quinta-feira, 11 de maio de 2017

"OS MAIAS": NAS 2ª/3ª AULAS COM A OBRA À FRENTE (PARTE 2)



Ainda sobre o título e o subtítulo...

Os Maias, título que nos remete para a história trágica que serve de pretexto para desenvolver a comédia de costumes que o subtítulo, "episódios da Vida Romântica", sugere.

A obra desenvolve-se com base em três temas:

1 - História de uma família;
2 - Paixão e tragédia de Carlos;
3 - Comédia burguesa e lisboeta (comédia de costumes).



1 - História de uma família

Inicia-se com Caetano da Maia e assistimos à decadência do absolutismo.

Seu filho, Afonso da Maia, casa com Maria Eduarda Runa. O Romantismo começa a despertar, acontecem as revoluções liberais numa clara reação ao absolutismo.

Deste casamento nasce Pedro da Maia que viria a casar-se com Maria Monforte. O Romantismo conhece o seu apogeu, as crises liberais anunciam a sua decadência. Regeneração.

Filhos de Pedro e Maria, Carlos e Maria Eduarda... Dá-se a decadência do liberalismo. Ultrarromantismo, Realismo. Regeneração.


MAIS TARDE...

A desagregação da família com:

  • Morte de Afonso;
  • Separação de Carlos e Maria Eduarda.



2 - Paixão e tragédia de Carlos


O percurso de Carlos será determinado pelas opções que os seus pais foram fazendo na vida.

Tudo terá início na paixão entre Pedro e Maria Monforte, seguida da separação de ambos.
Maria foge com a filha, Maria Eduarda, deixando Carlos com o pai que entretanto se suicida.

É a partir destes acontecimentos que o texto ganha características próprias da tragédia clássica...

* PERIPÉCIAS - paixão de Carlos.

** RECONHECIMENTO - conhecimento da identidade de Carlos e de Maria Eduarda através da carta deixada por Maria Monforte.

*** CATÁSTROFE - incesto dos irmãos que será a causa da morte de Afonso da Maia. 




3 - Comédia burguesa e lisboeta (comédia de costumes)

# "Episódios da vida romântica", da sociedade do último quartel do século XIX.


  • todos os episódios já referidos.

A par desta desagregação familiar outra acontece: a de um país, Portugal, devido às mentalidades retrógradas que nele proliferam, um País necessitando de uma Reforma. 

A incidência sobre este mundo social e político de Lisboa prova que este não foi capaz de superar a crise de personalidade e de autenticidade cultural do Romantismo e apesar de personagens como Ega ou Carlos, que se mostram defensoras do Realismo e do Ultrarromantismo. 
Deste modo, a história da família Maia entrelaça-se com a história do século XIX, servindo três gerações: Afonso - Pedro - Carlos. Mostra que a sociedade continua a não encontrar um rumo certo de modernidade. 

 Em resumo:

- Caetano da Maia, português antigo; apoiante do absolutismo.

- Afonso da Maia, lutou pela implantação do liberalismo.

- Pedro da Maia, fracasso do liberalismo e a mentalidade frustrada de um romântico.

- Carlos da Maia, regeneração com os ambientes e os hábitos sociais em crise política, social e cultural.



