quinta-feira, 11 de maio de 2017

O REALISMO E O NATURALISMO I


O   REALISMO   E   O   NATURALISMO I
           

            O Realismo é, antes de mais, uma escola literária que surge na 2ª metade do séc. XIX, a partir de 1865, como reacção aos excessos do formalismo romântico, na sequência da Questão Coimbrã e das Conferências Democráticas do Casino.
            Como, de um modo geral, todas as escolas literárias, o realismo define-se em termos de ideologia, temática e formas literárias.
            Ideologicamente, o realismo começa por ser uma forte reacção contra o idealismo romântico enfraquecido, artificial, formalista e de uma sentimentalidade mórbida (…). O Realismo é, portanto, anti idealista e combate a evasão romântica, interessando-se em contrapartida, pelo contemporâneo, pela realidade circundante e pela análise social. Este pendor globalmente materialista explica duas preocupações fundamentais deste período literário: a observação dos factos e a sua análise tanto quanto possível rigorosa.
            (…) As suas obras, (dos realistas) marcadamente viradas para o Contemporâneo e para a realidade que os cerca, tratam, geralmente, os seguintes temas:
*     A representação da vida burguesa, naquilo que ela possa ter de mais desagradável ou negativo, em certos aspectos da sua existência económica (a usura, a ambição, a avareza, a cobiça, a corrupção, etc.);
*     A representação da vida urbana, porque é nos grandes meios sociais, nas cidades, que as tensões sociais, políticas e económicas, resultantes ainda de um comportamento condenável da burguesia, mais se agudizam;
*     Deriva dos vectores anteriores a análise das relações e dos conflitos sociais, resultantes de grandes desníveis entre classes;
*     Em consequência ainda de erros e injustiças sociais, económicas ou políticas, a representação do sofrimento social e moral da frustração (sentimental, mas não só), da corrupção e do vício, de um modo geral.
Em síntese, a principal preocupação do realismo é promover a denúncia e a análise crítica dos vícios da sociedade sua contemporânea, corporizadas na classe dominante, normalmente retratada em personagens-tipo, que são, sem sombra de dúvida, as mais funcionais para a representação de defeitos de grupos ou sectores de uma sociedade. (…)
O Naturalismo é um período literário que se segue ao Realismo, podendo considerar-se, de certa maneira, como o seu prolongamento. As fronteiras entre as duas correntes são muito ténues e, por isso, é difícil perceber, por vezes, onde acaba uma e começa outra. Alguns escritores do século XIX, como Eça de Queirós, chegaram a confundir as duas correntes.
Os temas fundamentais do romance naturalista são os seguintes:
*     O alcoolismo, como deformação social e dos caracteres;
*     O jogo, encarado como consequência de determinadas situações de injustiça;
*     O adultério, como denúncia de certo modo de vida resultante de uma errada educação romântica;
*     A opressão social, como resultado de conflitos de interesses, denunciando as suas causas económicas, políticas e sociais;
*     Até a própria doença (a loucura, por exemplo), enquanto manifestação de taras hereditárias.

Em conclusão, no romance naturalista, a observação e descrição pormenorizada do meio social são extremamente cuidadas, mas, do mesmo modo, é importante a maneira como se encaram os factos, enquanto resultado de causas determinantes, como a educação, o meio, a hereditariedade.

           

domingo, 26 de março de 2017

Excerto 128 do "Livro do Desassossego"



Fragmentos e mais fragmentos.
Assim é feito o Livro.
Do que é feito o Poeta.
Na procura da união, tentando encontrar-se, escreve-Se.
O Livro do Desassossego nasceu um ano antes dos três heterónimos, Caeiro, Campos e Reis, e Pessoa trabalhou nesta obra o resto da sua vida.
Não se lhe conhece um plano ou uma “história”. Foi-se projetando nos horizontes que ele próprio estendia à medida que iam sendo (des)escritos, Livro e Pessoa, e em que ficavam cada vez menos concretizáveis como isso mesmo, isto é, como livro e pessoa.



128.

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se.
Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com
decência e naturalidade.
Nada poderia indignar-me tanto como se no escritório me estranhassem.
Quero gozar comigo a ironia de me não estranharem. Quero o cilício de me
julgarem igual a eles. Quero a crucificação de me não distinguirem. Há martírios mais subtis que aqueles que se registam dos santos e dos eremitas. Há suplícios da
inteligência como os há do corpo e do desejo.
E desses, como dos outros, suplícios há uma volúpia.

