas e o segundo ato, quinze. Verificamos, assim, estarmos perante um texto organizado de forma tripartida, regular e harmoniosa.

ESTRUTURA INTERNA
            Nela há a considerar três partes ou momentos:

            Exposição – Ato I, Cenas I a IV
            Através das falas das personagens tomamos conhecimento dos antecedentes da ação que explicam as circunstâncias atuais; conhecemos igualmente as personagens e as relações existentes entre elas.

            Conflito – Cenas V a XII do Ato I, Ato II e até à Cena IX do Ato III
            Desenrolar gradual dos acontecimentos, em que se vivem momentos de tensão e de expetativa – no caso de FLS, desde o conhecimento de que os governadores espanhóis escolheram o palácio de Manuel de Sousa para se instalarem até ao reconhecimento do Romeiro (Clímax) – e que desencadearam uma série de peripécias.

            Desenlace – Ato III, Cenas X a XII
            Desfecho motivado pelos acontecimentos anteriores – dá-se a consumação da tragédia familiar em que Maria morre e os seus pais se veem obrigados a separar-se, morrendo um para o outro assim como para a vida terrena.
           
           

"FREI LUÍS DE SOUSA": AS PERSONAGENS, MARIA

ATO I
PERSONAGENS
Maria
- 13 anos
- curiosa, interessada, instruída, célere no entendimento, precoce (cenas 2, 3]
- formosa, fraca, frágil, doente – tísica (cens 2, 3)
- bondosa, pura, inocente (cena 2)
- estima, admiração por Telmo e à vontade perante este (cenas 2, 3)
- preocupada com a voz do povo que continua à espera de D. Sebastião (cena 3)
– perplexa por ninguém querer ouvir falar no regresso de D. Sebastião - exceto Telmo (cena 3)
- inconsciente da sua doença (cena 3)
- apreensiva com a preocupação da mãe em relação a ela (cena 4)
- com poderes sibilinos, adivinhatórios (cena 4); prevê a chegada do pai à distância (cena 5)
- diferente das outras crianças: responsável, adulta (cena 4)
- desgostosa por não ser um rapaz que pudesse ajudar o pai (cena 4)
- solidária com o povo que não pode sair da cidade para mudar de “ares” (cena 5)
- adulta, opina sobre a necessidade de remediar o desconcerto, as injustiças do mundo (cena 5)
- infantil pelo desejo de presenciar uma batalha que impedisse os governadores de se instalarem (cena 5)
- orgulhosa do caráter nobre e patriótico do pai (cena 7)

in nº 21, Texto Editora

domingo, 6 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": CONCEÇÃO CÍVICA E PEDAGÓGICA


Notas soltas, outras nem tanto :)


- Trata-se de uma obra política
·         as personagens não estão com a sua consciência centrada neles próprios, enquanto seres individuais, pois cada um deles tem uma relação objetiva com o destino histórico da sua Pátria, com o que ela é.

## o fim das personagens principais aponta para o fim do próprio país!
... um país que não tem presente mas um passado (este passado chega mesmo a ser representado pelo Romeiro, como elemento trágico para uma família, para um país).

##  Oliveira Martins chama-lhe "a tragédia portuguesa, sebastianista".
  • é um texto dramático que põe em cena o sentimento português e o jogo dos afetos humanos.
##  ler FLS exige a descodificação dos seus símbolos e mitos e o Sebastianismo é a base que estrutura e organiza a mensagem.
  • o fogo, que é deitado ao palácio, é o único ponto/gesto positivo do herói MSC, cujo retrato arde nesse mesmo incêndio.
  • o Romeiro (D. João de Portugal) é um falso D. Sebastião desejado por todos e será ele quem os destruirá com o seu regresso.
  • ele diz Ninguém!, representativo do rosto de um Portugal morto, só com passado e sem esperança, perspetivas num futuro ou de mudança.
##  FLS é escrito em 1843, quando o despotismo de Costa Cabral e a corrupção do regime ameaçavam o país com uma guerra civil. Esta obra representa igualmente o protesto e a recusa de todas as formas de tirania e opressão política, moral ou religiosa.

