sábado, 21 de março de 2015

FACADAS NA LÍNGUA PORTUGUESA (1)


Esta é uma paixão antiga que anda por aqui a (re)passear há já algum tempo... pequenas coisinhas que fazem toda a diferença quando é descurado o brio, quando gelou o apego, quando foi perdida a atenção.
Em primeiro lugar, falemos de nascimento:
 
Traços gerais sobre
 
Origem e evolução da Língua Europeia
 
O português é uma língua românica, com origem no latim vulgar trazido para a Península Ibérica pelos invasores romanos, a partir de 218 a. C., durante a segunda Guerra Púnica.
De início, a língua era comum ao Noroeste da Península, tendo constituído, até meados do século XIV, uma unidade com o galego.
As invasões germânicas e muçulmanas favoroeceram o aparecimento de um proto-romance galego-português, por cortarem as ligações com Roma.
Desde o século IX verifica-se, na Península Ibérica, um desfasamento entre o oral (romance) e o escrito (latim).
Nos finais do século XII, o romance galego-português está apto a servir a comunicação escrita. A partir de 1255, começam a ser escritos, em português, alguns documentos, e D. Dinis  (1279) torna obrigatória a redação de documentos oficiais em língua vulgar.
Até 1350, não há grandes diferenças entre o português e o galego.
De meados do século XIV a meados do século XV, o português entra numa fase de transição para o português clássico, assistindo-se, nesta altura, às primeiras tentativas de fixação e normatização temática da língua. Observa-se, entretanto, uma influência castelhana na língua da corte e na língua literária, que se manterá até ao século XVII.
o português moderno herdou as estruturas gramaticais e lexicais dos séculos XVI e XVII, afastando-se, porém, das referências latina, castelhana e francesa, aproximando-se, com maior ou menor incidência, consoante as áreas, da língua inglesa.

O Latim que ainda "se fala" e o significado:

Agenda - coisas que devem ser feitas
Album - lista
A priori - à primeira vista, antes de
Curriculum vitae - relatório de qualificação de uma pessoa
Ex aequo - em simultâneo
Honoris causa - causa honrosa
Per capita - por cabeça, por cada um
Sine qua non - absolutamente necessário
 
 
e agora essa paixão, a de retirar a lâmina sempre que a Língua Portuguesa é, de certo modo, assassinada...
 
... nos meios de comunicação social.
 
 
FACADA 1 - a propósito de um encontro de futebol
 
"... os adversários já sabem o que podem contar..."
 
segredos talvez, carneiros para adormecer...
 
ou seria antes, sabem com o que podem contar?
 
FACADA 2 - sobre alguém de quem se aguardava a saída e que, tendo-o feito,
 
não interviu
 
ora:  
 
intervir - terminação, verbo vir;  interviu, terminação verbo ver
 
isto é, eu intervim, tu intervieste,ele interveio, ...
 
e não eu intervi, tu interviste, ele interviu 
 
 
os verbos formados a partir de outros, "ganham" as terminações desse mesmo verbo.   :)
 
 
 
GRACINHAS...
 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

MITOS E LUGARES MÁGICOS DE PORTUGAL (1) - MINHO



Pedras Leitais - pedras que se acreditava serem mágicas visto que, pela sua ação, as mulheres acabadas de dar à luz, viam o seu leite aumentar ou nascer caso este lhes faltasse.
 
 
 
 
Capela de S. João da Pedra Leital
Requião, concelho de Famalicão
 
Pedra Leital
 
Há um penedo com este nome, com uns mamilos naturais ou artificiais, onde as mulheres vão mamar, a fim de terem o leite que lhes falta, após o que dão três voltas ao penedo. Junto está a capela de S. João da Pedra Leital. Localiza-se em Requião, concelho de Famalicão.
 
 
 
 
Pedras Leitais de S. Mamede
 
Na Senhora de S. Mamede existem estas pedras onde, de acordo com uma antiquíssima tradição, as mulheres iam amamentar os seus filhos. Localiza-se em Póvoa de Lanhoso. 
 