"OS MAIAS": FACTORES DE INFLUÊNCIA NO CARÁCTER INDIVIDUAL E COLETIVO DAS PERSONAGENS



Agora que já verificámos de que forma o título e o subtítulo da obra Os Maias se entrelaçam servindo os objetivos de Eça de retratar a sociedade do séc. XIX, podemos continuar a nossa análise.
O trajeto da família Maia desenvolve-se ao longo de três gerações sucessivas - Afonso, Pedro e Carlos - ao mesmo tempo que assistimos à evolução de uma sociedade que continua em busca de um rumo de modernidade sem, no entanto, o conseguir.
Se, com Caetano da Maia, encontramos a figura representativa do português antigo, defensor do absolutismo já em queda, com Afonso da Maia conhecemos uma geração que lutou pela implantação do liberalismo o qual virá a fracassar na geração do seu filho, Pedro da Maia, caracterizada igualmente por uma mentalidade frustrada de um romantismo que começa a apreciar-se na falência e na catástrofe. A Regeneração, com os ambientes e os hábitos de uma sociedade de uma sociedade em crise política, social e cultural, surge com a geração de Carlos da Maia.
Como já foi referido nem mesmo personagens como Carlos ou Ega conseguiram alterar o rumo desta crise e, já no final d'Os Maias, Ega confessa a sua admiração por Alencar, a quem tanto criticou o Romantismo, movimento que representou ao longo da obra.
Eça prova assim que não é fácil deixarmos de estar em consonância com o tempo em que vivemos. Ega e Carlos procuraram outro rumo mas acabaram por constatar que não alteraram muito uma conduta e um espírito tradicionalmente aceite:

"E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão..." (p.714)

O Romantismo surge, uma vez mais, criticado mas agora, não como movimento estético mas como um modo de estar na vida e como sendo a causa do mal nacional.


O PAPEL DA EDUCAÇÃO


A educação tradicionalista e conservadora desvalorizou a criatividade e o juízo crítico, deformou a vontade própria, arrastou os indivíduos para a decadência física e moral.
Em Pedro da Maia, por exemplo, levou-o a uma devoção histérica pela mãe e tornou-o incapaz de encontrar uma solução para a sua vida quando Maria Monforte o abandonou; em Eusebiozinho, tornou-o "molengão e tristonho", arrastou-o para uma vida de corrupção, para um casamento infeliz e para a debilidade física.
Pelo contrário, a educação inglesa procurou "criar a saúde, a força e os seus hábitos", fortalecendo o corpo e o espírito. Foi graças a ela que Carlos da Maia adquiriu valores do trabalho e do conhecimento experimental que o levaram a formar-se em Medicina e a dedicar- -se a projetos de investigação, de empenhamento na vida literária, cultural e cívica.

A vida de ociosidade de Carlos e os contínuos fracassos de trabalho não resultaram da educação mas da sociedade em que se viu inserido. A ausência de motivações no meio em que se movimentou, o próprio estatuto económico que não lhe exigia qualquer esforço, a paixão romântica que o seduziu foram causas suficientes para, apesar de culturalmente bem formado, desistir, sentir o desencanto e afastar-se das atividades produtivas.
Mas, ao contrário do seu pai, Pedro da Maia, que perante o fracasso amoroso se suicidou, Carlos procurou um novo rumo, tomando por base uma filosofia de vida, a que chama "fatalismo muçulmano": Nada desejar e nada recear. Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar; o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves.

