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terça-feira, 17 de novembro de 2015

LÍRICA CAMONIANA - CORRENTE TRADICIONAL E RENASCENTISTA (1)


rosto de mulher, Sandro Botticelli

São estes apontamentos soltos, uns adaptados outros nem tanto, de leituras que fui fazendo, de outras já feitas e de outras ainda, fruto de uma viagem de sempre descoberta... a desenvolver em aula, como sempre, aquando da análise dos poemas de Luís de Camões.

Características da corrente tradicional

- TEMAS: fonte, o mar, ambiente pastoril, olhos verdes, o amor – saudade, sofrimento, “morte”, - as “cousas de folgar e gentilezas”.

- Camões retoma temas da poesia tradicional como a fonte, o mar, os olhos verdes…

Em poemas como DescalçaPastora da serraNa fonte está Lianor ocorre-nos a imagem da donzela das c. d’amigo que vai buscar água à fonte, lavar os seus cabelos ou simplesmente encontrar-se com o amigo, que pergunta às amigas ou à sua mãe pelo seu amado, ou a imagem da ingénua pastora apascentando o seu rebanho num cenário bucólico convidativo ao amor.

- O tema dos olhos verdes foi tratado nos cancioneiros trovadorescos e no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Camões foi mais longe devido à sua formação estética marcada pelo idealismo platónico. As belezas da mulher são consideradas como a própria ideia da beleza e não como puros acidentes. Por isso os cabelos não são doirados mas o ouro em si, os olhos não são verdes mas contêm todo o ouro da natureza…. As qualidades são tomadas como essências. Estas qualidades não adornam a mulher mas é ela quem as distribui pela natureza e a natureza é bela na medida em que participa mais ou manos na beleza da senhora.

Assim, o gado come graças dos olhos/do meu coração ou se helena apartar/do campo seus olhos/nascerão abrolhos ou ainda faz parar a acorrente se seus olhos inclinar na água corrente.


Características da corrente renascentista


- TEMAS: “locus amenus”, mitologia pagã, retrato físico e/ ou psicológico da mulher ideal, segundo Petrarca (cabelos de ouro, pele branca, olhos claros, alegria grave, harmonia pura e exata, gesto sereno, etc.), a animização da natureza, o amor puro / carnal, o Amor platónico, a saudade, o destino, a beleza suprema, a mudança, o desconcerto do mundo, o elogio dos heróis, ensinamentos morais, sociais e filosóficos, a mulher vista à luz do petrarquismo e do dantismo, a sensualidade, a experiência da vida… .


- Na obra de Camões encontramos influências

Clássicas – Virgílio e Horácio … em Os Lusíadas

                   Petrarcaele é o modelo de Camões que se satisfez com este sentimento passivo e contemplativo da mulher mas Camões não conseguiu conter o impulso físico e por isso vive uma luta de opostos****  -  retrato da mulher amadanatureza como espelho do estado de espírito do poeta.

                   Danteo inferno de amar que conduz o sujeito lírico a sentimentos contraditórios de extrema melancolia e desespero.

- o Amor em Camões é influenciado pelo neoplatonismo.

- dentro da doutrina estética de Petrarca, o amor é uma aspiração a um objeto inatingível porque não existe neste mundo; o que aqui se vê é o “véu terrestre” que encobre a essência que miora no empíreo ou no mundo das ideias. O amor nobre é esta aspiração superior à comunhão das almas, abafando os protestos do desejo físico. É um sentimento sem experiência, sem acontecimento, é a contemplação de uma deusa.

- ****  ele deseja fazer valer os seus direitos amputados pela visão neoplatónica e petrarquista da mulher idealizada

- o que há de mais original **** na poesia camoniana é o combate entre esses dois tipos de amor: o passivo e o ativo. A alma diz-lhe: contempla, pensa, mentaliza, fecha os olhos e recebe a visão sublime da deusa. O corpo grita: “Pede o desejo, Dama, que vos veja… acaba por se afastar de Petrarca e aproximar-se da vida porque, dividido entre a teoria e a prática, Camões sente o corpo impelido para a partilha dos corpos.