 
 
 
 


sábado, 7 de fevereiro de 2015

ANÁLISE DO POEMA ULISSES in "MENSAGEM"

 
 
 
 
Ulisses
 
 
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar nas realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
 
 
 
 
O título do poema – Ulisses – evoca o herói da Odisseia de Homero, que, segundo a lenda, tendo-se perdido no Mediterrâneo depois da vitória de Troia, teria aportado no estuário do Tejo e fundado a cidade de Olisipo (Lisboa).
v  - Ulisses poderá representar a vocação marítima dos portugueses já que é do mar que chega este antepassado mítico dos portugueses.
v  E se Ulisses é o mito que é nada e é tudo isso deve-se à sua importância enquanto lenda portadora de força que, por sua  vez, dá vida.
v  Na 3ª e última estrofe dá-se a passagem do nada ao tudo: “a lenda vem (escorre) de cima; ao entrar na realidade, fecunda-a – fazendo o “milagre” de tornar irrelevante a vida cá de baixo, dita do mundo real, objetivo: “Em baixo, a vida, metade/De nada, morre”. Só readquire vida aquilo que o mito/nada tudo fecunda – e o processo não é do passado, mas intemporal – daí os tempos verbais no presente.”
 
*** neste poema, Pessoa parece dizer-nos que não importa se as figuras de que vai ocupar-se, os heróis fundadores, tiveram ou não existência histórica. O que é importante é a sua função enquanto mito, com a força própria do mito porque é então que ele é tudo.
Assim, o que realmente importa não é saber se Ulisses terá existido realmente mas ter consciência daquilo que ele representa: “o futuro glorioso de Portugal” só poderá concretizar-se se houver apropriação da energia que ele gera e da força criadora que ele liberta. (3ª est.)
v  Podemos considerar que este poema ajuda a explicar os que se lhe seguirão na Mensagem onde os heróis fundadores, apesar da sua existência histórica feita de êxitos e fracassos, aparecem mitificados.
 
 
 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Álvaro de Campos


pilares



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ÚLTIMAS NOTAS SOBRE "FARSA DE INÊS PEREIRA"

Tempo 
É um tempo dilatado, tendo o espetador dificuldade em se aperceber da sua passagem.
 
Cómico
Encontramos, nesta farsa, cómico de situação ou de personagem em Inês, Pêro Marques e no Escudeiro; de situação na cena de ‘’namoro’’ de Inês com Pêro Marques; de linguagem na carta e linguagem de Pêro Marques e na fala dos Judeus casamenteiros. Podemos considerar as rezas e as pragas (esconjuros) como cómico de linguagem.
 
Objetivo da crítica vicentina
Gil Vicente critica:
·   A mentalidade das jovens raparigas;
·   Os escudeiros fanfarrões, galantes e pelintras;
·   A selvajaria e ingenuidade de Pêro Marques;
·   As Alcoviteiras e os Judeus casamenteiros;
·   Os casamentos por conveniência;
·   Os Clérigos e os Ermitões.
 
Concluindo
Desta ação pode extrair-se que o que Inês mais queria, acabou por conseguir: a sua liberdade, encontrada junto de Pêro Marques. A unidade da ação é dada pelo tema e pela personagem principal, Inês Pereira, sempre presente em cena sendo que todas as personagens e ação giram à sua volta.
Não há dúvida de que Gil Vicente demonstrou aos contemporâneos que nele não acreditavam, e com esta peça, ser de facto, o grande criador das obras que fazia representar.







 
 
 
 
 
 
 
 
 
 E AINDA...
 

 

 

A temática da peça Farsa de Inês Pereira está profundamente ligada à realidade social da época de Gil Vicente: o desejo de ascensão social da pequena burguesia que vê no casamento uma forma de consegui-la, o oportunismo, o desprezo pela vida ligada ao campo e o fascínio pelos hábitos e costumes da Corte face à ignorância do rústico, embora rico, e à sua ingenuidade, a falta de escrúpulos (núcleo da peça).


O desenvolvimento do capitalismo reforçou o poder do monarca e provocou a decadência da nobreza feudal e a riqueza proveniente do comércio ultramarino tendia a ser grande base do prestígio social. A aristocracia dependia dessa riqueza e procurou diminuir a sua importância, desprezando-a e valorizando as origens, da ascendência do sangue, a educação, a fineza, as boas maneiras, a honra e a coragem, enfim os ideais cavaleirescos. E como a nobreza, mesmo decadente, ainda conservava grande prestígio social, acabou por impor o estereótipo do cavaleiro como modelo a que deviam aspirar todos aqueles que queriam pertencer à classe superior.