##  para Almeida Garrett, o conceito de progresso encontra-se ligado ao de Liberdade.

##  do conjunto de personagens de FLS apenas Maria representa uma esperança e um futuro.

##  todas as personagens são símbolos da Pátria nos vários momentos - passado, presente e futuro.


INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE "FREI LUÍS DE SOUSA"




… de Almeida Garrett
- É, talvez, a sua obra-prima literária.
- Qual a sua motivação ao escrevê-la? São várias as hipóteses que se colocam:
- Razões pessoais e familiares?
(a morte de Adelaide, que lhe deixa uma filha ilegítima);
- Razões políticas?
A crise que Portugal atravessa; espera-se que este ressuscite (Portugal sofria com os ideais liberalistas e com a ditadura de Costa Cabral)
- Razões literárias?
Existência de várias obras retratando esta temática.
Sobre a classificação literária de F.L.S. enquanto género literário.
Para os gregos, a tragédia era a forma superior do género dramático.
Almeida Garrett cria um género híbrido, formado a partir de elementos de categorias diferentes em que mistura o Drama e a Tragédia.
Problemática da classificação da obra
Almeida Garrett, na Memória ao Conservatório Real de Lisboa, afirma:
- FORMA (Drama)  --- Drama Romântico: expressa literariamente um determinado estado social.
- tem 3 atos;
- texto escrito em prosa (adapta-se melhor à expressão de sentimentos das personagens);
- respeita a lei das 3 unidades (Ação, Espaço e Tempo);
- tem elementos trágicos.
- ÍNDOLE (Tragédia)
- assunto retirado da história nacional; --- tal como no Drama Romântico em que a ação da peça "esconde" uma situação real.
- ação dramática e trágica;
- poucas situações, poucas personagens e atitudes simples;
- personagens tementes a Deus e honestas; --- tal como no Drama Romântico em que o ser humano é alvo de uma atenção analítica; faz-se a exaltação dos valores patrióticos e religiosos.
- nem amores, nem aventuras, nem paixões, nem violências;
- ação simples.
Não tem como os dramas clássicos:
            - um mau
            - um tirano
            - verso como forma de expressão

Não tem como os dramas modernos:
            - Assassínios; adultérios; incestos; blasfémias; maldições.
Tem:
- Terror (a provocar no espetador)

Não está escrita em verso por isso contenta-se com o título modesto de Drama, mas um Drama Moderno porque, pela forma, não merece a categoria mas pela índole, há de ser um antigo género trágico.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

DRAMA OU TRAGÉDIA? A CLASSIFICAÇÃO DE FLS




«Garrett disse na Memória ao Conservatório que o conteúdo de Frei Luís de Sousa tem todas as características de uma tragédia. No entanto, chama-lhe drama, por não obedecer à estrutura formal da tragédia:
não é em verso, mas em prosa;
não tem cinco atos;
não respeita as unidades de tempo e de lugar;
não tem assunto antigo.
Sendo assim, quase podemos dizer que é uma tragédia, quanto ao assunto. Na verdade,
1.          o número de personagens é diminuto;
2.          Madalena, casando sem ter a certeza do seu estado livre, e Manuel de Sousa, incendiando o palácio, desafiam as prepotências divinas e humanas (a hibris);
3.          uma fatalidade ( a desonra de uma família, equivalente à morte moral), que o assistente vislumbra logo na primeira cena, cai gradualmente (climax) sobre Madalena, atingindo todas as restantes personagens (pathos);
4.          contra essa fatalidade, os protagonistas não podem lutar (se pudessem e assim conseguissem mudar o rumo dos acontecimentos, a peça seria um drama); limitam-se a aguardar, impotentes e cheios de ansiedade, o desfecho que se afigura cada vez mais pavoroso;
5.          há um reconhecimento: a identificação do Romeiro (a agnorisis);
6.          Telmo, dizendo verdades duras à protagonista, e Frei Jorge, tendo sempre uma palavra de conforto, assumem o papel do coro grego.
Mas, por outro lado, a peça está a transbordar de romantismo:
1.          a crença no sebastianismo;
2.          a crença no aparecimento dos mortos, em Telmo;
3.          a crença em agouros, em dias aziagos, em superstições;
4.          as visões de Maria, os seus sonhos, o seu idealismo patriótico;
5.          o «titanismo» de Manuel de Sousa incendiando a casa só para que os Governadores do Reino a não utilizassem;
6.          a atitude que Maria toma no final da peça ao insurgir-se contra a lei do matrimónio uno e indissolúvel, que força os pais à separação e lhos rouba.
Se a isto acrescentarmos certas características formais, como

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CARACTERÍSTICAS DA TRAGÉDIA GREGA