CAMÕES ... considerações (1)

  Petrarca
SOBRE A OBRA, O HOMEM…
- De acordo com o crítico Massaud Moisés (A literatura portuguesa, 2008), a obra camoniana “espelha a confissão duma tormentosa vida interior, repassada de paradoxos e incertezas, a reflexão em torno dos magnos problemas que lhe assolavam o espírito, não só provocado pelas suas vivências pessoais, mas também pela tomada de consciência dum desconcerto universal em que todos os seres humanos estivessem imersos”. Poeta de preocupações filosóficas, Camões mergulhou no angustioso mundo do “eu”, do amor, da vida, do mundo.
- Influência de Petrarca.
- Alguns dos temas vêm já da poesia provençal e do romance cortês: - a mulher como ser superior, quase divino, de beleza indescritível, a atitude reverente perante a Senhora, o sentido da distância que os separa, a morte por amor.
- Nota-se uma influência da cultura humanística do século XVI mas existem muitas composições que são o resultado
- das circunstâncias da vida do poeta,
            - da experiência humana vivida por ele
            - das reações emocionais às situações.
Assim, a poesia lírica camoniana é o resultado da sua profunda cultura + a sua vida agitada + o seu temperamento ardente e apaixonado.


LÍRICA CAMONIANA - PORTUGAL NO TEMPO DE CAMÕES


Lisboa no tempo de Camões



Ano de 1521. Inicia-se o longo reinado de D. João III. Portugal vive ainda a euforia das realizações marítimas do tempo de D. Manuel, O Venturoso. D. João III surge como o continuador de uma política expansionista, para a qual lhe vão faltando as estruturas de apoio necessárias. O comércio era a grande base da economia portuguesa. No entanto, o país pouco produzia e, pelo contrário, aumentava a sua dependência quanto à prata que, originária da América do Sul, chegava à Espanha em enormes quantidades. Este metal torna-se cada vez mais necessário para alimentar o comércio com o Oriente. A ausência de empresas manufatureiras obriga Portugal à compra de produtos, para os quais se fornecia a matéria-prima, que vai chegando dos vários pontos do Império. Crises agrícolas sucessivas obrigam o país a importações praticamente anuais de trigo castelhano e, assim, a economia nacional depende cada vez mais do comércio colonial.

Todos estes problemas vão obrigar o Rei a abandonar várias praças africanas, de 1534 a 1540. O déficit vai crescendo. Apesar disso, o tipo de vida mantém-se com o mesmo luxo e riqueza. A sociedade portuguesa, principalmente a classe nobre, vê-se na quase total dependência do rei. Do monarca depende para concessão de qualquer mercê, seja nobre ou mercador. Ao rei acorre o povo a apresentar as suas queixas nas poucas cortes que convoca. A coroa domina no campo comercial através do seu monopólio: é ela a maior proprietária. Desta interferência só se vai libertando o clero, pois constitui o apoio do rei para a efetuação da sua política absoluta.

D. João III orgulha-se de praticar o mecenato: em torno da sua corte evoluem as personalidades mais significativas do Renascimento português, como Garcia de Resende, Damião de Góis, Pedro Nunes. Lança-se na campanha reformista da Universidade, transferida de vez para Coimbra. Funda o Colégio das Artes.

Mais tarde, a tendência religiosa e mesmo fanática de D. João III leva-o a perseguir personalidades de nomeada no ensino,, que se mostravam abertas às novas ideias reformistas. Muitos foram entregues à Inquisição. Esta viragem na maneira de pensar real afasta da Corte os poucos espíritos renascentistas ainda existentes no panorama português. A Inquisição e o tratamento pouco acolhedor dado a muitos dos pensadores estrangeiros atraídos a Portugal pela fama da corte portuguesa, não facilita a existência de muitos humanistas no país.

Ano de 1550. Portugal assiste ao findar do governo de D. João III e à impossibilidade de manter um império tão extenso. Não podendo conservar o monopólio dos mares, desmoronam-se as bases com que o país se elevara ao primeiro plano, entre as nações europeias, em décadas anteriores. 

