sábado, 21 de outubro de 2017

"OS CINCO SENTIDOS" DE ALMEIDA GARRETT




Os Cinco Sentidos
São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!
Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!
Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste,
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!
Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!
Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! - em ti!
A ti! ai, a tios meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

- temática: o amor - intenso, sincero, carnal;
- o sujeito poético aborda a problemática de cada sentido e a relação destes com a mulher;
- constituído por 6 estrofes, correspondem as 5 primeiras à caracterização superlativada dos cinco sentidos do tu, sendo a última estrofe uma confirmação da planificação do poema, em que todos os sentidos se confundem num só, com um desfecho no êxtase, num "delírio" total;

## vejamos então as quatro primeiras estrofes...

- a abordagem dos 5 sentidos é feita progressivamente, do mais abstrato para o mais físico; 
- na primeira estrofe, o olhar: sentido sensual que pode ser usado à distância;
- o sujeito poético estabelece uma relação entre a Natureza e a mulher, referindo qual a sua relação com ela;
- a sobrevalorização da mulher pode ser verificada na utilização da adversativa mas; do advérbio de exclusão Senão; na repetição a ti e na exclamação final Senão a ti - a ti!;
- na segunda estrofe, na relação que estabelece entre a mulher e a Natureza, a figura feminina é considerada superior quando comparada aos elementos da segunda; por exemplo, o rouxinol é considerado o exemplo máximo do canto harmonioso que, neste texto, é secundário para o sujeito poético que apenas tem ouvidos para a amada;
- o sentido privilegiado é a audição; ouvir, embora se perceba à distância, pressupõe a existência de uma maior proximidade;
- na terceira estrofe, a mulher é, de novo, caracterizada como superior à Natureza, sendo reforçada esta ideia de exclusividade da perfeição da amada pelas expressões...; esta é a mulher-anjo da estética romântica, possuidora das características da Natureza, é-lhe, no entanto, superior;
- o sentido implícito é o olfato que quase exige o contacto físico;
- na quarta estrofe, É a mulher mais próxima e sensual;
- o sentido aqui abordado, o paladar,  apenas pode ser concretizado, digamos, através do contacto físico;
- o carácter erótico do amor que se vinha notando desde o início é aqui reforçado pela quase apropriação física da mulher;
- Vv. 3-6 - hipérbato e reticências reveladores da perturbação emocional do eu;
- leia-se: formosos - tentadores; pomos - maçãs; indiciam a fome e evocam o pecado original; racimo - termo da botânica que designa o tipo de uma flor que nasce nas plantas ou frutas que se desenvolvem em cachos, como a uva; pode ser sinónimo de néctar; fome e sede - saciedade; remetem para o plano físico, da sensualidade;
- na quinta estrofe, o sentido é o tato, sendo que a relva é uma metáfora do corpo humano;
- [para]teatralidade = [para] = junto de; aproximado; 
- todo o discurso do eu se destina à mulher; estão presentes e a 2ª pessoa, tu e ti; estes dois aspetos conferem ao poema o seu caráter parateatral;
a
- em cada uma das estrofes, o sujeito poético enquadra o tu no meio de elementos da Natureza, em que é clara a existência de uma comparação. No entanto, o tu sai dela sublimado: na 1ª est. é comparado a flores, estrelas; na 2ª, ao rouxinol; na 3ª, ao incenso de perfume agreste; na 4ª, aos pomos saborosos e ao racimo de néctar e na 5ª est., à relva luzidia.
- "resumo"... na 1ª est. veem-se as estrelas e as flores (céu e terra) passando pela audição do rouxinol na 2ª est., o sentir da brisa na 3ª, o gosto dos dos frutos na 4ª est. ou a macieza da relva na 5ª est.. A caracterização faz-se do mais distante para o mais íntimo;
- na 6ª estrofe e como já referido no início desta análise, assistimos à planificação do poema em que todos os sentidos se confundem = delírio dos sentidos = desordem essa já evidenciada na acumulação de formas verbais do verso Sentem, ouvem, respiram, reveladoras da agitação interior do eu;
- de salientar a presença de duas realidades absolutas, Amor e Morte, cuja associação é já conhecida na poesia romântica;
- Anáfora;
- é possível estabelecer um paralelo entre este poema e a lírica trovadoresca = ideia da Morte de Amor por... das cantigas de Amor = impossibilidade de comunicação que conduz à morte poética ou fingimento poético; em Garrett, assistimos ao excesso de felicidade e de prazer que conduz à morte psicológica;
- aspetos temáticos que evidenciam a presença do Romantismo: ligação Amor/Morte; ligação Amor/Natureza; valorização da sensualidade e sobrevalorização da Mulher;
- clima erótico entre EU/TU é realçado pela variação do refrão e pelo valor das preposições que nele alternam:



