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sábado, 21 de outubro de 2017

ALGUMAS QUESTÕES A PROPÓSITO DOS POEMAS ESTUDADOS EM AULA



Teste dia 6 de Novembro.

QUESTÕES:



O ANJO CAÍDO
1.     Leia atentamente o poema.
2.     Reconte, de forma literal, a narrativa que está presente no poema O Anjo Caído.
2.1  Reconte a narrativa, mas, desta vez, substituindo os símbolos presentes no poema pelas realidades que eles representam.
2.2  Explique e justifique a intervenção do sujeito poético na salvação(?) do anjo.
2.3  Indique os motivos que levaram à perdição e à morte do sujeito poético.

ESTE INFERNO DE AMAR
1.     Refira as contradições do Amor que estão presentes na 1ªestrofe do poema.
1.1  Justifique o emprego da frase exclamativa “como eu amo!”, no 1º verso, 1ª estrofe.
1.2  Indique as respostas que são dadas pelo sujeito poético, nas 2ª e 3ª estrofes, às interrogações contidas na 1ª estrofe.
2.     Explique o significado da imagem contida na expressão do v. 14 do poema: “dava o Sol tanta luz!”.
3.1 Relacione essa imagem com o papel desempenhado pelos “olhos” na relação Eu/Tu.
3.2 Explique o significado simbólico do adjetivo ”ardentes”, na expressão “olhos ardentes”, v. 16.
       3. Estabeleça uma relação temática entre este poema e o poema “Anjo Caído”.
           3.1 Refira as semelhanças e as diferenças entre os dois poemas, tendo em atenção, principalmente, os versos que rematam os dois textos poéticos.

OS CINCO SENTIDOS
1.     Identifique os sentidos que estão presentes nas cinco primeiras estrofes.
1.1  Explique a razão da ordenação sensorial que se vai construindo ao longo do poema.
1.2  Nesse escalonamento sensorial há uma contínua oposição Céu/Terra.
1.2.1       Justifique essa referência ao elemento Céu, tendo em conta o título do poema e as sucessivas notações sensoriais que nos chamam para o elemento Terra.
2.     Refira a figura de estilo que está presente na 6ª estrofe do poema.
2.1  Explique o significado do recurso a essa figura de estilo, na última estrofe do poema.
3.     Explique em que medida este poema pode ser considerado um poema erótico.

NÃO TE AMO
Comentário
“Em Folhas Caídas, (…) o poeta (…) canta o seu não-amor pela mulher desejada. (…) o poeta dirige-se à Não-Amada para lhe bradar, com fúria incisiva, que não a ama, como é hábito nosso de amar em poesia, com a alma (…), mas a apetece apenas com o deleite fervente dos sentidos (…).”
José Gomes Ferreira,
Introdução a Folhas Caídas de Almeida Garrett.

1.     Neste poema, o sujeito poético procura, através da oposição amar/querer, explicar as contradições e tensões presentes em poemas anteriores.
1.1  Explique de que modo a oposição amar/querer pode explicar e até clarificar todas as tensões e contradições do sujeito poético.
2.     Explique a conotação positiva atribuída a amar e a conotação negativa atribuída a querer.
3.     Que significado pode ter a construção anafórica do poema?

ANJO ÉS
1.     Explique a conceção da Mulher como Anjo e como Demónio que está presente neste poema.
2.     Justifique a transformação das frases afirmativas, da 1ª estrofe, em frases interrogativas, nas 2ª e 3ª estrofes.
3.     Refira as marcas de teatralidade presentes neste poema.



“Amo-te como nunca ninguém amou neste mundo, adoro-te, não sei nem posso ter coração para outra coisa. Tu és o meu primeiro, o meu último amor.” Assim escrevia Garrett à baronesa da Luz, teria ele cinquenta e dois anos e ela trinta e dois. A amante Rosa Montufar Infante, andaluza, célebre pela sua rara beleza, era filha dos marqueses de Silva Alegre e casara em 1837 com um oficial de engenharia (…). A ligação amorosa começou em 1846 e prolongou-se até 53 ou 54, ano da morte de Garrett. O passo acima transcrito pertence a uma carta que, provavelmente, Garrett dirigiu a Rosa em 1851. (…)
Jacinto do Prado Coelho,

Ao Contrário de Penélope



Espera-nos Alexandre Herculano e Lendas e Narrativas - A Abóbada.



"ANJO ÉS" DE ALMEIDA GARRETT





Anjo És
Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
 5 Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
10 Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.
Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
15 Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
20 Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. - Que anjo és tu?
25 Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?
Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
30 Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
35 Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
40 Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?