É assim o Portugal desta época: vivendo os restos de uma grandeza que vai girando em torno de uma corte cujo centro é um rei ilusoriamente mecenático. Lisboa, capital do reino, cidade onde a corte vive e o povo sobrevive, é o centro das atenções de quem quer progredir.

Para esta cidade vem um mancebo de ascendência vagamente nobre, mas de escassos recursos. Procura, como tantos outros, um emprego na corte e traz a cabeça cheia de trovas. Esse mancebo que, em 1550, atravessou o chamado Terreiro do Paço em direção ao Paço da Ribeira, chamava-se Luís Vaz de Camões.

LINA FERREIRA PAZ,

Luís Vaz de Camões ou A Universalidade de Um Pensamento

(texto adaptado)

LÍRICA CAMONIANA - CONTEXTUALIZAÇÃO II


 
            Na Idade Média, a Igreja domina a cultura através da literatura religiosa e didática e a sociedade caracteriza-se como sendo teocêntrica.
            O século XVI rompe com a Idade Média e assiste-se ao renascer da cultura greco-latina (Classicismo; influência de Petrarca; imitação dos clássicos; Renascimento / Humanismo).
            Em Portugal, devido aos Descobrimentos, verifica-se uma profunda transformação das estruturas sociais, da cultura e da mentalidade.
            O Homem passa a ocupar o centro do Universo e começa a ter consciência das suas dignidade e capacidade. Segundo a máxima  “O Homem é a medida de todas as coisas”, o Humanismo surge em Portugal em meados do século XVI. Com esta nova forma de pensar, privilegia-se a experiência e põe-se em causa a cultura livresca.
            A sociedade é agora antropocêntrica e conhece a influência em todas as manifestações artísticas: literatura – imitação dos géneros literários; surge a técnica do nu na pintura e na escultura; promoção do intercâmbio cultural devido à presença de estrangeiros como, por exemplo, bolseiros das Universidades. O Homem adota uma atitude crítica sobre o mundo e a Igreja.
           
Petrarca é uma individualidade que se destaca e que introduz novos conceitos literários que Camões irá recuperar relativamente à conceção do Amor, da Mulher amada e da Natureza.
Camões e petrarca
A LÍRICA CAMONIANA
Influências de vária ordem
“poética de imitação”       +   Experiência pessoal  +  Vivências
                                  =
                                        [ Originalidade  / insinceridade]



Deixa transparecer um sujeito “ viajante, letrado, humanista, trovador à maneira antiga” (...) um sujeito “que assumiu e meditou a experiência de toda uma civilização cujas contradições viveu na sua carne e procurou superar pela criação artística.”
     António José Saraiva




LÍRICA CAMONIANA - CONTEXTUALIZAÇÃO




De Camões, em pura verdade, muito pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu mais pobre ainda (se não miseravelmente), ele, que acumulou bens que milhares e milhares de homens não têm chegado para delapidar. (...)

Fora do nosso coração, não sabemos onde Camões nasceu; nem o ano ou o dia em que saiu da «materna sepultura» para o primeiro amanhecer. Como não sabemos onde estudou ou quem lhe ensinou o muito que sabia. Nem isso importa. Nalgumas linhas da sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode ler-se que, como português, encarnou até à medula toda a nossa condição: pobreza, vagabundagem, cadeia, desterro.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

FARSA DE INÊS PEREIRA, GIL VICENTE - CONTEXTUALIZAÇÃO II






Humanismo

Embora se trate de um termo polissémico, ele interessa-nos apenas no seu sentido mais restrito ou histórico, entendido enquanto o movimento literário e cultural de uma época marcada por profundas transformações na sociedade europeia.

O Humanismo corresponde ao período de transição da Idade Média para a Idade Clássica. Tem como marcos iniciais as nomeações de Fernão Lopes como Guarda-Mor da Torre do Tombo (local onde se guardavam os documentos oficiais), em 1418 e, como Cronista-Mor do Reino, em 1434, quando recebeu de D. Duarte, rei de Portugal, a incumbência de escrever a história dos reis que o precederam.

