"A renúncia é a libertação. Não querer é poder." Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
sábado, 21 de junho de 2014
ERROS DE LINGUAGEM MAIS FREQUENTES (1)
DIGA-SE!
NÃO SE DIGA!
1 - acerca disso - à cerca disso
2 - a gente vamos - a gente vai, nós vamos
3 - a maior parte deles foi - a maior parte deles foram
4 - amizade / amor por alguém - amizade / amor a alguém
5 - apresentar uma dúvida - colocar uma dúvida
6 - colocar uma questão - fazer uma pergunta; perguntar
7 - mal empregada (coisa mal) - mal empregue (coisa mal)
8 - semear batatas - plantar batatas
*** mandar alguém plantar batatas = mandá-lo bugiar
sexta-feira, 20 de junho de 2014
DIGA-SE: "ANTES QUERO"; "AO ENCONTRO DE" E "DE ENCONTRO A"
ANTES QUERO - ao contrário do que muitos defendem, não é um erro. Errado é dizer "antes prefiro" pois na palavra "antes" já existe o sentido de "primeiro que, ou seja, de preferência. Assim, em *antes prefiro há uma redundância.
ANTES QUERO
ou simplesmente
PREFIRO
AO ENCONTRO DE / DE ENCONTRO A - erro inaceitável a expressão *vir de encontro a uma ideia porque *ir de encontro significa choque
Ex: O carro veio de encontro à minha casa.
diferente de
Ex: Essa ideia vem ao encontro da minha opinião.
terça-feira, 17 de junho de 2014
A LÍNGUA PORTUGUESA: DAS ORIGENS AOS NOSSOS DIAS
1. Línguas de Substrato (antes da Romanização / do Latim)
- Celtas - suf. briga...
- Fenícios - mapa...
- Gregos - época, papel, carta...
** A influência grega foi também muito significativa noutras épocas, ao longo dos tempos.
- na época da romanização, com os nomes das ciências - Filosofia, Gramática, Geometria, Aritmética...
- Cristianismo - igreja, anjo, parábola...
- do século XVIII aos nossos dias:
. na formação de palavras de índole científica a partir de radicais gregos - democracia, anarquia, política, biologia...
. compostos de:
.. hemo (sangue)
.. pneumo (ar)
.. cine (movimento)
.. fleb (veia)
.. foto (luz)
.. tele (distância)
2. Línguas de Superstrato (depois da Romanização / do Latim)
- Visigóticos (475) d.C.: luva, sopa, barriga
. Toponímia - Armamar, Mangualde...
. Onomástica - Fernando (corajoso na paz), Berta (claridade), Guilherme (vontade)...
- Árabes (711 d.C.): cultura superior
. agricultura - arroz, tremoço, azeitona, ceifa, nora, azenha...
. pesos e medidas - almude, alqueire, arroba...
. construção das casas - alicerce, andaime..., adobe
. ciências - algarismo, álcool, alquimia, zénite...
. atividades domésticas - taça, alcatifa, jarro, alfinete...
. culinária - acepipes, almôndegas, escabeche...
. vestuário - samarra
. toponímia - Fátima, Almada, Alcântara...
(palavras em al-)
IDADE MÉDIA
. Latim (era a língua culta, dos documentos)
família, palácio (por via culta)
. Francês e Provençal (terminação em -agem...)
RENASCIMENTO
. Latim (via erudita)
. Italiano
! artes - fachada, fresco, aguarela, caricatura...
! música - ópera, piano, serenata...
! vida mundana - figurino... .
DESCOBRIMENTOS
Foram importadas muitas palavras relacionadas com produtos, fauna, flora e costumes das regiões descobertas:
. África - macaco, banana...
. China - chá, chávena...
. Japão - quimono...
. Brasil - arara, acaju, jacaré...
. Pérsia - bazar, laca, xadrez...
Muitas destas palavras designam-se por "palavras de civilização" pois entraram com o objeto.
. Castelhano - (lit. do século XVI)
guitarra - mantilha...
chocolate - tabaco - baunilha (recebidas das línguas indígenas da América)
SÉCULOS XVII E XVIII
. Francês - flanela, blusa, restaurante, embaraçar
Serviu de veículo transmissor de palavras vindas de outras línguas:
. Alemão - edredon, valsa, aspirina...
. Línguas Eslavas - iogurte, estepe...
. Inglês - eletrão, celuloide, parlamento, oposição, congresso...
SÉCULOS XIX E XX
. Francês - socialismo, esquerda, direita (novas realidades políticas)
. Italiano - fascismo, analfabetismo...
. Inglês da América - jazz, cocktail, filme...
Conclusão:
O português, como qualquer língua, está em permanente evolução, adaptando-se, deste modo, às necessidades de cada época. Atualmente, a evolução é muito mais rápida graças aos meios de comunicação.