O SIMBOLISMO EM "OS MAIAS" - 1ª PARTE






O simbolismo n' Os Maias

            Maria Eduarda é a terceira figura feminina na panóplia de três gerações da família Maia apresentadas na obra. Simbolicamente, o número três é o número da completude e implica a conjugação de três momentos temporais: o passado, o presente e o futuro, ou seja, a mulher surge na obra como um fator de transformação do mundo masculino, conduzindo à esterilidade, à estagnação. O terceiro elemento feminino torna-se a revelação simbólica dos outros dois que foram nefastos à família.
É ainda interessante ver a relação simbólica que, metonimicamente, se pode estabelecer entre os três lírios brancos que Carlos vê dentro de um vaso do Japão quando, pela primeira vez, tem acesso ao espaço físico onde Maria Eduarda se movimenta, a sua casa na Rua de S. Francisco, e as três mulheres que penetram na família Maia. Apesar da brancura dos lírios (conotada na tradição oriental com o luto), as flores murcham num vaso do Japão. A cultura europeia presente na decoração contracena com a cultural oriental, na qual a alvura representa a morte: a morte física de Maria Eduarda Runa e de Maria Monforte e a morte moral e espiritual (num tempo futuro) de Maria Eduarda Maia. Os lírios brancos, à partida conotados com a pureza, perdem a sua conotação positiva ao murcharem e passam e simbolizar a morte. O lírio concentra a ideia de prosperidade da raça, continuada de geração em geração. Por outro lado, o facto dos três lírios brancos se encontrarem num vaso do Japão aponta já para o incesto, pelo exotismo que representa esta peça decorativa, pois insere no espaço físico de Maria Eduarda uma cultura estranha à cultura ocidental.
Saliente-se que Carlos e Maria Eduarda terão os seus encontros quer na Toca, marcada por uma decoração excêntrica e exuberante, quer no quiosque japonês, pelo que retoma a simbologia de uma cultura estranha neste espaço.
A toca é o nome dado à habitação de certos animais, apontando desde logo para o caráter animalesco do relacionamento amoroso entre Carlos e Maria Eduarda. Carlos introduz a chave no portão da Toca com todo o prazer, sugerindo não só poder mas também o prazer das relações incestuosas (é de lembrar que a chave é um símbolo fálico). Da segunda vez que se alude à chave, os dois amantes experimentam-na o que passa a simbolizar a aceitação e entrega mútua. Os aposentos de Maria Eduarda simbolizam a tragicidade da relação, estando carregados de presságios: nas tapeçarias do quarto “desmaiavam, na trama de lã, os amores de Vénus e Marte”; de igual modo, este amor de Carlos e Maria Eduarda estava condenado a desmaiar e desaparecer; “... a alcova resplandecia como o interior de um tabernáculo profano...” misturando o sagrado e o profano para simbolizar o desrespeito pelas relações fraternas. Assim, a descrição do quarto tem traços próprios de um local dedicado ao culto: a porta de comunicação “em arco de capela”, donde pendia “uma pesada lâmpada da Renascença” conferindo maior solenidade. Com o sol, o quarto “resplandecia como (...) um tabernáculo. Carlos mostrava-se indiferente aos presságios, inconsciente e distante, mas Maria Eduarda impressiona-se ao ver a cabeça cortada de S. João Baptista, que foi degolado por ter denunciado a relação incestuosa de Herodes, e a enorme coruja a fitar, com ar sinistro, o seu leito de amor (lembre-se que a coruja é considerada uma ave de mau agoiro, que surge aqui para vaticinar um futuro sinistro para este amor). O ídolo japonês que há na Toca remete para a sensualidade exótica, heterodoxa, bestial desta ligação incestuosa. Os guerreiros simbolizam a heroicidade, os evangelistas, a religião e os troféus agrícolas, os trabalhos que terão existido na família Maia (e no Portugal). Os dois faunos simbolizam os dois amantes numa atitude hedonista e desprezadora de tudo e de todos. Na primeira noite de amor entre Carlos e Maria Eduarda, a qual se dá precisamente na Toca, dá-se uma grande trovoada como que a pressagiar um mau ambiente que se criaria resultante deste incesto.
Maria Eduarda tem receios, desconhece a sua verdadeira identidade, mas que perscruta o futuro através da análise de pormenores das coisas ou das pessoas, análise essa que assume um valor simbólico ou premonitório, como acontece quando ela descobre semelhanças entre Carlos e a sua mãe.

Páginas 171 - 175 do manual Aula Viva, Vol. I  (adapt.)



"OS MAIAS": ROMANCE MAIS OU MENOS NATURALISTA?



Será com base no ambiente que rodeia os vários episódios e na educação que Eça caracterizará e analisará a sociedade do seu tempo. Deste modo, Os Maias surgem como um romance realista ao retratar os espaços sociais da alta burguesia do século XIX e que recorre frequentemente à estética naturalista com algumas personagens como produto de factores "naturais",sobretudo do meio, da hereditariedade e da educação. 
Pedro da Maia é disso o melhor exemplo numa caracterização imposta pelo romance experimental naturalista. O meio social, de um Romantismo decadente e "torpe", levou-o a vaguear pelos "lupanares e botequins" e a dedicar-se à boémia ou, em alternativa, às visitas do "lausperene" e outras leituras de "Vida de Santos". A educação tradicionalista e conservadora de Pedro deformou-lhe a vontade, tornando-o devoto, piegas e fraco, arrastando-o  para um casamento apressado, instável e falhado, que acabou no suicídio. Hereditariamente, o retrato de Pedro assemelha-se em tudo ao de sua mãe, Maria Eduarda Runa, inclusive nos seus estados mórbidos.