Historicamente, o Humanismo foi um movimento intelectual italiano do final do século XIII que se difundiu por quase toda a Europa, isto porque, após a queda de Constantinopla em 1453, muitos intelectuais gregos (professores, religiosos e artistas) refugiaram-se na Itália e começaram a propagar uma nova visão de mundo, mais antropocêntrica, indo de encontro à visão teocêntrica medieval. Entre as principais ideias humanistas estavam:

• recuperação da cultura antiga, através do estudo e imitação dos poetas e filósofos greco-latinos;

• revalorização da filosofia de Platão, especialmente no que diz respeito à distinção entre o amor espiritual e o carnal - neoplatonismo;

• crítica à hierarquia medieval, o homem reivindicando para si uma posição de destaque no Universo - não aceitação passiva das imposições místicas difundidas na ideia de destino;

• bifrontismo, coexistência de características medievais (feudalismo, teocentrismo) e renascentistas (mercantilismo, antropocentrismo, pragmatismo burguês).

No final da Idade Média, Portugal passava por profundas transformações. O desenvolvimento de outras atividades económicas estimulou a crise do sistema feudal e deu início ao chamado mercantilismo – a economia de subsistência é substituída gradativamente por atividades comerciais. Surgem as pequenas cidades, chamadas burgos, e com elas uma nova classe social, a burguesia. Muitas descobertas são feitas, entre elas a invenção da imprensa (em 1448, por Gutenberg) e de instrumentos relacionados com a expansão ultramarina. Mas é, sem dúvida, a Revolução de Avis (1383-1385) o marco cronológico da consolidação do Estado Nacional Português. Através dela estabelece-se a política centralizadora do poder nas mãos do rei,  pela burguesia mercantilista. A partir da primeira conquista ultramarina portuguesa, a Tomada de Ceuta, em 1415, inicia-se o período das Grandes Navegações, que consolidam o nacionalismo português.

 
A produção literária desse período subdivide-se em:

·         Poesia Palaciana

crónicas de Fernão Lopes
• Prosa
prosa doutrinária
novelas de cavalaria

 

A Poesia Palaciana, como o próprio nome indica, era poesia produzida no ambiente dos palácios, feita por nobres e destinada à corte. Ao contrário dos códices (manuscritos) trovadorescos, grande parte da produção poética desse período foi recolhida por Garcia Resende, no Cancioneiro Geral, formado por 880 composições, impresso em 1516. Entre suas principais características estão:

- separação entre música e texto – a poesia destina-se à leitura. Assim, a própria linguagem é responsável pelo ritmo e expressividade. O termo trovador aos poucos assume um caráter pejorativo e começa a surgir a figura do poeta;

- utilização das redondilhas – versos compostos por cinco (redondilhas menores) ou sete sílabas poéticas (redondilhas maiores);

- temática variada – com composições religiosas, satíricas, didáticas, heroicas e líricas. O lirismo amoroso trovadoresco, a partir da influência de Petrarca (um dos precursores do Humanismo italiano), assume uma nova conotação, a mulher idealizada, inatingível, carnaliza-se e a sensualidade, reprimida nas cantigas de amor, passa a ser frequente.

Fernão Lopes é a principal figura da prosa humanista, considerado o fundador da historiografia portuguesa. Sua importância deve-se não só ao aspeto histórico da sua produção, mas também ao aspeto artístico das suas crónicas. Nas suas crónicas, apesar de regiocêntricas, o povo aparece pela primeira vez com coautor das mudanças históricas portuguesas. Entre as suas características, destacam-se: a imparcialidade, o registo documental, a criticidade e o nacionalismo. São da autoria de Fernão Lopes:

- A prosa doutrinária, também chamada de ensinanças, corresponde a textos de caráter didático, destinados à nobreza. São obras para o aprendizado de certas artes da época, como a montaria.

- As novelas de cavalaria conservam basicamente as mesmas características do Trovadorismo.

