A partir de segunda feira, dia 6, serão reeditados antigos conteúdos sobre Fernando Pessoa e do novo programa do 10º ano.
"A renúncia é a libertação. Não querer é poder." Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
sábado, 4 de novembro de 2017
terça-feira, 31 de outubro de 2017
"LENDAS E NARRATIVAS", ALEXANDRE HERCULANO - "A ABÓBADA" (3)
A Abóbada,
conto pertencente ao livro Lendas e
Narrativas, de Alexandre Herculano, narra a história da construção do
Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ou da Batalha, iniciado por D. João I na
Quinta do Pinhal, que assim homenageou essa histórica batalha, a Batalha de
Aljubarrota.
Em
A Abóbada, para além do Mosteiro da
Batalha, um "immenso livro de pedra", "a minha Divina
Comedia", no dizer de Afonso Domingues, que "escrevera sobre o
marmore o hymno dos valentes d' Aljubarrota" (1900, I: 295), essa
valorização está presente no carácter de D. João I, "parente do povo por
sua mãe" (id.: 283), cuja palavra valia "por ser palavra de
cavalleiro português daquelles tempos, em que tão nobres affectos e instinctos
havia nos corações de nossos avós que de bom grado lhes devemos perdoar a
rudeza."
Alexandre Herculano
e a construção da cultura/literatura nacional
Carlos Manuel Ferreira da Cunha (Universidade do
Minho) (excerto)
“As narrativas históricas de Herculano revelam, pois,
dupla relação de intertextualidade com as obras medievais: a que se manifesta
diretamente entre o texto-fonte e a
narrativa em que o escritor o desenvolve, integrando-o sempre num contexto
histórico pormenorizadamente reconstituído; e a que está implícita nos temas e
motivos de ficção preferidos por Herculano, assim como na caracterização das
personagens, ou dos grupos sociais, que se inserem e participam em
acontecimentos históricos, portanto reais, embora as suas reações apenas sejam
imaginadas, ou, pelo menos, recriadas, pelo escritor.
Ao elaborar um texto a partir de outro, que lhe
servia de matriz, Herculano geralmente desenvolvia certas unidades semânticas
contidas no primeiro, completando pela imaginação, ou por sugestões devidas a
outras relações de intertextualidade, o que, a nível do significado, poderia
considerar-se implícito ou possível.
Assim, certas narrativas (A Dama Pé de Cabra, Arras por Foro de
Espanha, A Abóbada) evidenciam, pelo próprio tema
escolhido, ou através de processos de enriquecimento do texto-fonte, a leitura
de duas obras diferentes, mas igualmente reveladas e valorizadas pelo movimento
romântico: o Romanceiro e as Crónicas de Fernão Lopes. (…)
N’A Abóbada, Herculano glorifica uma época, reunindo, nesta
sua criação original, os heróis de outra gesta – a que Portugal travou contra
Castela —, celebrada em pedra por um lídimo representante, como homem de armas
de D. Nun'Alvares Pereira, dos combatentes de Aljubarrota: Afonso Domingues, o arquiteto
e imaginário, autor do «imenso livro de pedra a que os espíritos vulgares
chamam simplesmente o mosteiro da Batalha». Colocando frente a frente o «rei
dos homens do aceso imaginar» e «o rei dos melhores cavaleiros», identifica-os
no mesmo ideal: “só D. João I compreende Afonso Domingues; porque só ele
compreende a valia destas duas palavras formosíssimas, palavras de anjos — pátria
e glória.”
Utilizando também n'A Abóbada a narração dramatizada, e explorando a teatralidade
dos diálogos, Herculano ergue uma grandiosa encenação, que tem por cenário o
mosteiro de Santa Maria da Vitória: animada pelo povo que tornou possível o
triunfo da nação portuguesa, atuam como personagens as mais representativas e
prestigiadas figuras históricas e lendárias — do Dr. João das Regras a Brites
de Almeida, a padeira, cuja “tremebunda e patriótica pá do forno [...] hoje é
glória e brasão da gótica vila de Aljubarrota”, conforme informação do
narrador.