Livro do Desassossego,

Bernardo Soares [Fernando Pessoa]


RECOMEÇO E INÍCIO



Sobre tudo aquilo que menos nos agrada e que tem de ser...

Na verdade, ...

Tudo aquilo que não temos coragem de enfrentar, acaba por ser algo que nunca conseguiremos mudar.

Como em tudo na vida; nas aprendizagens também.

Tentemos, pois.

http://graminim.blogspot.pt/

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O ESPAÇO SOCIAL EM "FREI LUÍS DE SOUSA"


Refere-se o Espaço Social ao conjunto de informações ou referências textuais que nos permitem concluir sobre costumes e mentalidades que caracterizam uma época, a época em que decorre a ação, em que vivem as personagens.
Sucintamente:
- as características do palácio de D. Manuel apontam para a existência uma família aristocrática;
- ainda na sequência do ponto anterior: a existência de serviçais ou criados como Telmo, Doroteia e Miranda;
- D. Madalena possui um grau de educação pouco habitual para a época, sendo mulher, pois quando a ação se inicia, está a ler;
- o mesmo se passa com Maria que lê “Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro;
- D. João de Portugal, cavaleiro, pois combateu ao lado de D. Sebastião;
- a população de Lisboa vive em péssimas condições devido à peste; as personagens vivem em Almada, razão pela qual não são atingidas visto não haver comunicação;
- próprio da época e usual nas classes sociais mais elevadas: os casamentos eram de conveniência, sem amor, à semelhança do que sucedeu com D Madalena ao casar com D. João por obrigação;
- para todos os efeitos, Maria é filha ilegítima logo que se sabe que D. João está vivo e apesar de ser fruto de um casamento, o segundo de sua mãe;
- as formas de comunicação eram dificultadas pela falta de meios e pela distância, a comprová-lo, o facto de só se saber que D. João estava vivo passados tantos anos;
- a esposa é, normalmente, mais nova do que o marido, assumindo este a função de um segundo pai.



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O TEMPO DRAMÁTICO.



O Tempo dramático


“Ato Primeiro”: “Câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século dezassete”…
Apesar da anterior informação cénica, a ação desenrola-se no último ano do século dezasseis. Com efeito, Garrett assume, na Memória ao Conservatória Real, que os aspetos cronológicos não o terão preocupado pois considerou mais importante “o trabalho de imaginação” irreconciliável com os “algarismos das datas”.
            Seguem-se algumas das referências cronológicas que aparecem na obra:

            - período anterior a 1578 – casamento de D. Madalena com D. João de Portugal.
            - 4 de Agosto de 1578 – batalha de Alcácer Quibir; desaparecimento de D. João de Portugal assim como de D. Sebastião.
            - de 1578 a 1585 (decorrem 7 anos) – durante este período, D. Madalena faz todos os esforços para encontrar o paradeiro de D. João de Portugal sem obter qualquer resultado.
            - 1585 – D. Madalena casa com Manuel de Sousa Coutinho por quem se apaixonara ainda durante o seu primeiro casamento.
            - 1586 – da união de Manuel de Sousa Coutinho e de D. Madalena nasce Maria (que tem treze anos no momento em que se inicia a ação).
            - 1599 – ano em que decorre a ação e catorze anos após o casamento de Manuel de Sousa e de D. Madalena.
            O período de tempo que separa o desaparecimento de D. João de Portugal e o momento em que se desenrola a ação é constituído por vinte e um anos, o que nos permite situar a ação no ano de 1599.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O ESPAÇO NO ATO I




ATO I
ESPAÇO

- vila de Almada
- Pontal de Cacilhas
- vista sobre o Tejo, com faluas, e Lisboa
- próximo do convento de S. Paulo (“quatro passadas”)
- palácio de Manuel Sousa Coutinho, com um eirado
- câmara antiga; luxo, elegância
- retrato de Manuel de Sousa Coutinho
- bufete com livros, tapeçarias, porcelanas
- cadeira antigas, tamboretes, contadores


in nº 21, Texto Editora

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"FREI LUÍS DE SOUSA": O TEMPO NO ATO I


ATO I
TEMPO

- princípio do século XVII
- fim da tarde
- reformistas da Alemanha (cena 2)
- desavenças entre portugueses e castelhanos (cena 2)
- peste em Lisboa
- “depois daquela jornada de África que me deixou viúva” (cena 2)
- sete anos de buscas (cena 2)
- segundo casamento de D. Madalena há catorze anos (cena 2)
- noite fechada (cena 7)


in nº21, Texto Editora