"A renúncia é a libertação. Não querer é poder." Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
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sexta-feira, 21 de novembro de 2014
domingo, 16 de novembro de 2014

CANTIGAS
DE AMOR (cont.)
São,
como já sabemos, cantigas importadas de França, ao gosto provençal (Provença).
O sujeito de enunciação é o trovador apaixonado que consagra à sua “senhor” um
amor platónico, sem esperança, um amor-adoração e que expressa nestas
composições os seus sentimentos, os sentimentos amorosos pela dama cortejada,
falando em seu nome. Por norma, o amor expresso nas cantigas de amor, é um amor
infeliz, não compartilhado.
Em
relação às cantigas provençais, a “coita” dos trovadores portugueses é mais
autêntica, mais sentida…
Embora
se tenham inspirado no lirismo provençal, as cantigas de amor da Península
possuem características bem diferentes. As nossas são mais espontâneas, mais
sentidas, mais autênticas, têm muito a ver com a nossa alma romântica, saudosa,
um pouco até masoquista, em que se sente um prazer mórbido em sofrer, um gosto
em estar triste. Como confirma Rodrigues Lapa: “A nossa imitação foi sobretudo
uma apropriação de formas.”
Características
e Estética das Cantigas de Amor
-
A idolatração da mulher amada, em que o trovador se mostra submisso perante
ela;
-
O sujeito enunciador sente que não é senhor do seu coração; ela enganou-o,
fê-lo apaixonar-se por ela;
-
Os olhos da dama surgem nestas cantigas como uma das causas da paixão;
-
O amor espiritual pode conduzir a um aperfeiçoamento através do desejo do
objeto amado. A mulher é a ponte para o infinito, realiza-se nela e por ela
esquecendo-se de si próprio, para pensar só no “ben”;
-
Os trovadores valorizavam mais as qualidades morais da mulher;
-
Por vezes, o poeta sofre muito. Não é fácil atingir a perfeição absoluta; chega
mesmo a sentir ânsia de se vingar daquela que o tortura mas tudo não passa de
um desejo;
-
Deus está sempre presente nestas composições, quase como um confidente: com ele
desabafa e pede-lhe conselhos.
CANTIGAS DE AMOR (2)

Festa
e Jogo
(…) “Festa e jogo, o amor cortês realiza a
evasão para fora da ordem estabelecida e a inversão das relações naturais.
Adúltero por princípio, começa por desforrar-se das servidões matrimoniais. Na
sociedade feudal, o casamento visava aumentar a glória e a riqueza duma casa.
O negócio era tratado friamente, sem curar dos impulsos de coração, pelos mais
velhos das duas linhagens. Estes fixavam as condições da troca, da aquisição
da esposa, que devia tornar-se, para o futuro senhor, guardiã da sua morada, ama
dos seus criados e mãe dos seus filhos. Era preciso sobretudo que fosse rica,
de boa estirpe e fiel. As leis sociais ameaçavam com as piores sanções a esposa
adúltera e aquele que tentasse desviá-la. Mas concediam toda a liberdade aos
homens. Complacentes, damas não casadas oferecem-se em cada castelo aos
cavaleiros andantes das narrativas corteses. O amor cortês não foi portanto simples
divagação sexual. E eleição. Realiza a escolha que o processo dos esponsais
proibia. No entanto, o amante não escolhe uma virgem, mas a mulher de outro.
Não a toma por força, conquista-a. Perigosamente. Vence pouco a pouco as suas
resistências. Espera que ela se renda, que lhe ceda os seus favores. Para esta
conquista desenvolve uma estratégia minuciosa, que aparece de facto como uma
transposição ritualizada das técnicas da caçada, da justa, do assalto das
fortalezas. Os mitos da perseguição amorosa decorrem como cavalgadas na
floresta. A dama eleita é uma torre cercada.
Mas esta estratégia coloca o cavaleiro em posição de
servidão. O amor cortês inverte, ainda aqui, as relações normais. No real da
vida, o senhor domina inteiramente a esposa. No jogo amoroso, serve a dama,
inclina-se perante os seus caprichos, submete-se às provas que ela decide
impor-lhe. Vive ajoelhado diante dela, e nesta postura de devotamento se
encontram desta vez traduzidas as atitudes que, na sociedade dos guerreiros,
regulavam a subordinação do vassalo ao seu senhor. Todo o vocabulário e todos
os gestos da vida cortês saem das fórmulas e dos ritos da vassalidade. Em
primeiro lugar, a própria noção de serviço e o seu conteúdo. Como o vassalo
para com o senhor, o amante deve ser leal para com a dama. Empenhou a sua fé,
não pode traí-la, e este laço não é daqueles que se desatam. Mostra-se valente,
combate por ela, e são as vitórias sucessivas das suas armas que o fazem
avançar nos seus caminhos. Finalmente, deve rodeá-la de atenção. Faz-lhe a corte,
o que quer dizer que a serve ainda, tal como os vassalos reunidos em corte
feudal em redor do seu senhor. Mas, como o vassalo, o amante entende que por
esse serviço obterá um dia recompensa e ganhará sucessivos dons. (…)
O amor cortês continuou a ser um jogo, um divertimento
secreto. Vive de piscadelas de olho cúmplices. Discreto, dissimula-se sob
aparências enganadoras. Mascara-se sob o esoterismo do trobar clus, dos gestos
simbólicos, das divisas de duplo sentido, duma linguagem que só os iniciados
sabem decifrar. Por essência, e nas formas que exprime, é todo ele fuga para
fora do real, como a festa. E um intermédio apaixonante, mas de total
gratuidade, que não compromete o fundo da pessoa."