Ler  "Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda (...) a paixão pela mãe."

Ainda seguindo o modelo naturalista está Maria Eduarda quando se faz referência à sua educação num convento ao pé de Tours e aos ambientes duvidosos da "casa da mamã, no Parque Monceaux," que "era na realidade uma casa de jogo mas recoberta de um luxo sério e fino". 
A caracterização de Carlos da Maia foge à estética naturalista embora seja possível verificar que, quer o factor hereditariedade quer o meio, contribuem para o seu dilentatismo e dandismo ou factores educacionais que o preparam para a vida.

A rutura com o Naturalismo surge igualmente com a alteração do narrador omnisciente que dá lugar à focalização interna. Também a caracterização interna ou o recurso ao tempo psicológico dão prova desta rutura.


"OS MAIAS" - ESTILO QUEIROSIANO


















- Estética naturalista de Zola
- Prosa realista de Balzac e Flaubert :   



  Influenciaram Eça de Queirós

  1. Impressões captadas;
  2. Importância da cor, luz, objetividade e construções impessoais.

A sua prosa procura adaptar-se ao ambiente social e à situação, tentando vitalizá-la através de uma linguagem expressiva e sugestiva de novos sentidos.
           Linguagem:

. pitoresco - estrangeirismos - vernaculidade

- para denunciar a pretensa cultura burguesa das personagens         
- influência pessoal dos hábitos, costumes e modos de viver que foram os seus em Inglaterra e em França.
    Estilo Indireto Livre – um dos meios favoritos de Eça para dar vida às suas personagens, colocando-as a falar ou a pensar, sem recorrer ao diálogo ou ao monólogo. Para evitar a monotonia, recorre à alternância entre o Discurso Direto e o Discurso Indireto Livre.

    Oralidade – que não só torna o estilo mais coloquial como cria uma certa familiaridade com o recetor / leitor.

    A nível sintático  

    • frase flexível – recorrendo a uma organização nova e expressiva dos vocábulos.
    • frases curtas – e a vírgula surge como elemento importante para a obtenção do ritmo e para a expressividade de certos grupos lógicos.
    • orações – com verbos dinâmicos, utilizando-os para introduzir o diálogo.
         A nível do estilo

  • ironia – através da utilização de certos adjetivos insólitos ou repetidos em ordem inversa.
  • verbos – de grande valor expressivo como “uivar” ou “rosnar”.
  • neologismos – de diferentes categorias gramaticais.
  • diminutivos – advérbio de modo – adjetivação expressiva dupla ou múltipla, sinestesias, hipálage,  aliteração*, traduzindo sentimentos e sensações.
    aliteração* - “(…) Um rude trovão rolou, atroou,  a noite negra.”











ADJETIVO


    • uso constante da hipálage (transferência de sentido do adjetivo para um substantivo quando, na realidade, se deveria atribuir a outro), servindo-se de vários processos, como o de juntar adjetivos de índole psicológico a substantivos físicos e inanimados;

        • Ex: “as tias, fazendo as suas meias sonolentas”
  • uso do adjetivo com função de advérbio de modo;
        • Ex: “e puxou-lhe uma fumaça furiosa”
  • emprega quase sempre adjetivação dupla, algumas vezes tripla;

    • “Movia o leque com um ar dolente e vago”
      • a adjetivação dupla é utilizada por Eça para caracterizar objetos, exprimindo duas faces da realidade: objetiva / subjetiva – o que são e a impressão que causam no nosso espírito.