Características da Tragédia Clássica:
1.      Efeitos sobre o público:     
·         Inspirar sentimentos de terror e piedade
2.      Características gerais:
2.1. 
Personagens de alta estirpe (social e moral).
2.2. Presença de um coro: conjunto de personagens que não intervêm diretamente na ação e cuja função é comentar determinados momentos da ação à medida que esta se vai desenrolando.
2.3. Lei das três unidades:
 ·         unidade de ação – a intriga deve ser simples, sem ações secundárias, de modo a evitar dispersão, aumentando assim a tensão dramática;
 ·         unidade de espaço – toda a ação deve desenrolar-se no mesmo espaço;
 ·         unidade de tempo – a duração da ação dramática nunca deve exceder as 24 horas.
2.4. Estrutura tripartida da ação:
·         Exposição – apresentação das personagens; esboçar do conflito ligado a um mistério na origem das personagens, mistério provocado pela força oculta do Destino o qual se revela através de indícios, que apontam para um desfecho trágico e para o desvendar do mistério inicial.
·         Progressão dramática – desenvolvimento do conflito que se encaminha para um clímax ( pathos – ponto culminante da ação trágica) em que se desvenda o mistério, ligado a uma relação de parentesco oculta ( reconhecimento / anagnórise);
·         Desenlace / Catástrofe – o fim das personagens é sempre a morte (física, social ou afetiva).


·             Aconselha-se a leitura de extratos da Memória ao Conservatório Real para, confrontando com as características gerais da tragédia clássica e do drama romântico, se inserir o Frei Luís de Sousa na tipologia dos textos dramáticos.            

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“ Memória ao Conservatório”
   Na Memória ao Conservatório Real, lida quando ofereceu o Frei Luís de Sousa à prestimosa instituição, afirma Garrett que a peça capaz de entusiasmar o homem moderno é o drama romântico. Expõe esse acerto comentando a peça que leva na mão.
a)      Um assunto de tragédia
Começa por dizer que na «história do Frei Luís de Sousa, (...) há toda a simplicidade de uma fábula trágica antiga». A catástrofe é um duplo suicídio: Manuel de Sousa e Madalena morrem para o mundo. Poderia com o enredo construir uma verdadeira tragédia se quisesse.
b)      Mas não quis fazer uma tragédia
E continua a expor o dramaturgo que não lhe deu o nome de tragédia, porque:
-          o assunto não é antigo;
-          não quis usar o verso;
-          utilizou a prosa, pois mal parecia não colocar prosa na boca do melhor prosador português.
c)      Quis chamar-lhe drama
«Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama». Ninguém sabe – diz ele - o que é o drama; no entanto, confessa a seguir que é o único género de teatro com probabilidades de interessar a gente do século, toda inclinada ao estudo do homem.

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FREI LUÍS DE SOUSA
 A ação do drama e a história
   A ação do drama decorre em Almada, nos fins do século XVI, mais ou menos duas dezenas de anos após o desastre de Alcácer Quibir. Nesse tempo, em plena dominação espanhola, perpassava pelo coração de todos os patriotas portugueses uma onda avassaladora de sebastianismo.
       Madalena de Vilhena casara com D. João de Portugal, homem que respeitava muito, mas a quem nunca teve verdadeiro amor. D. João foi combater em Alcácer Quibir e não voltou.   D. Madalena indagou da vida ou morte do  marido, tanto quanto é humanamente possível. Não chegou a resultado algum.  Ninguém lhe dava notícias de ele ter morrido nem de estar vivo.
       Julgando-se então livre, uniu-se em segundas núpcias a Manuel de Sousa Coutinho, fidalgo que conhecera e amara, quando ainda vivia com D. João de Portugal.
       D. Madalena, que nunca obtivera a certeza absoluta da morte do primeiro  marido, não conseguia calar um certo remorso que se lhe agitava cada vez mais dentro do peito e vivia intranquila. Para aumentar este desassossego, muito contribuía o velho aio de D. João, Telmo, com a crença de que o seu Senhor voltaria, vivo ou morto.
       Manuel de Sousa, certo dia, queimou a casa onde morava, só para que os governadores filipinos de Lisboa, fugidos à peste, não a ocupassem, e a família tem de ir morar para um palácio que fora de D. João de Portugal. Para D. Madalena, tudo ali são recordações do primeiro marido. Ela não pode esquecê-lo. Vive apavorada com medo de que ele surja de uma hora para outra. E é que surgiu mesmo, na pessoa do Romeiro, que se identificou diante de Frei Jorge como sendo D. João de Portugal em carne e osso.
      Agora só havia uma solução: separarem-se D. Madalena e Manuel e abraçarem, de comum acordo, a vida religiosa. É o que vão fazer. Maria, tuberculosa, fraca, ao ver-se sem pais, cai morta aos pés deles, no momento em que tomavam hábito.
António José Barreiros,
História da Literatura Portuguesa,
2.º Volume