GEORGES DUBY, O Tempo das Catedrais
(1979), pp. 252-253
CANTIGAS DE AMOR (1)
CANTIGAS
DE AMOR
“Chamavam
os trovadores cantigas ou cantares de amor às poesias que se aproximavam, no
fundo e na forma, da cansó occitânia e
nas quais o poeta exprimia os sentimentos amorosos pela dama cortejada falando
em seu próprio nome. (…)”
Celso
Ferreira da Cunha, in Dicionário das
Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira
Segismundo
Spina, para explicar aa teoria da influência provençal do amor cortês, diz o
seguinte:
“O
cavaleiro, que já não andava fora, com tanta frequência, vivia mais na
companhia da mulher e da família. O barão, no seu lar mais palaciano, começa a constituir
uma corte, onde tinham ocasião de florescer as graças femininas e onde eram
mandados os filhos e as filhas dos vassalos a aprender as artes e as maneiras
[…]; começava a florir de novo a civilização: a música, a pintura, a poesia, as
artes manuais, a arquitetura surgiram para a vida. Nasce então a cortesia e,
portanto, o amor cortês”.
"Neste tipo de cantiga, o trovador empreende a
confissão, dolorosa e quase elegíaca, de sua angustiante experiência passional
frente a uma dama inacessível aos seus apelos, entre outras razões porque de
superior estirpe social, enquanto ele era, quando muito, um fidalgo decaído.
Uma atmosfera plangente, suplicante, de litania, varre a cantiga de ponta a
ponta. Os apelos do trovador colocam-se alto, num plano de espiritualidade, de
identidade ou contemplação platónica, mas entranham-se-lhe no mais fundo dos
sentidos: o impulso erótico situado na raiz das súplicas transubstancia-se,
purifica-se, sublima-se. Tudo se passa como se o trovador "fingisse",
disfarçando com o véu do espiritualismo, obediente às regras de conveniência
social e da moda literária vinda da Provença, o verdadeiro e oculto sentido das
solicitações dirigidas à dama. À custa de "fingidos" ou
incorrespondidos, os estímulos amorosos transcendentalizam-se, graças ao
torturante sofrimento interior que se segue à certeza da inútil súplica e da
espera dum bem que nunca chega. E a coita (= sofrimento)
de amor que, afinal, ele confessa.
As mais das
vezes, quem usa da palavra é o próprio trovador, dirigindo-a em vassalagem e
subserviência à dama de seus cuidados (mia senhor ou mia dona = minha
senhora), e rendendo-lhe o culto que o "serviço amoroso" lhe impunha.
E este orienta-se de acordo com um rígido código de comportamento ético: as
regras do "amor cortês", recebidas da Provença. Segundo elas, o
trovador teria de mencionar comedidamente o seu sentimento (mesura), a fim de não
incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada;
teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudónimo (senha), e prestar-lhe
uma vassalagem que apresentava quatro fases: a primeira correspondia à condição
de fenhedor, de quem se consome em suspiros; a
segunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e pedir; entendedor é o namorado;
drut, o amante. O lirismo trovadoresco português conheceu as duas
últimas fases, mas o drut (drudo em português)
encontrava-se exclusivamente na cantiga de escárnio e maldizer. Também a senha era
desconhecida do nosso trovadorismo. O trovador, portanto, subordina todo o seu
sentimento às leis da corte amorosa, e ao fazê-lo, conhece as dificuldades
interpostas pelas convenções e pela dama no rumo que o levaria à consecução
dum bem impossível. Mais ainda: dum bem (e
"fazer bem" significa corresponder aos requestos do trovador) que ele
nem sempre deseja alcançar, pois seria pôr fim ao seu tormento masoquista, ou
início dum outro maior. Em qualquer hipótese, só lhe resta sofrer,
indefinidamente, a coita amorosa.
E, ao tentar exprimir-se, a plangência da confissão do
sentimento que o avassala - apoiada numa melopeia própria de quem mais murmura
suplicantemente do que fala - vai num crescendo até à última estrofe (a estrofe era chamada, na lírica
trovadoresca, de cobra); podia ainda receber o nome de cobla ou de talho. Visto uma
ideia obsessiva estar empolgando o trovador, a confissão gira em torno dum
mesmo núcleo, para cuja expressão o enamorado não acha palavras muito variadas,
tão intenso e maciço é o sofrimento que o tortura. Ao contrário, parece que seu
espírito, caminhando dentro dum círculo vicioso, acaba por se repetir
monotonamente, apenas mudando o grau de lamento, que aumenta em avalanche até
ao fim. O estribilho ou refrão, com que o
trovador pode rematar cada estrofe, diz bem dessa angustiante ideia fixa para a
qual ele não encontra expressão diversa.
Quando
presente o estribilho, que é recurso típico da poesia popular, a cantiga
chama-se de refrão. Quando ausente, a cantiga recebe o nome de cantiga de
maestria, por tratar-se dum esquema estrófico mais difícil, intelectualizado,
sem o suporte facilitador daquele expediente repetitivo."
MASSAUD
MOISÉS, op. cit., pp. 25-26
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