      • ADVÉRBIO DE MODO



      • - MENTE     (é utilizado de vários modos e significados)
        1 – no princípio, no meio ou no fim da frase;

  • Ex:  “Afonso apoiava-o gravemente”
                        2 – com ironia;
  • Ex:  “… a radiosa criatura estava caninamente enamorada”
                        3 – na função de superlativação do adjetivo;
  • Ex:  “… Cambray arrisca uma palavra atrevidamente tímida”.
    • caráter novo e mais expressivo “cabelos magnificamente negros”;
    • o advérbio surge aos pares, sendo que o segundo apoia e intensifica o primeiro “sorri regeladamente, lividamente…”. Surgem no interior da frase, separados por vírgulas; pode surgir também a série tripla.
      O DIMINUTIVO

      Os diminutivos podem assumir três significados na Língua Portuguesa:

    • pequenez;   Ex:  “Apesar de antigo, o meu carrito ainda rola bem”;
    • carinho ou ternura;   Ex: “Está-se fazendo tarde, Carlinhos.”;
    • ironia, depreciação:   Ex: “Eusebiozinho”; “as perninhas flácidas”.
      NEOLOGISMOS
      - gouvarinhar;
      - escrevinhador;
      - adulteriozinho;
      - excessozinho.

      CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO INDIRETO LIVRE

      No plano formal:

  • absoluta liberdade sintática do escritor;
  • do discurso direto encontramos a expressividade coloquial através das interrogações e das exclamações, das reticências e expressões de apoio;
  • do discurso indireto encontramos o uso da 3ª pessoa, o pretérito imperfeito, o pretérito mais-que-perfeito, o presente do condicional e ainda os pronomes, determinantes e advérbios que exprimem afastamento (esse, amanhã, etc…)
              No plano expressivo:

  • o narrador aproxima-se da personagem, parece fundir-se com ela;
  • o narrador evita as repetições dos “que(s)” e o emprego do verbo declarativo que substitui, muitas vezes, pelos dois pontos;
  • a narrativa resulta mais fluente, com maior ritmo e artisticamente melhor elaborada;
  • contribui para a expressividade dos monólogos interiores;
  • o seu uso deve ser analisado num determinado contexto;
  • a expressividade é maior se aparece articulada com os discursos direto e indireto.

"OS MAIAS": SIMBOLISMO / ELEMENTOS SIMBÓLICOS - 2ª PARTE


  

             
          
 A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.
In Os Maias, 1888



Lisboa, Rua das Janelas Verdes - princípios do séc. XX
A. desc., [ca 1903]. - 1 fotografia : p&b
AML - ARQ. FOT. A242