a ti - preposição que remete para um contacto exterior ao tu;

de ti - preposição apontando para o contacto físico;

em ti - denota uma aproximação que pressupõe a partilha de sensações.

- o pronome Ti revela uma forma direta e íntima de relação; o eu refere-se, dirige-se a uma pessoa que supera o mundo em todas as suas vertentes sensíveis, é maior e melhor que todas as outras e do que aquilo que o rodeia;
- este é também um poema de frustração: se a ordem por que aparecem os sentidos é ascendente, do mais distante para o mais próximo, ela é também descendente [do céu para a terra >há uma aproximação;
- destrói-se no eu a sua aspiração à Mulher-Anjo, ao Ideal e à Beleza Pura que se anuncia em Ignoto Deo; o poeta sabe-o bem mas, para a sua frustração, prefere o Sentir ao Saber;

*** a ti - visão;

                                  >     contemplação
       a ti - audição 


*** de ti - olfato

                                 >      proximidade
       de ti - gosto 

*** em ti - tato       >       intimidade



"ESTE INFERNO DE AMAR" DE ALMEIDA GARRETT




Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
 5 Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
10 Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
15 E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


- temática central: manifesto das contradições do amor; 
- "este", pronome demonstrativo sugerindo proximidade; neste caso, remete-nos para o tempo presente;
- constatação de que o amor é um inferno, uma destruição justificada logo no início pela contradição de que este sentimento é algo que alenta e consome; o vocabulário está ligado ao conceito de fogo [destruição] mas também à ideia de que amor é vida;
- podemos considerar três momentos neste poema, correspondendo a cada um deles uma das três estrofes;
- 1º momento - corresponde ao tempo presente, à situação vivida na atualidade pelo sujeito poético; comprovam-no os tempos verbais no Presente do Indicativo;
- o sujeito poético questiona-se sobre a origem daquele sentimento e quando irá ele desaparecer [passado/futuro];
- presença de um paradoxo: o amor dá e tira [contradição];
- antítese
- 2º momento - refere-se ao passado; o ritmo acontece ao sabor dos sentimentos [comprovado pela pontuação];
- o passado referenciado no 2º momento aponta para a fase da vida do sujeito poético anterior ao tê--la conhecido [passado sereno e de paz mas desprovido de vida por não existir amor]; este passado caracteriza-se por ter sido de incerteza];
- perpassa a ideia de sedução, de algo que aconteceu inconscientemente;
- 3º momento - de um passado recente  que é também o do inferno de Amar;
- o contacto faz-se pelo olhar, os olhos são a parte do corpo que o  seduziram, fascinaram, hipnotizaram... o que foi possível apenas por se tratar da mulher-fatal;
- neste 3º momento, o sujeito poético confessa que começou a viver quando a conheceu mas, com ela, chegaram igualmente os sentimentos, o desassossego, a inquietude e tudo o mais que se deveu ao aparecimento da Mulher e do amor; ainda assim, o sujeito poético prefere o presente e justifica-se com o início deste "viver";
- este encontro trouxe-lhe a vida e o inferno de amar; o amor é assim gerador de vida mas manifesta-se pela negativa;
- o encontro do eu com o tu reflete-se na vida do eu: despertar do sonho e acordar para o inferno de amar;
- a pontuação revela o estado de espírito do sujeito poético = frases exclamativas e interrogativas, interjeições, frases de tipo negativo, reticências;
- formalmente, este poema é constituído por 3 estrofes, de seis versos cada, com rima variada e nº variado de sílabas, ao gosto romântico, ao correr dos sentimentos e variação de estados de espírito;
- NOTA: as 2ª e 3ª estrofes possuem características narrativas: narrador autodiegético (narrador na 1ª pessoa e personagem principal); presença de personagens, eu e ela; referência espacial, algures; referência temporal caracterizada como indefinida [saliente-se a escolha dos indefinidos um e outra); existe ação sugerida pelos verbos vivi, dormi, passei, dava...;   
- o eu é vítima da mulher fatal, ela ; amor gerador de conflitos;
- características românticas - tom confessional; indícios de mulher fatal; alusão ao inferno [metáfora]; tom teatral; oposição amor espiritual/amor sensual; transgressão das regras [hibridismo - presença de características líricas e narrativas];
- intertextualidade com Camões e Bocage: o amor é vida e inferno MAS:
** a relação eu/tu afasta-se do tipo de relação em Camões e Bocage onde o amor não era correspondido ou tinha sido correspondido no passado;
- o que motiva esta ideia de o amor ser inferno: a intensidade, o exagero da paixão;
-  EM JEITO DE CONCLUSÃO:



- consideremos a existência de 2 passados e de 1 presente:

o Passado 1 - sem ela; o sonho; a paz; a doçura;

de que ele não sei; não me lembra; talvez um sonho; foi um sonho;

o Passado 2 - com ela; realidade (acordar para o real);

de que ele só me lembra; a viver comecei;

o Presente - com ela; vida; inferno;

e ele - vivo;.





"O ANJO CAÍDO" DE ALMEIDA GARRETT



O Anjo Caído
Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
 5 Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.
O anjo caiu ferido,
E se viu aos pés rendido
10 Do tirano caçador.
De asa morta e sem splendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.
15 Vi-o eu, o anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
20 Pôr ao lábio que tremia...
E só lágrimas beber.
Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia...
Eu que já não posso amar!
25 Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! ai, cega loucura!
Mas entre os anjos dos céus
30 Faltava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
35 Se ninguém o conhecia?
Eu só, - e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
40 Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,
Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
45 Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.

- estamos perante um texto narrativo  [presença de duas personagens, o anjo caído e o tirano caçador que se identifica com o narrador];
- o início do texto poderia ser Era uma vez um anjo de Deus;
- o título antecipa o desfecho da ação;
- o narrador é quem narra a história e é simultaneamente homodiegético e omnisciente; 
- a presença destes dois tipos de narrador faz com que o modo de narrar varie: no primeiro, o narrador distancia-se; no segundo, mostra-se emotivo sobretudo quando se assume como personagem;
- a história reporta-se a um passado indeterminado - tempos verbais no Pretérito Imperfeito e no Pretérito Perfeito - narrado num tempo presente;
- marcas do Romantismo: mito do Paraíso perdido, mito da mulher-anjo (vítima do tirano caçador); transgressão às regras dos modos literários (hibridismo que resulta de características líricas e narrativas).