·         O Teatro de Gil Vicente

Antes da produção vicentina é praticamente impossível falar-se em teatro. A manifestação teatral da Idade Média limitava-se às encenações de caráter litúrgico, presas aos rituais da religião católica. As encenações religiosas apresentadas no interior das igrejas dividiam-se em:

- mistério – representação da vida de Jesus Cristo;

- milagre – representação da vida de santos;

- moralidade – representações curtas com finalidade didática ou moralizante.

As encenações que ocorriam fora dos templos religiosos recebiam o nome de profanas e apresentavam um caráter mais popular e não estavam relacionadas com os cultos católicos.

Pouco se sabe sobre os dados biográficos de Gil Vicente. Acredita-se que tenha tido muito prestígio na corte portuguesa, desempenhando a função de organizador das grandes festas palacianas. Para outros, entretanto, desempenhava a função de ourives, atraindo a atenção da rainha Leonor. Mas é unanime o seu reconhecimento como o fundador do teatro português e o maior representante do Humanismo.

Assim como o período em que se vivia, as suas peças apresentavam o bifrontismo como característica central. Ora com fortes marcas medievais, ora com antecipações renascentistas.

Gil Vicente criticou toda a sociedade da sua época, as suas peças apresentam indivíduos de todos os segmentos sociais. Só não criticou mordazmente a Família Real, da qual dependia. É importante destacar que todo o moralismo vicentino não é contra as instituições mas contra os indivíduos que as corrompiam. Tanto que em nenhum de seus trabalhos questionou qualquer verdade cristã, apresentando uma visão teocêntrica e conservadora da sociedade. Na realidade, era contra as novidades trazidas pelas mudanças do período que punham em risco a integridade do povo português. Os seus autos representam uma tentativa de resgate dessa integridade que se perdia através da corrupção, do adultério e da ambição.

Por outro lado, Gil Vicente inovou, mesmo escrevendo em redondilhas, não seguiu a rigidez do teatro clássico vigente até então que contemplava a unidade de ação, de tempo e de espaço. As suas representações apresentavam uma grande variedade temática, povoadas por inúmeros personagens, amplitude temporal e justaposição de lugares. A alegoria, as personagens-tipo e a variedade linguística também o distinguem do seu tempo. As suas personagens não apresentam características particularizadas, pelo contrário, são generalizações, estereótipos, que representam uma categoria profissional ou uma classe social (povoam as suas peças as alcoviteiras, os fidalgos, os frades, os judeus). Outras vezes, através da abstração, as personagens representam ideias ou instituições (a Fama, a Igreja, a Lusitânia, Todo-o-Mundo e Ninguém). As personagens vicentinas expressavam-se através de diversos registos linguísticos: arcaísmos, castelhano, latim, português chulo, coloquial, popular, culto e erudito.

A produção teatral de Gil Vicente divide-se em três fases:

- Primeira Fase – marcada pelos traços medievais e pela influência espanhola de Juan del Encina. São desta fase: O Monólogo do Vaqueiro, o Auto Pastoril Castelhano, o Auto dos Reis Magos, entre outros.

- Segunda Fase – aparecem a sátira dos costumes e a forte crítica social. São desta fase: Quem tem farelos?, O Velho da Horta, o Auto da Índia e a Exortação da Guerra.

- Terceira Fase – aprofundamento da crítica social através da tragicomédia alegórica, da variedade temática e linguística, é o período da maturidade expressiva. São desta fase: A Trilogia das Barcas, a Farsa de Inês Pereira, o Auto da Lusitânia.

·         A Farsa de Inês Pereira

Conta a história que a Farsa de Inês Pereira surgiu por volta de 1523, quando a autoria dos textos de Gil Vicente foi questionada. Ele, a fim de provar a sua inocência, pediu que lhe dessem um tema qualquer para que produzisse uma peça. O tema dado foi um dito popular: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me derrube”, expressão conhecidíssima da célebre farsa.

Inês Pereira, jovem ambiciosa e namoradeira, cansada dos afazeres domésticos decide se casar, mas não com qualquer rapaz de sua classe social, deseja um casamento nobre, com um homem que seja galante, discreto e que saiba cantar. Recusa o casamento com Pêro Marques, que mesmo rico era camponês e casa-se com Brás da Mata, falso escudeiro que a maltrata após o casamento.