Contudo, no terceiro capítulo (em que ocorre o
acontecimento fundamental para a progressão da ação — a queda da
abóbada), esta técnica narrativa foi substituída pela descrição, completada por
outros tipos de enunciado: narração e monólogo, além
das reflexões do narrador. Deste modo são apresentados ao leitor, à maneira de
uma encenação dentro de outra, dois espetáculos, cada um deles caracterizado
pelo seu ritual — a representação de um mistério, que o povo designa por Auto dos Reis, e a cerimónia do exorcismo. A inclusão de versos
contribui para imprimir veracidade à reconstituição do auto, de acordo com o
gosto do pitoresco, que caracteriza a estética romântica. Perante o
irracionalismo da cena a que o leitor assiste, o narrador assume
uma feição pedagógica e crítica, no intuito de defender a mentalidade medieval,
identificando as reações de “homens de um século, não só crente, mas também supersticioso»
às que não poderia deixar de experimentar, apesar de todo o seu racionalismo, “uma
grande manada de enciclopedistas”, como observa desdenhosamente.
Na defesa dos valores nacionais e populares, que
considerava sinónimos, Herculano evidencia o contraste entre Afonso Domingues
e Mestre David Ouguet, ridicularizando o irlandês, como homem e como arquiteto,
por meio de uma caricatura: que poderá considerar-se a expressão da anglofobia
do autor, mas serve também de pretexto para criticar com ironia um vício bem
português: a preferência, ou o respeito, pelo que é estrangeiro, mesmo que de inferior
qualidade, em comparação com o que o país possui ou poderá produzir.
Pelo contrário, o velho arquiteto parece constituir
uma projeção dos íntimos desígnios do jovem romântico (Herculano tinha então
vinte e nove anos), e, como tal, anuncia também, com impressionante previsão, o
isolamento prematuro a que o escritor se condenará, vencido pela incompreensão
do “país sáfaro e inculto”, como diria Mestre Ouguet, e, parafraseando as suas
palavras, de “homens brigosos, incapazes dos primores das artes, ou sequer
entendê-los”.
E a identificação entre Herculano e Afonso
Domingues manifesta-se ainda sob vários aspetos. Como poetas, ambos
experimentaram os sentimentos expressos pelo velho arquiteto: “Este mosteiro
era a minha Divina Comédia, o cântico da minha alma. Este edifício era meu; porque
o gerei; porque o alimentei com a substância da minha alma”. Ambos defendem um
conceito de arte nacional (“português sou eu, portuguesa a minha obra”). Como
Herculano, também Afonso Domingues foi soldado e companheiro de um rei que
lutou pela liberdade (“os vassalos portugueses são livres”). E, à semelhança do
“criador da oitava maravilha do mundo”, também Herculano provou com a vida e a
obra aspirar apenas a “um nome honrado e glorioso”.
Criando a ficção histórica como obra de arte, mas
baseada em prévio trabalho científico, Herculano soube imprimir seriedade às
suas obras romanescas, constituindo-as
como modelo de todos os que cultivaram este subgénero narrativo.
Maria Ema Tarracha Ferreira
Fevereiro, 1988
"LENDAS E NARRATIVAS", ALEXANDRE HERCULANO - ROMANCE HISTÓRICO E LENDAS E NARRATIVAS (2)
(…)
O próprio Herculano, na Advertência da
primeira edição de Lendas e
Narrativas, diz que o mérito de tais textos e a razão da publicação em
volume é, justamente, por se encontrar aí o marco inicial do romance histórico
português: Corrigindo-os e publicando-os
de novo, para se ajuntarem a composições mais extensas e menos imperfeitas que
já viram a luz pública em volumes separados, ele [o próprio Herculano] quis apenas preservar do esquecimento, a
que por via de regra são condenados, mais cedo ou mais tarde, os escritos
inseridos nas colunas das publicações periódicas, as primeiras tentativas do
romance histórico que se fizeram na língua portuguesa.