- este poema demonstra bem o papel da mulher na vida do sujeito poético / herói romântico; 
- esta mulher-anjo tem capacidade para dominar e subjugar o eu, sendo a sua força evidenciada pela persistência e determinação do mesmo eu
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
10 Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.

1ª estf. - veja-se como a força que o próprio eu reconhece caracterizá-lo, é utilizado num jogo de contrastes que pretende reforçar a ainda maior força do tu... apesar de o eu ser forte, ainda há quem seja mais forte do que ele...;
2ª estf. - afinal, anjo porquê? por causa das características físicas bem marcadas deste anjo; o tu domina o eu de uma forma como nunca nenhuma mulher o tinha conseguido;
Anjo és. Mas que anjo és tu?


a afirmação inicial do eu não põe em causa se o tu é um anjo mas questiona-se sobre que espécie de anjo será esta mulher; inicia-se um conjunto de hesitações que revelam o espírito inquieto do sujeito poético pois o que ele vê não são as características de um anjo mas outras, físicas,; 
- esta inquietação levam-no a interrogar-se sobre a sua origem deste alguém que não será, certamente, de origem divina; PAZ/GUERRA ou JEOVÁ / BELZEBU, pergunta; de referir o tom teatral neste momento do texto devido à existência de um aparente diálogo;
3ª estf. - um tu que não responde, apenas age, e que conduz o eu ao desespero;
- a partir daqui, o diálogo torna-se mais aberto e dinâmico pois o tu revela-se em atitudes que pouco têm de anjo mas muito mais de mulher e de mulher apaixonada;
                             Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
35 Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,


há um crescendo de intensidade emotiva - gradação - que põe um fim às hesitações do sujeito poético; este toma uma decisão, entrega-se definitivamente embora reconheça que este fogo o arrasta para a perdição, irremediavelmente - fogo de precito [ antecipadamente condenado = Inferno]- mas é desta forma que o tu põe fim às indecisões;
- o sujeito poético demarca-se do discurso anterior; ruptura;
- o anjo maldito a que o eu se entrega é, afinal, meio-anjo / meio-mulher e a cujo poder não se pode fugir; 
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?

é o ardor de um fogo que é o eterno dos condenados e que o tu trouxe de lá = inferno; o sujeito poético questiona-se sobre a proveniência e os mistérios em que ela se esconde, ser fatal e estranho; anjo maldito / demoníaco = mulher fatal;
- no último verso, mulher = demónio?
- anáfora;
- anáfora
- personificação e hipálage
- eufemismo;
- gradação crescente;
- metáfora;
- Romantismo: tom confessional; teatralidade; tema da mulher fatal; os poderes superiores da mulher; referência ao Inferno / Diabo;
- intertextualidade temática: Anjo Caído [o TU (caçador) é vítima do EU tal como em Não te amo, quero-te]; Anjo és [o EU é vítima do Tu tal como em Este Inferno de Amar].






"OS CINCO SENTIDOS" DE ALMEIDA GARRETT




Os Cinco Sentidos
São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!
Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!
Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste,
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!
Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!
Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! - em ti!
A ti! ai, a tios meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

- temática: o amor - intenso, sincero, carnal;
- o sujeito poético aborda a problemática de cada sentido e a relação destes com a mulher;
- constituído por 6 estrofes, correspondem as 5 primeiras à caracterização superlativada dos cinco sentidos do tu, sendo a última estrofe uma confirmação da planificação do poema, em que todos os sentidos se confundem num só, com um desfecho no êxtase, num "delírio" total;