A burguesia (comércio e finanças) procurou imitar esse figurino com desejo de ascensão social passando a imitar os nobres enquanto sonhavam subir na escala social, mas isso tornou-se cómico e ridículo.

É mais ou menos o que acontece em “Inês Pereira”, o Escudeiro domina Inês e torna-a infeliz. Viúva, ela procura o antigo pretendente rejeitado, casa-se com ele por ser rico, ingénuo e tolo, acabando por dominá-lo e traí-lo sem o menor remorso.

 

 
 
 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

FARSA DE INÊS PEREIRA, GIL VICENTE - CONTEXTUALIZAÇÃO II






Humanismo

Embora se trate de um termo polissémico, ele interessa-nos apenas no seu sentido mais restrito ou histórico, entendido enquanto o movimento literário e cultural de uma época marcada por profundas transformações na sociedade europeia.

O Humanismo corresponde ao período de transição da Idade Média para a Idade Clássica. Tem como marcos iniciais as nomeações de Fernão Lopes como Guarda-Mor da Torre do Tombo (local onde se guardavam os documentos oficiais), em 1418 e, como Cronista-Mor do Reino, em 1434, quando recebeu de D. Duarte, rei de Portugal, a incumbência de escrever a história dos reis que o precederam.

Historicamente, o Humanismo foi um movimento intelectual italiano do final do século XIII que se difundiu por quase toda a Europa, isto porque, após a queda de Constantinopla em 1453, muitos intelectuais gregos (professores, religiosos e artistas) refugiaram-se na Itália e começaram a propagar uma nova visão de mundo, mais antropocêntrica, indo de encontro à visão teocêntrica medieval. Entre as principais ideias humanistas estavam:

• recuperação da cultura antiga, através do estudo e imitação dos poetas e filósofos greco-latinos;

• revalorização da filosofia de Platão, especialmente no que diz respeito à distinção entre o amor espiritual e o carnal - neoplatonismo;

• crítica à hierarquia medieval, o homem reivindicando para si uma posição de destaque no Universo - não aceitação passiva das imposições místicas difundidas na ideia de destino;

• bifrontismo, coexistência de características medievais (feudalismo, teocentrismo) e renascentistas (mercantilismo, antropocentrismo, pragmatismo burguês).

No final da Idade Média, Portugal passava por profundas transformações. O desenvolvimento de outras atividades económicas estimulou a crise do sistema feudal e deu início ao chamado mercantilismo – a economia de subsistência é substituída gradativamente por atividades comerciais. Surgem as pequenas cidades, chamadas burgos, e com elas uma nova classe social, a burguesia. Muitas descobertas são feitas, entre elas a invenção da imprensa (em 1448, por Gutenberg) e de instrumentos relacionados com a expansão ultramarina. Mas é, sem dúvida, a Revolução de Avis (1383-1385) o marco cronológico da consolidação do Estado Nacional Português. Através dela estabelece-se a política centralizadora do poder nas mãos do rei,  pela burguesia mercantilista. A partir da primeira conquista ultramarina portuguesa, a Tomada de Ceuta, em 1415, inicia-se o período das Grandes Navegações, que consolidam o nacionalismo português.

 
A produção literária desse período subdivide-se em:

·         Poesia Palaciana

crónicas de Fernão Lopes
• Prosa
prosa doutrinária
novelas de cavalaria

 

A Poesia Palaciana, como o próprio nome indica, era poesia produzida no ambiente dos palácios, feita por nobres e destinada à corte. Ao contrário dos códices (manuscritos) trovadorescos, grande parte da produção poética desse período foi recolhida por Garcia Resende, no Cancioneiro Geral, formado por 880 composições, impresso em 1516. Entre suas principais características estão:

- separação entre música e texto – a poesia destina-se à leitura. Assim, a própria linguagem é responsável pelo ritmo e expressividade. O termo trovador aos poucos assume um caráter pejorativo e começa a surgir a figura do poeta;

- utilização das redondilhas – versos compostos por cinco (redondilhas menores) ou sete sílabas poéticas (redondilhas maiores);

- temática variada – com composições religiosas, satíricas, didáticas, heroicas e líricas. O lirismo amoroso trovadoresco, a partir da influência de Petrarca (um dos precursores do Humanismo italiano), assume uma nova conotação, a mulher idealizada, inatingível, carnaliza-se e a sensualidade, reprimida nas cantigas de amor, passa a ser frequente.