(…) Tendo como principais temas o
amor impossível, o nacionalismo, o resgate do passado, o subjetivismo, o
egocentrismo, o exagero sentimental ou melodramático, o ufanismo, a solidão, o
mistério e a morte, entre outros, os autores românticos representavam a realidade
a partir do sonho e da utopia. Adilson Citelli, no estudo sobre o Romantismo,
destaca a face revolucionária do pensamento romântico:
A
tendência inicial foi saudar e propagandear tais ideias, colocando-se como uma
espécie de porta-voz da revolução. O canto de sereia do novo mundo, os novos
valores, a possibilidade de concretizar os princípios de justiça social, a
perspetiva de criação de uma sociedade mais equânime, sem as discriminações e
os entraves do velho modo de produção feudal [...] (Citelli,
1986:19)
Escritor
totalmente formado dentro do Romantismo, como apontam António José Saraiva
Óscar Lopes, Herculano é o autor português que melhor representa o movimento
romântico:
Nado
e criado em plena derrocada do velho Portugal, Herculano [...] formou-se
inteiramente dentro do Romantismo. É de entre as personalidades do primeiro
Romantismo português aquela que, pela formação e pela audiência que alcançou
junto do público, representa o movimento romântico de um modo mais completo e
persistente. (Saraiva & Lopes, s/d: 763)
Com
um projeto que pregava o regresso às raízes nacionais, e com uma obra que
abarcava o conjunto da Idade Média portuguesa, Herculano resgata a herança
medieval e inicia a novelística portuguesa moderna. A sua literatura de cunho
histórico inicia-se com a publicação de Lendas
e Narrativas, inaugurando, em Portugal, o género celebrizado pelo inglês
Walter Scott (Ibidem: 768-769), precursor das
narrativas históricas no Romantismo. Sobre a coletânea de contos de Herculano,
Feliciano Ramos comenta:
As
Lendas e Narrativas formaram dois
volumes que foram publicados em 1851. Acusam já a influência de Fernão Lopes,
que Herculano lia e admirava profundamente, se bem que também o contestasse. A
coletânea demonstra ainda carinhoso interesse pelas exigências históricas
[...].
Além
de conterem importantes dados para o estudo da fisionomia da Idade Média, as Lendas e Narrativas representam a
tentativa de um género novo, a novela histórica. No prefácio da 1ª
edição, Herculano reivindica essa glória, acentuando que as Lendas e Narrativas foram as primeiras
tentativas do romance histórico que se fizeram na língua portuguesa.
(Ramos,
1963: 597-598)
"LENDAS E NARRATIVAS", ALEXANDRE HERCULANO - A PROPÓSITO DO ROMANCE HISTÓRICO (1)
Leituras aqui e ali.
Seleção de textos ali e aqui.
(segundo o próprio Herculano)
“O
interesse pelo passado, sobretudo nacional, é um dado inquestionável de toda a
estética romântica. É do conhecimento geral, que é no início do século XIX que
os estudos históricos ganham um relevo diferente do das épocas passadas e que
começa a haver uma séria preocupação em estabelecer a cientificidade de uma
disciplina que, até então, tinha vivido muito da confusão entre a lenda e a
realidade. (...)
Se,
por um lado, o estudo da História apaixonou intelectuais românticos, ao ponto
de Herculano, por exemplo, ter percorrido o país à procura de documentos que
esclarecessem a vida medieval portuguesa, por outro, não é menos verdade que
uma certa efabulação com base histórica, isto é, a criação de universos,
simultaneamente fictícios e referenciais, foi também uma constante de um
período específico do Romantismo europeu e português. A voga inglesa, francesa
ou italiana de reconstituição histórica do passado, na busca de uma identidade
nacional que teria ficado abalada com as convulsões sociopolíticas do fim do
século XVIII, início do XIX, estende-se também a Portugal.”
(…)
“Deste
modo, sendo hoje dificultoso separar, em relação àquelas eras, o histórico do
fabuloso, aproveitei de um e de outro o que me pareceu mais apropriado ao meu
fim.”
in O Romance
Histórico de Alexandre Herculano
Maria
de Fátima Marinho
domingo, 29 de outubro de 2017
ALEXANDRE HERCULANO - "A ABÓBADA"
No dia 30 iniciamos o estudo de "A Abóbada" de Alexandre Herculano.