Com a morte do marido, a jovem casa-se novamente com o primeiro pretendente, mesmo sem amá-lo. Ingénuo e devotado, Pêro Marques não percebe a traição da mulher com um falso religioso e, na cena final da farsa, leva a própria esposa para os braços do amante, daí a frase: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me derrube”.

 

 

FARSA DE INÊS PEREIRA, GIL VICENTE - CONTEXTUALIZAÇÃO I




APONTAMENTOS…


O MOMENTO HISTÓRICO

O Portugal do século XVI é uma nação rica em conquistas ultramarinas, mas deficiente em produção agrícola e manufatureira. Para conseguir abastecer-se internamente a única saída é trazer ouro e prata das viagens além-mar. A crise económica gera um descontentamento que ameaça os antigos valores, dissolvendo a aliança entre clero e nobreza, entre mercadores e soberanos. Essa crise é retratada na obra de Gil Vicente pelas personagens que buscam enriquecer a qualquer preço, aproveitando a situação caótica do país.


EUROPA vs PORTUGAL

Em toda a Europa, o século XVI é o momento de ascensão da burguesia, valorização da ciência e do homem e questionamento da Igreja, com a Reforma protestante. Em Portugal, entretanto, desenvolve-se um humanismo um pouco diferente: as ciências são valorizadas, mas o poder da Igreja e da nobreza não é questionado. Muito pelo contrário: a Inquisição e a Companhia de Jesus são os principais instrumentos da Contrarreforma, que chega para reprimir a cultura humanista proporcionada pelo contato com outras culturas, decorrente dos descobrimentos.


RELIGIOSIDADE E REFORMISMO

Gil Vicente vive numa época de transição de valores: os ideais medievais chocam-se com a realidade renascentista o que se pode verificar na sua obra. Critica os maus padres, mas poupa a Igreja; critica os maus nobres, mas não questiona o poder real. Os valores medievais são representados pela forte religiosidade, pela instituição da Igreja, pelos dogmas da fé. Por outro lado, o espírito reformista aparece na crítica aos padres que têm uma vida desregrada e exploram a ingenuidade dos crentes para manipulá-los. Um exemplo disso é o sermão em que Gil Vicente procura explicar racionalmente as causas do terramoto ocorrido em Lisboa, enquanto os padres diziam que era a ira de Deus manifestando-se contra a falta de fé dos cristãos-novos – os judeus convertidos ao cristianismo para escaparem à Inquisição.  Ao transpor momentos da vida social para o teatro, as peças vicentinas conquistam o público pela simplicidade com que mostram as falhas humanas, para que as pessoas se possam corrigir e receber as bênçãos da vida eterna. As peças conquistam o público pela simplicidade e divertem ao mesmo tempo que ensinam.


 IMPORTANTE!

Gil Vicente é importante na literatura portuguesa não só por fazer um retrato da sociedade de seu tempo, mas principalmente por abordar a vida do homem na sua totalidade, desde os problemas domésticos mais corriqueiros até aos mais complicados conflitos morais.

 

O GÉNERO

Gil Vicente é um artista medieval escrevendo em plena Renascença, momento em que as próprias estruturas da arte se encontravam em transformação. O auto, género muito popular até então, caracterizava-se pelo conteúdo simbólico: os atores representavam entidades abstratas de caráter religioso ou moral, como o pecado, a hipocrisia, a luxúria, a avareza, a virtude, a bondade etc. Embora a Farsa de Inês Pereira tenha sido publicada primeiramente como Auto de Inês Pereira, o conteúdo da peça não corresponde às exigências do auto. Gil Vicente criou um novo género para o qual não havia um nome na época, a farsa.

 

IMPORTANTE!

A farsa é um tipo de encenação teatral curta que explora situações engraçadas da vida quotidiana, apelando para a caricatura e os exageros, a fim de provocar o riso no espetador mas, ao contrário da comédia, não tem um fundo moralizante.