Arcaísmos - vocábulos que caíram em desuso.
Neologismos - vocábulos novos que surgem na imprensa, nos textos literários,... no domínio, por exemplo, da linguagem técnica e científica:
- oftalmologia, construtivismo, ONU...
. Estrangeirismos - vocábulos de origem estrangeira que são adotados na língua portuguesa
- anglicismos - bar, clube, futebol...
- francesismos ou galicismos - guichet, brevet, panne, cassette...
segunda-feira, 16 de junho de 2014
"FELIZMENTE HÁ LUAR!" - PARALELISMO ENTRE DUAS ÉPOCAS
TEMPO DA HISTÓRIA - SÉCULO XIX - 1817
TEMPO DA ESCRITA - SÉCULO XX - 1961
. agitação social que levou à revolta liberal de 1820 - conspirações internas; revolta contra a presença da Corte no Brasil e a influência do exército britânico.
. agitação social dos anos 60 - conspirações internas; agravamento da guerra colonial.
. regime absolutista e tirânico;
. regime ditatorial de Salazar.
. hierarquização marcante das classes sociais e receio por parte das classes dominantes de perderem privilégios.
. desigualdade social entre abastados e pobres; classes dominantes veem o seu poder reforçado.
. povo oprimido e resignado; a miséria, o medo e a ignorância; obscurantismo, mas "felizmente há luar".
. povo reprimido e explorado; miséria, medo e analfabetismo; obscurantismos, mas crença nas mudanças.
. luta contra a opressão do regime absolutista; a personagem Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria.
. luta contra o regime totalitário e ditatorial; agitação social e política com militantes antifascistas em protestos.
. perseguições dos agentes de Beresford; as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que, sem escrúpulos e hipócritas, denunciam quem se manifesta contra o poder instituído, censura à imprensa.
. perseguições da PIDE; denúncias dos chamados "bufos" que, disfarçados e escondidos na sombra, procuram colher informações para, posteriormente, denunciar; censura.
. severa repressão dos conspiradores; processos sumários e pena de morte.
. prisão e duras medidas de repressão e de tortura; condenação em processos sem prova.
. execução do general Gomes Freire, em 1817.
. posterior a "Felizmente há Luar!" - execução do general Humberto Delgado, em 1965.
domingo, 15 de junho de 2014
"OS LUSÍADAS" e "MENSAGEM" - Síntese (parte II)
Os 44 poemas que constituem a Mensagem encontram-se agrupados em três partes:
- Primeira parte - Brasão (os construtores do Império)
: corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.
- Segunda parte - Mar Português (o sonho marítimo e a obra das descobertas)
: surge a realização e a vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas, porque "tudo vale a pena", a missão foi cumprida.
- Terceira parte - O Encoberto (a imagem do Império moribundo, a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e civilizacional. A esperança do Quinto Império).
: surge a desintegração, havendo, por isso, um presente marcado pelo sofrimento e pela mágoa visto "faltar cumprir- -se Portugal". É preciso acontecer a regeneração, que será anunciada por símbolos e avisos.
! Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói - O Encoberto que se apresenta como D. Sebastião.
O ocultismo remete para um sentimento de mistério em que só o detentor do privilégio esotérico - = oculto / secreto - tem legitimidade para realizar o sonho do Quinto Império.
! O Ocultismo:
- três espaços, o histórico, o mítico e o místico;
- "A ordem espiritual no homem, no universo e em Deus";
- Poder, inteligência e amor na figura de D. Sebastião.
! A conquista do mar não foi, afinal, suficiente pois o império material desfez-se, isto é, a missão ainda não foi cumprida: falta concretizar o novo sonho, um império espiritual.
! A construção do futuro, a revolução cultural, tem de ter em conta o presente mas aproveitando as lições do passado, fundamentando-se nas tradições ancestrais.
! Em Mensagem surgem diversos mitos, nomeadamente o do Sebastianismo e o do Quinto Império. É possível também perceber outros mitos como o do Santo Graal ("Galaaz com pátria" era o Desejado, capaz de permitir o regresso do Graal, o símbolo da união e harmonia entre os povos), o das Ilhas Afortunadas (de "terras sem ter lugar", como o Quinto Império) e o do Encoberto (dentro da mística rosacruciana em cujos princípios se deveria basear o Quinto Império). A conceção mítica leva também Pessoa a usar figuras como Ulisses e o Mostrengo, que o ajudam a explicar o passado dos Portugueses e a defender a sua missão profética.
! Em Mensagem, os poemas, em geral breves, apresentam uma linguagem metafórica e musical, com predominância de frases curtas, apelativas e, muitas vezes, aforísticas, onde abundam a pontuação expressiva e as perguntas retóricas.