Fernão Lopes é a principal figura da prosa humanista, considerado o fundador da historiografia portuguesa. Sua importância deve-se não só ao aspeto histórico da sua produção, mas também ao aspeto artístico das suas crónicas. Nas suas crónicas, apesar de regiocêntricas, o povo aparece pela primeira vez com coautor das mudanças históricas portuguesas. Entre as suas características, destacam-se: a imparcialidade, o registo documental, a criticidade e o nacionalismo. São da autoria de Fernão Lopes:

- A prosa doutrinária, também chamada de ensinanças, corresponde a textos de caráter didático, destinados à nobreza. São obras para o aprendizado de certas artes da época, como a montaria.

- As novelas de cavalaria conservam basicamente as mesmas características do Trovadorismo.

·         O Teatro de Gil Vicente

Antes da produção vicentina é praticamente impossível falar-se em teatro. A manifestação teatral da Idade Média limitava-se às encenações de caráter litúrgico, presas aos rituais da religião católica. As encenações religiosas apresentadas no interior das igrejas dividiam-se em:

- mistério – representação da vida de Jesus Cristo;

- milagre – representação da vida de santos;

- moralidade – representações curtas com finalidade didática ou moralizante.

As encenações que ocorriam fora dos templos religiosos recebiam o nome de profanas e apresentavam um caráter mais popular e não estavam relacionadas com os cultos católicos.

Pouco se sabe sobre os dados biográficos de Gil Vicente. Acredita-se que tenha tido muito prestígio na corte portuguesa, desempenhando a função de organizador das grandes festas palacianas. Para outros, entretanto, desempenhava a função de ourives, atraindo a atenção da rainha Leonor. Mas é unanime o seu reconhecimento como o fundador do teatro português e o maior representante do Humanismo.

Assim como o período em que se vivia, as suas peças apresentavam o bifrontismo como característica central. Ora com fortes marcas medievais, ora com antecipações renascentistas.

Gil Vicente criticou toda a sociedade da sua época, as suas peças apresentam indivíduos de todos os segmentos sociais. Só não criticou mordazmente a Família Real, da qual dependia. É importante destacar que todo o moralismo vicentino não é contra as instituições mas contra os indivíduos que as corrompiam. Tanto que em nenhum de seus trabalhos questionou qualquer verdade cristã, apresentando uma visão teocêntrica e conservadora da sociedade. Na realidade, era contra as novidades trazidas pelas mudanças do período que punham em risco a integridade do povo português. Os seus autos representam uma tentativa de resgate dessa integridade que se perdia através da corrupção, do adultério e da ambição.

Por outro lado, Gil Vicente inovou, mesmo escrevendo em redondilhas, não seguiu a rigidez do teatro clássico vigente até então que contemplava a unidade de ação, de tempo e de espaço. As suas representações apresentavam uma grande variedade temática, povoadas por inúmeros personagens, amplitude temporal e justaposição de lugares. A alegoria, as personagens-tipo e a variedade linguística também o distinguem do seu tempo. As suas personagens não apresentam características particularizadas, pelo contrário, são generalizações, estereótipos, que representam uma categoria profissional ou uma classe social (povoam as suas peças as alcoviteiras, os fidalgos, os frades, os judeus). Outras vezes, através da abstração, as personagens representam ideias ou instituições (a Fama, a Igreja, a Lusitânia, Todo-o-Mundo e Ninguém). As personagens vicentinas expressavam-se através de diversos registos linguísticos: arcaísmos, castelhano, latim, português chulo, coloquial, popular, culto e erudito.

A produção teatral de Gil Vicente divide-se em três fases:

- Primeira Fase – marcada pelos traços medievais e pela influência espanhola de Juan del Encina. São desta fase: O Monólogo do Vaqueiro, o Auto Pastoril Castelhano, o Auto dos Reis Magos, entre outros.

- Segunda Fase – aparecem a sátira dos costumes e a forte crítica social. São desta fase: Quem tem farelos?, O Velho da Horta, o Auto da Índia e a Exortação da Guerra.

- Terceira Fase – aprofundamento da crítica social através da tragicomédia alegórica, da variedade temática e linguística, é o período da maturidade expressiva. São desta fase: A Trilogia das Barcas, a Farsa de Inês Pereira, o Auto da Lusitânia.