"ADEUS" DE ALMEIDA GARRETT




Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
  5 Choro porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu... tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
 10 Nos secretos escaninhos
Tem venenos tão daninhos
Que o seu poder só sei eu.
Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
 15 Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal condão
Há-de rasgá-lo ao nascer:
 20 Há-de sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
Ciúme de ver-te amada,
Remorso de te perder.
Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
 25 Que sou eu capaz agora
De te amar - Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal!
 30 Mais negro e feio no inferno
Não chameia o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso? - Ai, triste! -
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
 35 O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!
E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
 40 Dissipada é a ilusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lágrima verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
 45 Nesta seara de abrolhos,
Que a fonte secou. Agora
Amarás... sim, hás-de amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas noutro hás-de sonhar
 50 Os sonhos de oiro encantados
Que o mundo chamou amores.
E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
Der a luz de teus ardores...
 55 Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Também eu sonhar... Perdida,
 60 Perdida serás - perdida.
Oh! vai-te, vai, longe embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue-frio,
 65 Covarde, infame, vilão,
Gozar-te - mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai! triste, não chores,
 70 Não chores, anjo do céu,
Que o desonrado sou eu.
Perdoar-me tu?... Não mereço.
A imundo cerdo voraz
Essas pérolas de preço
 75 Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te há-de admirar,
Despeitosa, respeitar,
 80 Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no vilão,
Que de ti há-de zombar.
Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
 85 Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
 90 Demais, e demais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.
 95 Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
100 Como é negro este aleijão
Donde me vem sangrar às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
105 Nele uma ideia dos céus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!




- depois da dedicatória com Ignoto Deo, temos a despedida com Adeus!. Segue-se Folhas Caídas, o resto, onde, numa analepse narrativa, se descreve o caminho percorrido pelas duas personagens, eu e tu, e que as conduziu ao momento do Adeus!;
- o relato é feito no presente, evocando o passado, embora com perspetivas futuras que não implicarão o sujeito poético;
- o sujeito poético lamenta não ter amado o tu como ele o amou;
- e o Amor será o seu destino, será amá-la quando ela tiver outro Amor e essa será a vingança deste tu uma vez que o eu sentirá ciúme e remorso: 
- contradição1: porque será ele castigado se já tinha confessado não amar o tu?
- contradição2: como se pode sentir ciúme por alguém que já não se ama? ou o que sente é apenas frustração pelo vazio de não se poder ter o objeto de prazer? (futuro)
- as perguntas de retórica apontam para a existência de teatralidade pois "questionam"  o tu sobre o que ela lhe teria dito num possível diálogo entre os dois;
- auto-critica-se mas não é vingança;
- ela terá dito que o perdoava mas ele afirma que isso seria atirar pérolas a porcos uma vez que ele não merece o seu perdão; 
- o desafio (hybris) existiu quando esta estrela desceu do céu e ele ousou fitá-la;
- marcas de Romantismo: tom confessional; teatralidade; introduz o tema ciúme; alude/refere-se ao amor sensual; mulher-anjo; referência ao Inferno;
- é o eu que pede ao tu para o deixar, não é ele quem toma a iniciativa; 
- à semelhança da tragédia, assistimos a um conflito que conduz à catástrofe que consiste na dificuldade ou quase impossibilidade de sair da vida do eu que assim não tem paz.



"NÃO TE AMO" DE ALMEIDA GARRETT



Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...


Mas amar!... não te amo, não.