Estejam atentos aos textos que forem sendo colocados por aqui.
Bom trabalho.
sábado, 21 de outubro de 2017
ALGUMAS QUESTÕES A PROPÓSITO DOS POEMAS ESTUDADOS EM AULA
Teste dia 6 de Novembro.
QUESTÕES:
O ANJO CAÍDO
1.
Leia atentamente o poema.
2.
Reconte, de forma literal, a narrativa que
está presente no poema O Anjo Caído.
2.1 Reconte
a narrativa, mas, desta vez, substituindo os símbolos presentes no poema pelas
realidades que eles representam.
2.2 Explique
e justifique a intervenção do sujeito poético na salvação(?) do anjo.
2.3 Indique
os motivos que levaram à perdição e à
morte do sujeito poético.
ESTE INFERNO DE AMAR
1.
Refira as contradições do Amor que estão
presentes na 1ªestrofe do poema.
1.1 Justifique
o emprego da frase exclamativa “como eu amo!”, no 1º verso, 1ª estrofe.
1.2 Indique
as respostas que são dadas pelo sujeito poético, nas 2ª e 3ª estrofes, às
interrogações contidas na 1ª estrofe.
2.
Explique o significado da imagem contida
na expressão do v. 14 do poema: “dava o Sol tanta luz!”.
3.1
Relacione essa imagem com o papel desempenhado pelos “olhos” na relação Eu/Tu.
3.2
Explique o significado simbólico do adjetivo ”ardentes”, na expressão “olhos
ardentes”, v. 16.
3. Estabeleça uma relação temática entre
este poema e o poema “Anjo Caído”.
3.1 Refira as semelhanças e as
diferenças entre os dois poemas, tendo em atenção, principalmente, os versos
que rematam os dois textos poéticos.
OS CINCO SENTIDOS
1.
Identifique os sentidos que estão
presentes nas cinco primeiras estrofes.
1.1 Explique
a razão da ordenação sensorial que se vai construindo ao longo do poema.
1.2 Nesse
escalonamento sensorial há uma contínua oposição Céu/Terra.
1.2.1 Justifique
essa referência ao elemento Céu,
tendo em conta o título do poema e as sucessivas notações sensoriais que nos
chamam para o elemento Terra.
2.
Refira a figura de estilo que está
presente na 6ª estrofe do poema.
2.1 Explique
o significado do recurso a essa figura de estilo, na última estrofe do poema.
3.
Explique em que medida este poema pode ser
considerado um poema erótico.
NÃO TE AMO
Comentário
“Em Folhas Caídas, (…) o poeta (…) canta o seu não-amor pela mulher desejada. (…) o poeta dirige-se à Não-Amada
para lhe bradar, com fúria incisiva, que não a ama, como é hábito nosso de amar
em poesia, com a alma (…), mas a apetece apenas com o deleite fervente dos
sentidos (…).”
José Gomes
Ferreira,
Introdução
a Folhas Caídas de Almeida Garrett.
1.
Neste poema, o sujeito poético procura,
através da oposição amar/querer,
explicar as contradições e tensões presentes em poemas anteriores.
1.1 Explique
de que modo a oposição amar/querer
pode explicar e até clarificar todas as tensões e contradições do sujeito
poético.
2.
Explique a conotação positiva atribuída a amar e a conotação negativa atribuída a querer.
3.
Que significado pode ter a construção
anafórica do poema?
ANJO ÉS
1.
Explique a conceção da Mulher como Anjo e como Demónio que está presente neste poema.
2.
Justifique a transformação das frases
afirmativas, da 1ª estrofe, em frases interrogativas, nas 2ª e 3ª estrofes.
3.
Refira as marcas de teatralidade presentes
neste poema.
“Amo-te
como nunca ninguém amou neste mundo, adoro-te, não sei nem posso ter coração
para outra coisa. Tu és o meu primeiro, o meu último amor.”