·         A Farsa de Inês Pereira

Conta a história que a Farsa de Inês Pereira surgiu por volta de 1523, quando a autoria dos textos de Gil Vicente foi questionada. Ele, a fim de provar a sua inocência, pediu que lhe dessem um tema qualquer para que produzisse uma peça. O tema dado foi um dito popular: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me derrube”, expressão conhecidíssima da célebre farsa.

Inês Pereira, jovem ambiciosa e namoradeira, cansada dos afazeres domésticos decide se casar, mas não com qualquer rapaz de sua classe social, deseja um casamento nobre, com um homem que seja galante, discreto e que saiba cantar. Recusa o casamento com Pêro Marques, que mesmo rico era camponês e casa-se com Brás da Mata, falso escudeiro que a maltrata após o casamento.

Com a morte do marido, a jovem casa-se novamente com o primeiro pretendente, mesmo sem amá-lo. Ingénuo e devotado, Pêro Marques não percebe a traição da mulher com um falso religioso e, na cena final da farsa, leva a própria esposa para os braços do amante, daí a frase: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me derrube”.

 

 

FARSA DE INÊS PEREIRA, GIL VICENTE - CONTEXTUALIZAÇÃO I




APONTAMENTOS…


O MOMENTO HISTÓRICO

O Portugal do século XVI é uma nação rica em conquistas ultramarinas, mas deficiente em produção agrícola e manufatureira. Para conseguir abastecer-se internamente a única saída é trazer ouro e prata das viagens além-mar. A crise económica gera um descontentamento que ameaça os antigos valores, dissolvendo a aliança entre clero e nobreza, entre mercadores e soberanos. Essa crise é retratada na obra de Gil Vicente pelas personagens que buscam enriquecer a qualquer preço, aproveitando a situação caótica do país.


EUROPA vs PORTUGAL

Em toda a Europa, o século XVI é o momento de ascensão da burguesia, valorização da ciência e do homem e questionamento da Igreja, com a Reforma protestante. Em Portugal, entretanto, desenvolve-se um humanismo um pouco diferente: as ciências são valorizadas, mas o poder da Igreja e da nobreza não é questionado. Muito pelo contrário: a Inquisição e a Companhia de Jesus são os principais instrumentos da Contrarreforma, que chega para reprimir a cultura humanista proporcionada pelo contato com outras culturas, decorrente dos descobrimentos.


RELIGIOSIDADE E REFORMISMO

Gil Vicente vive numa época de transição de valores: os ideais medievais chocam-se com a realidade renascentista o que se pode verificar na sua obra. Critica os maus padres, mas poupa a Igreja; critica os maus nobres, mas não questiona o poder real. Os valores medievais são representados pela forte religiosidade, pela instituição da Igreja, pelos dogmas da fé. Por outro lado, o espírito reformista aparece na crítica aos padres que têm uma vida desregrada e exploram a ingenuidade dos crentes para manipulá-los. Um exemplo disso é o sermão em que Gil Vicente procura explicar racionalmente as causas do terramoto ocorrido em Lisboa, enquanto os padres diziam que era a ira de Deus manifestando-se contra a falta de fé dos cristãos-novos – os judeus convertidos ao cristianismo para escaparem à Inquisição.  Ao transpor momentos da vida social para o teatro, as peças vicentinas conquistam o público pela simplicidade com que mostram as falhas humanas, para que as pessoas se possam corrigir e receber as bênçãos da vida eterna. As peças conquistam o público pela simplicidade e divertem ao mesmo tempo que ensinam.


 IMPORTANTE!

Gil Vicente é importante na literatura portuguesa não só por fazer um retrato da sociedade de seu tempo, mas principalmente por abordar a vida do homem na sua totalidade, desde os problemas domésticos mais corriqueiros até aos mais complicados conflitos morais.

 

O GÉNERO

Gil Vicente é um artista medieval escrevendo em plena Renascença, momento em que as próprias estruturas da arte se encontravam em transformação. O auto, género muito popular até então, caracterizava-se pelo conteúdo simbólico: os atores representavam entidades abstratas de caráter religioso ou moral, como o pecado, a hipocrisia, a luxúria, a avareza, a virtude, a bondade etc. Embora a Farsa de Inês Pereira tenha sido publicada primeiramente como Auto de Inês Pereira, o conteúdo da peça não corresponde às exigências do auto. Gil Vicente criou um novo género para o qual não havia um nome na época, a farsa.