## vejamos então as quatro primeiras estrofes...

- a abordagem dos 5 sentidos é feita progressivamente, do mais abstrato para o mais físico; 
- na primeira estrofe, o olhar: sentido sensual que pode ser usado à distância;
- o sujeito poético estabelece uma relação entre a Natureza e a mulher, referindo qual a sua relação com ela;
- a sobrevalorização da mulher pode ser verificada na utilização da adversativa mas; do advérbio de exclusão Senão; na repetição a ti e na exclamação final Senão a ti - a ti!;
- na segunda estrofe, na relação que estabelece entre a mulher e a Natureza, a figura feminina é considerada superior quando comparada aos elementos da segunda; por exemplo, o rouxinol é considerado o exemplo máximo do canto harmonioso que, neste texto, é secundário para o sujeito poético que apenas tem ouvidos para a amada;
- o sentido privilegiado é a audição; ouvir, embora se perceba à distância, pressupõe a existência de uma maior proximidade;
- na terceira estrofe, a mulher é, de novo, caracterizada como superior à Natureza, sendo reforçada esta ideia de exclusividade da perfeição da amada pelas expressões...; esta é a mulher-anjo da estética romântica, possuidora das características da Natureza, é-lhe, no entanto, superior;
- o sentido implícito é o olfato que quase exige o contacto físico;
- na quarta estrofe, É a mulher mais próxima e sensual;
- o sentido aqui abordado, o paladar,  apenas pode ser concretizado, digamos, através do contacto físico;
- o carácter erótico do amor que se vinha notando desde o início é aqui reforçado pela quase apropriação física da mulher;
- Vv. 3-6 - hipérbato e reticências reveladores da perturbação emocional do eu;
- leia-se: formosos - tentadores; pomos - maçãs; indiciam a fome e evocam o pecado original; racimo - termo da botânica que designa o tipo de uma flor que nasce nas plantas ou frutas que se desenvolvem em cachos, como a uva; pode ser sinónimo de néctar; fome e sede - saciedade; remetem para o plano físico, da sensualidade;
- na quinta estrofe, o sentido é o tato, sendo que a relva é uma metáfora do corpo humano;
- [para]teatralidade = [para] = junto de; aproximado; 
- todo o discurso do eu se destina à mulher; estão presentes e a 2ª pessoa, tu e ti; estes dois aspetos conferem ao poema o seu caráter parateatral;
a
- em cada uma das estrofes, o sujeito poético enquadra o tu no meio de elementos da Natureza, em que é clara a existência de uma comparação. No entanto, o tu sai dela sublimado: na 1ª est. é comparado a flores, estrelas; na 2ª, ao rouxinol; na 3ª, ao incenso de perfume agreste; na 4ª, aos pomos saborosos e ao racimo de néctar e na 5ª est., à relva luzidia.
- "resumo"... na 1ª est. veem-se as estrelas e as flores (céu e terra) passando pela audição do rouxinol na 2ª est., o sentir da brisa na 3ª, o gosto dos dos frutos na 4ª est. ou a macieza da relva na 5ª est.. A caracterização faz-se do mais distante para o mais íntimo;
- na 6ª estrofe e como já referido no início desta análise, assistimos à planificação do poema em que todos os sentidos se confundem = delírio dos sentidos = desordem essa já evidenciada na acumulação de formas verbais do verso Sentem, ouvem, respiram, reveladoras da agitação interior do eu;
- de salientar a presença de duas realidades absolutas, Amor e Morte, cuja associação é já conhecida na poesia romântica;
- Anáfora;
- é possível estabelecer um paralelo entre este poema e a lírica trovadoresca = ideia da Morte de Amor por... das cantigas de Amor = impossibilidade de comunicação que conduz à morte poética ou fingimento poético; em Garrett, assistimos ao excesso de felicidade e de prazer que conduz à morte psicológica;
- aspetos temáticos que evidenciam a presença do Romantismo: ligação Amor/Morte; ligação Amor/Natureza; valorização da sensualidade e sobrevalorização da Mulher;
- clima erótico entre EU/TU é realçado pela variação do refrão e pelo valor das preposições que nele alternam:



a ti - preposição que remete para um contacto exterior ao tu;

de ti - preposição apontando para o contacto físico;

em ti - denota uma aproximação que pressupõe a partilha de sensações.

- o pronome Ti revela uma forma direta e íntima de relação; o eu refere-se, dirige-se a uma pessoa que supera o mundo em todas as suas vertentes sensíveis, é maior e melhor que todas as outras e do que aquilo que o rodeia;
- este é também um poema de frustração: se a ordem por que aparecem os sentidos é ascendente, do mais distante para o mais próximo, ela é também descendente [do céu para a terra >há uma aproximação;
- destrói-se no eu a sua aspiração à Mulher-Anjo, ao Ideal e à Beleza Pura que se anuncia em Ignoto Deo; o poeta sabe-o bem mas, para a sua frustração, prefere o Sentir ao Saber;

*** a ti - visão;

                                  >     contemplação
       a ti - audição 


*** de ti - olfato

                                 >      proximidade
       de ti - gosto 

*** em ti - tato       >       intimidade



"ESTE INFERNO DE AMAR" DE ALMEIDA GARRETT




Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
 5 Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
10 Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
15 E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