- neste poema está bem clara a ideia de oposição entre o amor e o desejo; entre o amor sublime e o amor carnal; esta oposição está na origem do dilema que atormenta o sujeito poético e que aumenta a sua indefinição;
- é o assunto deste texto a referência do sujeito poético ao desejo físico que nutre pela mulher amada, de que não consegue libertar-se e que o conduzirá à perdição;
- ao longo do texto, verifique-se a rima entre os opostos: alma/calma; jazigo/comigo; vida/sentida; quero/fero; bela/estrela; forçado/feitiço azado/ furor/terror; de notar a gradação existente do início para o fim do poema no que respeita a estes vocábulos;
- a função emotiva ou expressiva encontra-se presente em todo o texto, resultante das rimas, das interjeições e da pontuação [por exemplo, das frases exclamativas];
- alma, vida e coração - vocábulos ligados ao conceito de Amor, caracterizando-o; a palavra coração rima com duas palavras com conotação negativa, não e perdição;
- neste texto podemos considerar duas partes: a 1ª, constituída pelas 5 primeiras estrofes em que é visível o dilema amor/querer enquanto que a segunda aponta para a 6ª estrofe  que constitui uma auto-crítica.
- na última estrofe de salientar a gradação  tenho espanto,
De ti medo e terror..., sentimentos que este amor lhe provoca dado o seu carácter sensual; 
- último verso das 1ª e 2ª estrofes funcionando como um refrão bem ao jeito do cantar trovadoresco, retomado parcialmente nas duas últimas estrofes;
- fazendo ainda lembrar as cantigas de amor, refira-se o paralelismo na construção do poema e o registo corrente, que sublinham as características românticas;
- do Romantismo referir ainda o tom confessional e intimista; alusão a elementos mórbidos como jazigo, aziaga estrela, má hora, perdição, feitiço azado, medo, terror; características da poesia de alcova; liberdade/irregularidade métrica; um certo tom teatral; excesso passional; sentimento de culpa; autocrítica própria do sujeito poético; 
- a forma como se articulam as construções frásicas revela por parte do sujeito poético um estado de espírito conturbado e um discurso fortemente emotivo;
- recursos estilísticos: 

* antítese [intensificando a contradição entre Amar e Querer]

* dupla adjetivação;
* Apóstrofe
* pergunta de retórica
* paradoxo;
* hipérbole;

## paradoxo - oposto do que alguém pensa ser a verdade; ideia contrária ao que se espera;



- diz Carlos em Viagens na Minha Terra


Há 3 espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, a mulher que se ama.



ALTERAÇÃO DA DATA DO TESTE DE AVALIAÇÃO



... FICOU MARCADO PARA DIA 6 DE NOVEMBRO.




domingo, 1 de outubro de 2017

"IGNOTO DEO" DE ALMEIDA GARRETT



Ignoto Deo
(D. D. D.)
Creio em ti, Deus; a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
 5 Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vêm, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
10 Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
15 Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
20 Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
25 Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
30 E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.



- poema que introduz a coletânea Folhas Caídas e que serve de dedicatória "a um deus desconhecido";
- funciona como uma abertura à leitura da obra;
- o título remete para o classicismo: termos em latim, referência a um Deus em que o poeta acredita e apesar de desconhecido;
- Ignoto Deo já tinha sido anunciado na Advertência;
- poema que é uma confissão sincera de um Eu perante a divindade, confissão de uma fé cega que se entrega a uma esperança incontida mas confusa pois não consegue definir este deus;
- D.D.D. - dat, donat, dedicat: isto é, dá, oferece, dedica;
- percebemos que se trata de um ser divino - A teu altar, v.31;
- existem duas entidades: o sujeito (eu) Creio, em ti, Deus; (objeto) sendo este último identificado com o Céu e o primeiro com a Terra - me prostro (ser humano);
- vocábulos que caracterizam este deus: Beleza, luz, Verdade, Essência!, O puro amor, Ignoto Deo;
- O Eu e o Tu encontram-se presos, interligados, sendo que o primeiro encontra no Tu o prazer /que não fatiga e não gasta... , entregando-lhe a sua alma;  
- uma leitura possível: estamos perante um poeta inquieto, ansioso e dependente face a uma entidade que o ultrapassa, para a qual vive [tendo em conta o contexto da obra, o amor a que o poeta se entrega é mais humano que divino uma vez que se refere a uma entidade feminina a que o Eu se dedica por inteiro];
- escreve Garrett na apresentação de Folhas Caídas, "O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade de ideal, o sonho de oiro do poeta.";
- este texto é ponto de partida para a leitura dos que se seguem. Uma vez apresentado, percebemos que este deus é onde ele encontra a serenidade e a verdade.