 

IMPORTANTE!

A farsa é um tipo de encenação teatral curta que explora situações engraçadas da vida quotidiana, apelando para a caricatura e os exageros, a fim de provocar o riso no espetador mas, ao contrário da comédia, não tem um fundo moralizante.


CRÍTICA SOCIAL NA FARSA DE INÊS PEREIRA

A Farsa de Inês Pereira possui, como tantas outras obras de Gil Vicente, uma componente marcada de crítica a tipos sociais. Destaque-se a jovem casadoira, figura que entre os séculos XVI e XXI terá apenas sofrido pequenas alterações, ao nível da cosmética. Assim também sucede com o príncipe encantado (o Escudeiro), com a Mãe, com Pêro Marques, enfim, toda a galeria de personagens, que correspondem a tipologias sociais com equivalentes na atualidade. O tom de farsa serve perfeitamente os objetivos imanentes à crítica. O riso é uma forma de criticar e de caricaturar costumes. Daí decorre um outro vetor a sublinhar nesta peça: o cómico de situação, um provocador do riso com o qual se castigam os costumes. Assim, por exemplo, a incompreensão entre Mãe e filha tipifica o conflito de gerações, tão velho como a história da humanidade. Atente-se ainda na crítica à irreflexão da juventude que assume decisões vitais, por vezes, de modo fundamentalista. Não esqueçamos, finalmente, a crítica social aos três casamenteiros Leonor, Latão e Vidal, bem-humorada, mas impiedosa quanto à análise do motivo que fundamenta a sua atividade: o vil metal.


ESTILO NA FARSA DE INÊS PEREIRA

Escrita em verso, a Farsa de Inês Pereira incorpora trocadilhos, ditos populares e expressões típicas de cada classe social. Gil Vicente nesta farsa lança mão a diferentes recursos linguísticos que formam o estilo da farsa.

Ironia - A ironia é utilizada na peça como instrumento de crítica social e como motivadora do riso. Ela aparece sob diversas formas, quer seja através de palavras expressando o seu sentido contrário, quer jogando com o duplo sentido ou ainda acentuando a desproporção entre uma ação e a sua finalidade.

Eis alguns exemplos "Mãe: Mana, conhecia-te ele?

Lianor: Mas, queria conhecer-me!" 

Aqui, o efeito cómico surge a partir de uma construção de duplo sentido do verbo conhecer: saber e relacionamento sexual.

"Inês: Mostrai cá, meu guarda-mor, e veremos o que é que vem."

É uma fala de Inês Pereira dirigida ao Moço tratando-o por guarda-mor. Guarda--Mor era um tipo de tratamento que era, então, dispensado aos fidalgos da Guarda real. Inês joga com a desproporção entre a denominação que lhe dá e a real condição do Moço.

Cantigas - Resumem ou comentam a ação ou exprimem o estado de espírito de quem as canta.

"Mal herida va la garça enamorada..."

Esta cantiga aparece no casamento de Inês com Brás da Mata e é cantada pelos seus amigos. Cumpre a função de resumir os acontecimentos e tem o dom de previsão do futuro, graças ao simbolismo da garça que representa Inês, caminhando sozinha e triste, depois de um Escudeiro lhe destruir os ideais. Há várias referências a cantigas nesta farsa, eis alguns exemplos:

"Canta o Judeu, Canas de amor, canas de amor...";

“Canta o Escudeiro o romance, Mal me quieren en Castilla...”

O canto, a dança e a música desempenham em Gil Vicente a função de instrumentos para a análise da sociedade da época.

O modo de falar das personagens é o principal recurso vicentino. Assume o papel de mostrar a oposição entre os mais elevados valores morais e os novos valores materialistas. A oposição entre o mundo de ideais de Inês e o discurso de conveniência protagonizado pela mãe.

Inês utiliza palavras ligadas à diversão; "folgar", "prazer", enquanto a Mãe faz recurso a um vocabulário que exprime obrigação: "tarefa", "preguiçosa".

O modo de falar de Pêro Marques evidencia o seu carácter simplório.

No outro extremo, temos as falas do Escudeiro que, apesar de dar azo a belas palavras, revela-se um mau carácter. Temos, então, o modo de falar ao serviço do jogo de contrastes entre a aparência e a essência (o ser).

 
Fonte: net (adaptado)