- temática central: manifesto das contradições do amor; 
- "este", pronome demonstrativo sugerindo proximidade; neste caso, remete-nos para o tempo presente;
- constatação de que o amor é um inferno, uma destruição justificada logo no início pela contradição de que este sentimento é algo que alenta e consome; o vocabulário está ligado ao conceito de fogo [destruição] mas também à ideia de que amor é vida;
- podemos considerar três momentos neste poema, correspondendo a cada um deles uma das três estrofes;
- 1º momento - corresponde ao tempo presente, à situação vivida na atualidade pelo sujeito poético; comprovam-no os tempos verbais no Presente do Indicativo;
- o sujeito poético questiona-se sobre a origem daquele sentimento e quando irá ele desaparecer [passado/futuro];
- presença de um paradoxo: o amor dá e tira [contradição];
- antítese
- 2º momento - refere-se ao passado; o ritmo acontece ao sabor dos sentimentos [comprovado pela pontuação];
- o passado referenciado no 2º momento aponta para a fase da vida do sujeito poético anterior ao tê--la conhecido [passado sereno e de paz mas desprovido de vida por não existir amor]; este passado caracteriza-se por ter sido de incerteza];
- perpassa a ideia de sedução, de algo que aconteceu inconscientemente;
- 3º momento - de um passado recente  que é também o do inferno de Amar;
- o contacto faz-se pelo olhar, os olhos são a parte do corpo que o  seduziram, fascinaram, hipnotizaram... o que foi possível apenas por se tratar da mulher-fatal;
- neste 3º momento, o sujeito poético confessa que começou a viver quando a conheceu mas, com ela, chegaram igualmente os sentimentos, o desassossego, a inquietude e tudo o mais que se deveu ao aparecimento da Mulher e do amor; ainda assim, o sujeito poético prefere o presente e justifica-se com o início deste "viver";
- este encontro trouxe-lhe a vida e o inferno de amar; o amor é assim gerador de vida mas manifesta-se pela negativa;
- o encontro do eu com o tu reflete-se na vida do eu: despertar do sonho e acordar para o inferno de amar;
- a pontuação revela o estado de espírito do sujeito poético = frases exclamativas e interrogativas, interjeições, frases de tipo negativo, reticências;
- formalmente, este poema é constituído por 3 estrofes, de seis versos cada, com rima variada e nº variado de sílabas, ao gosto romântico, ao correr dos sentimentos e variação de estados de espírito;
- NOTA: as 2ª e 3ª estrofes possuem características narrativas: narrador autodiegético (narrador na 1ª pessoa e personagem principal); presença de personagens, eu e ela; referência espacial, algures; referência temporal caracterizada como indefinida [saliente-se a escolha dos indefinidos um e outra); existe ação sugerida pelos verbos vivi, dormi, passei, dava...;   
- o eu é vítima da mulher fatal, ela ; amor gerador de conflitos;
- características românticas - tom confessional; indícios de mulher fatal; alusão ao inferno [metáfora]; tom teatral; oposição amor espiritual/amor sensual; transgressão das regras [hibridismo - presença de características líricas e narrativas];
- intertextualidade com Camões e Bocage: o amor é vida e inferno MAS:
** a relação eu/tu afasta-se do tipo de relação em Camões e Bocage onde o amor não era correspondido ou tinha sido correspondido no passado;
- o que motiva esta ideia de o amor ser inferno: a intensidade, o exagero da paixão;
-  EM JEITO DE CONCLUSÃO:



- consideremos a existência de 2 passados e de 1 presente:

o Passado 1 - sem ela; o sonho; a paz; a doçura;

de que ele não sei; não me lembra; talvez um sonho; foi um sonho;

o Passado 2 - com ela; realidade (acordar para o real);

de que ele só me lembra; a viver comecei;

o Presente - com ela; vida; inferno;

e ele - vivo;.





"O ANJO CAÍDO" DE ALMEIDA GARRETT



O Anjo Caído
Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
 5 Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.
O anjo caiu ferido,
E se viu aos pés rendido
10 Do tirano caçador.
De asa morta e sem splendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.
15 Vi-o eu, o anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
20 Pôr ao lábio que tremia...
E só lágrimas beber.
Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia...
Eu que já não posso amar!
25 Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! ai, cega loucura!
Mas entre os anjos dos céus
30 Faltava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
35 Se ninguém o conhecia?
Eu só, - e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
40 Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,
Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
45 Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.

- estamos perante um texto narrativo  [presença de duas personagens, o anjo caído e o tirano caçador que se identifica com o narrador];
- o início do texto poderia ser Era uma vez um anjo de Deus;
- o título antecipa o desfecho da ação;
- o narrador é quem narra a história e é simultaneamente homodiegético e omnisciente; 
- a presença destes dois tipos de narrador faz com que o modo de narrar varie: no primeiro, o narrador distancia-se; no segundo, mostra-se emotivo sobretudo quando se assume como personagem;
- a história reporta-se a um passado indeterminado - tempos verbais no Pretérito Imperfeito e no Pretérito Perfeito - narrado num tempo presente;
- marcas do Romantismo: mito do Paraíso perdido, mito da mulher-anjo (vítima do tirano caçador); transgressão às regras dos modos literários (hibridismo que resulta de características líricas e narrativas).