Assim escrevia Garrett à baronesa da Luz, teria ele cinquenta e dois anos e ela
trinta e dois. A amante Rosa Montufar Infante, andaluza, célebre pela sua rara
beleza, era filha dos marqueses de Silva Alegre e casara em 1837 com um oficial
de engenharia (…). A ligação amorosa começou em 1846 e prolongou-se até 53 ou
54, ano da morte de Garrett. O passo acima transcrito pertence a uma carta que,
provavelmente, Garrett dirigiu a Rosa em 1851. (…)
Jacinto do Prado
Coelho,
Ao
Contrário de Penélope
Espera-nos Alexandre Herculano e Lendas e Narrativas - A Abóbada.
"ANJO ÉS" DE ALMEIDA GARRETT
Anjo És
Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
5 Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
10 Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.
Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
15 Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
20 Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. - Que anjo és tu?
25 Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?
Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
30 Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
35 Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
40 Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?
- este poema demonstra bem o papel da mulher na vida do sujeito poético / herói romântico;
- esta mulher-anjo tem capacidade para dominar e subjugar o eu, sendo a sua força evidenciada pela persistência e determinação do mesmo eu
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
10 Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
1ª estf. - veja-se como a força que o próprio eu reconhece caracterizá-lo, é utilizado num jogo de contrastes que pretende reforçar a ainda maior força do tu... apesar de o eu ser forte, ainda há quem seja mais forte do que ele...;
2ª estf. - afinal, anjo porquê? por causa das características físicas bem marcadas deste anjo; o tu domina o eu de uma forma como nunca nenhuma mulher o tinha conseguido;
- Anjo és. Mas que anjo és tu?
- Anjo és. Mas que anjo és tu?
a afirmação inicial do eu não põe em causa se o tu é um anjo mas questiona-se sobre que espécie de anjo será esta mulher; inicia-se um conjunto de hesitações que revelam o espírito inquieto do sujeito poético pois o que ele vê não são as características de um anjo mas outras, físicas,;
- esta inquietação levam-no a interrogar-se sobre a sua origem deste alguém que não será, certamente, de origem divina; PAZ/GUERRA ou JEOVÁ / BELZEBU, pergunta; de referir o tom teatral neste momento do texto devido à existência de um aparente diálogo;
3ª estf. - um tu que não responde, apenas age, e que conduz o eu ao desespero;
- a partir daqui, o diálogo torna-se mais aberto e dinâmico pois o tu revela-se em atitudes que pouco têm de anjo mas muito mais de mulher e de mulher apaixonada;
- Escaldou-me...
3ª estf. - um tu que não responde, apenas age, e que conduz o eu ao desespero;
- a partir daqui, o diálogo torna-se mais aberto e dinâmico pois o tu revela-se em atitudes que pouco têm de anjo mas muito mais de mulher e de mulher apaixonada;
- Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
35 Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
há um crescendo de intensidade emotiva - gradação - que põe um fim às hesitações do sujeito poético; este toma uma decisão, entrega-se definitivamente embora reconheça que este fogo o arrasta para a perdição, irremediavelmente - fogo de precito [ antecipadamente condenado = Inferno]- mas é desta forma que o tu põe fim às indecisões;
- o sujeito poético demarca-se do discurso anterior; ruptura;
- o anjo maldito a que o eu se entrega é, afinal, meio-anjo / meio-mulher e a cujo poder não se pode fugir;
- Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
é o ardor de um fogo que é o eterno dos condenados e que o tu trouxe de lá = inferno; o sujeito poético questiona-se sobre a proveniência e os mistérios em que ela se esconde, ser fatal e estranho; anjo maldito / demoníaco = mulher fatal;
- no último verso, mulher = demónio?
- anáfora;
- anáfora;
- personificação e hipálage;
- eufemismo;
- gradação crescente;
- metáfora;
- Romantismo: tom confessional; teatralidade; tema da mulher fatal; os poderes superiores da mulher; referência ao Inferno / Diabo;
- intertextualidade temática: Anjo Caído [o TU (caçador) é vítima do EU tal como em Não te amo, quero-te]; Anjo és [o EU é vítima do Tu tal como em Este Inferno de Amar].
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