A voz lírica reflete sobre o passado heroico de conquistas, vibrando com o espírito do povo português e adquirindo um tom profético.
domingo, 8 de junho de 2014
"Tabacaria" de Álvaro de Campos - análise do 4º momento / 4 momentos
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
A visão de um homem - talvez um cliente - que entra na Tabacaria
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
traz o eu-poético de regresso à realidade e à vontade eufórica de voltar a escrever.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Esse homem é o Esteves (tal como é referido mais à frente no poema quando o mesmo sai da loja) o qual desperta no eu um sincero desejo de mudança.
E porquê?
Questão a que responderemos já de seguida...
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
Após o momento de euforia inicial o eu-poético mergulha na reflexão, na Inércia, interessado apenas em saborear o cigarro que entretanto tinha acendido.
E porquê? foi a questão que deixámos em aberto há pouco...
O Esteves representa o apelo de uma vida simples, sem reflexões, vivida apenas no decorrer das coisas e dos dias.
E será esse sentimento que levará o eu-poético a considerar se não teria sido mais feliz se tivesse casado com a filha da lavadeira, tornando-o num homem como o Esteves, um homem comum e sem grandes inquietações, que aceita o real. Mas a sua presença obriga o sujeito poético a regressar à sua condição anterior, isto é, à certeza de que tudo é inútil, de que tudo se perde no nada e de que o destino se cumpre no sorriso do dono da Tabacaria, alheio a tudo.
É esta também a conclusão do poema.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
..........................................
Seguem-se algumas ideias que importa aqui reforçar.
- os quatro momentos do poemas estão relacionados com os espaços físicos onde se desloca o sujeito poético, o Interior ou Dentro representado pelo quarto e pela cadeira e o Exterior ou Fora, pela janela. Esta permite-lhe o contacto com o exterior, com a rua e com a porta da Tabacaria.
- o pessimismo é nota dominante neste texto, cuja ideia se encontra, por sua vez, ligada, ao desgaste do Tempo e àquilo que se tem como realmente certo, a Morte.
- a negatividade do eu é assumida através da anáfora presente no início dos versos
Estou hoje vencido;
Estou hoje lúcido;
Estou hoje perplexo;
Estou hoje dividido.
e, em jeito de resumo,
Falhei em tudo.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
"Tabacaria" de Álvaro de Campos - análise do 3º momento / 4 momentos
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
3º momento do poema em que se aborda a temática, de novo, da realidade de tudo, (ver 2ª estrofe).
O eu-poético volta à observação do real - largamente apoiada pela utilização do verbo "ver" que aqui nos surge 6 vezes, todas no presente do indicativo dando-nos a indicação de uma descrição feita no momento preciso da escrita. Mas o "tudo" que se depara ante os seus olhos é opaco, impenetrável, alheio apesar da sua visão ser nítida ou, talvez, por causa dela.
O "eu" parece ter-se consciencializado que viveu num mundo de aparências - Vivi, estudei, amei e até cri, - o qual o desilude e faz manifestar o desejo de trocar de identidade com outra pessoa - E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
É com o advérbio Talvez que manifesta a sua dúvida de que, afinal, todo o real vivido possa ter sido uma ilusão. A mesma ilusão que é criada pela imagem da cauda do lagarto que, após lhe ter sido cortada, se mexe, como se ainda estivesse viva - como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. Confessa, por isso, o seu fracasso -
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. Confessa, por isso, o seu fracasso -
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
- e a perda de identidade que era, afinal, imaginada, é agora um facto que lhe retira o lugar entre os demais em que o termo máscara já não se aplica à personalidade mas à máscara que se usa enquanto ser fazendo parte de um mundo que é, conclui-se, um grande palco. Ainda assim, este está-lhe vedado pois se ele não faz parte desse mundo e uma vez que se colocou sempre à margem, é lá que deve permanecer: no palco não há lugar para ele. A sua única hipótese será a escrita, podendo provar a si mesmo que é um ser elevado. (ver...)
A visão da Tabacaria e a consciência da realidade que ela representa irá, no entanto, abalar-lhe a confiança: regressam a apatia, o sentimento de exclusão e a desilusão -
Essência musical dos meus versos inúteis,Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Ao olhar o dono da Tabacaria sente-se desconfortável: ele representa o homem comum e tão inútil como a Tabacaria, os seus versos ou o mundo ou mesmo o universo -
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
... dói-lhe, sobretudo, o facto de ambos, ele e o dono da Tabacaria, terem o mesmo destino, a morte, evidenciando a inutilidade de tudo.
Conclui, reforçando a ideia de que tudo é insignificante e nada e que nem mesmo a escrita dos seus versos lhe trará a salvação. Repare-se na gradação existente nos versos sublinhados...
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