CRÍTICA SOCIAL NA FARSA DE INÊS PEREIRA

A Farsa de Inês Pereira possui, como tantas outras obras de Gil Vicente, uma componente marcada de crítica a tipos sociais. Destaque-se a jovem casadoira, figura que entre os séculos XVI e XXI terá apenas sofrido pequenas alterações, ao nível da cosmética. Assim também sucede com o príncipe encantado (o Escudeiro), com a Mãe, com Pêro Marques, enfim, toda a galeria de personagens, que correspondem a tipologias sociais com equivalentes na atualidade. O tom de farsa serve perfeitamente os objetivos imanentes à crítica. O riso é uma forma de criticar e de caricaturar costumes. Daí decorre um outro vetor a sublinhar nesta peça: o cómico de situação, um provocador do riso com o qual se castigam os costumes. Assim, por exemplo, a incompreensão entre Mãe e filha tipifica o conflito de gerações, tão velho como a história da humanidade. Atente-se ainda na crítica à irreflexão da juventude que assume decisões vitais, por vezes, de modo fundamentalista. Não esqueçamos, finalmente, a crítica social aos três casamenteiros Leonor, Latão e Vidal, bem-humorada, mas impiedosa quanto à análise do motivo que fundamenta a sua atividade: o vil metal.


ESTILO NA FARSA DE INÊS PEREIRA

Escrita em verso, a Farsa de Inês Pereira incorpora trocadilhos, ditos populares e expressões típicas de cada classe social. Gil Vicente nesta farsa lança mão a diferentes recursos linguísticos que formam o estilo da farsa.

Ironia - A ironia é utilizada na peça como instrumento de crítica social e como motivadora do riso. Ela aparece sob diversas formas, quer seja através de palavras expressando o seu sentido contrário, quer jogando com o duplo sentido ou ainda acentuando a desproporção entre uma ação e a sua finalidade.

Eis alguns exemplos "Mãe: Mana, conhecia-te ele?

Lianor: Mas, queria conhecer-me!" 

Aqui, o efeito cómico surge a partir de uma construção de duplo sentido do verbo conhecer: saber e relacionamento sexual.

"Inês: Mostrai cá, meu guarda-mor, e veremos o que é que vem."

É uma fala de Inês Pereira dirigida ao Moço tratando-o por guarda-mor. Guarda--Mor era um tipo de tratamento que era, então, dispensado aos fidalgos da Guarda real. Inês joga com a desproporção entre a denominação que lhe dá e a real condição do Moço.

Cantigas - Resumem ou comentam a ação ou exprimem o estado de espírito de quem as canta.

"Mal herida va la garça enamorada..."

Esta cantiga aparece no casamento de Inês com Brás da Mata e é cantada pelos seus amigos. Cumpre a função de resumir os acontecimentos e tem o dom de previsão do futuro, graças ao simbolismo da garça que representa Inês, caminhando sozinha e triste, depois de um Escudeiro lhe destruir os ideais. Há várias referências a cantigas nesta farsa, eis alguns exemplos:

"Canta o Judeu, Canas de amor, canas de amor...";

“Canta o Escudeiro o romance, Mal me quieren en Castilla...”

O canto, a dança e a música desempenham em Gil Vicente a função de instrumentos para a análise da sociedade da época.

O modo de falar das personagens é o principal recurso vicentino. Assume o papel de mostrar a oposição entre os mais elevados valores morais e os novos valores materialistas. A oposição entre o mundo de ideais de Inês e o discurso de conveniência protagonizado pela mãe.

Inês utiliza palavras ligadas à diversão; "folgar", "prazer", enquanto a Mãe faz recurso a um vocabulário que exprime obrigação: "tarefa", "preguiçosa".

O modo de falar de Pêro Marques evidencia o seu carácter simplório.

No outro extremo, temos as falas do Escudeiro que, apesar de dar azo a belas palavras, revela-se um mau carácter. Temos, então, o modo de falar ao serviço do jogo de contrastes entre a aparência e a essência (o ser).

 
Fonte: net (adaptado)