     O Ramalhete está simbolicamente ligado à decadência moral do Portugal da Regeneração. O ramo de girassóis que ornamenta a casa simboliza a atitude do amante que, como um girassol, se vira continuamente para olhar o ser amado; girando sempre, numa atitude de submissão e de fidelidade para com o ser amado, o girassol associa-se à incapacidade de ultrapassar a paixão e a falta de recetividade do ser amado, ligando-se assim a Pedro e a Carlos. Os móveis do escritório de Afonso estão cobertos de panos brancos que são comparados a mortalhas com que se envolvem cadáveres, prenunciam já a morte que se abaterá na família Maia. Concentra em si o peso da fatalidade familiar que lhe foi atribuída por Vilaça num relatório sobre a casa que enviou a Afonso, o qual se riu da observação; mas de facto é lá que morre Pedro na sequência do abandono de Maria Monforte e é lá também que Afonso vai morrer de desgosto após descobrir o incesto dos netos.
     O jardim do Ramalhete é rico em simbologias. Numa primeira e última fases, este espaço evidencia a tristeza e o abandono e, na desolação do jardim, sobressaem três símbolos do amor puro e imortal. O cipreste (símbolo da morte) e o cedro (símbolo do envelhecimento), unidos entre si por laços quase míticos que se perdem nos anais da mitologia grega, inseparáveis em vida, envolvidos num amor puro e forte e cuja recompensa foi a união incorruptível das suas raízes, que a tudo resistem, emblematizando o Amor Absoluto; podendo ainda estar ligados ao mundo romântico por serem árvores de cemitério conotadas com a morte, acabam por simbolizar duas personagens românticas mas que na teoria, se dizem realistas e que no final da obra ficam tão sós como estas duas árvores: Carlos e Ega. Velada por este par imortal, encontramos Vénus Citereia, deusa do amor, ligada à sedução e à volúpia, liga-se igualmente às três fases do Ramalhete: numa primeira fase relaciona-se com a morte de Pedro “enegrecendo a um canto”; numa segunda fase, e após a remodelação, aparece em todo o seu esplendor simbolizando a ressurreição da família para uma vida feliz e harmónica (a sua recuperação coincide com o aparecimento de Maria Eduarda), deixando adivinhar prenúncios de uma desgraça futura, enquanto símbolo da feminilidade perversa; na terceira e última fase, enquanto símbolo do Amor e do Feminino, aparece aos nossos olhos coberta “de ferrugem”, simbologia negativa, assumindo-se como duplo de Maria Eduarda, último elemento feminino que, através do amor, destruiu para sempre a frágil harmonia da família Maia. O facto de a estátua ser de mármore simboliza o universo clássico, numa nítida tentativa de relembrar a tragédia clássica; por outro lado, o mármore liga-se ao cemitério por ser frio como a morte e por ser o material usado nas campas. A cascata é, na tradição judaico-cristã, símbolo de regeneração e de purificação; cheia de água, conota-se com o choro, com as lágrimas, num nítido prenúncio da tristeza que se abatera sobre os Maias; como numa clepsidra, a água fluirá gota a gota, marcando a passagem inexorável do tempo e, acentuando melancolicamente, o implacável Destino d’ Os Maias, condenados ao desaparecimento, após a doçura ilusória de um “instante” que durou dois anos.


Páginas 171 - 175 do manual Aula Viva, Vol. I  



"OS MAIAS": O SIMBOLISMO / ELEMENTOS SIMBÓLICOS - 3ª PARTE




“Maria Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos!” Pressagiava de facto, mas de maneira trágica. Também a semelhança do nome das três figuras femininas centrais parece apontar para que todas elas sejam fatais, à sua maneira, para os homens da família Maia – Maria Eduarda Runa, Maria Monforte, Maria Eduarda – todas Maria e, a primeira e a última Maria Eduarda, concorda também nos seus próprios destinos, todas morreram, se bem que as duas primeiras fisicamente e a última psicologicamente.

ainda que salientar a similitude física entre Carlos e Maria Monforte, sugerida por Maria Eduarda, e a semelhança de carácter de Afonso e Maria Eduarda, sugerida por Carlos quando vê que Maria Eduarda é tão bondosa como o avô – Maria Eduarda pede--lhe para ir ver a irmã da sua engomadeira que tinha reumatismo, e o filho da Sr.ª Augusta, a velha do patamar, que estava tísico; Carlos cumpria estes encargos com o fervor de acções religiosas.

Afonso encontra sérias semelhanças entre seu filho, Pedro, e um tio da família Runa que endoideceu e se enforcou. Estas semelhanças agoiravam já o futuro de Pedro que, tal como o tio, se suicidou, mas este com um tiro na cabeça, morrendo alagado numa poça de sangue.

Maria Monforte estava lendo uma novela sugerida por Alencar, em que o herói era o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo, como estava fascinada por ele, quis dar esse nome a seu filho, pois parecia ser pleno de um destino de amores e façanhas. De facto, Maria Monforte estava certa, o incesto era o destino amoroso de Carlos que acabou por levar a que este fosse o último dos Maias. Contrariamente a Maria Monforte, Pedro queria chamar Afonso ao filho, mas acabou por aceder a Carlos Eduardo.