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terça-feira, 16 de junho de 2015

A PROPÓSITO DE "MENSAGEM" - QUINTO IMPÉRIO E MAIS...



Ainda "Portugal Simbólico"...


"Acerca do sebastianismo de Fernando Pessoa, A. Quadros escreve "Mensagem é uma obra sebastianista que (...) exprime uma total originalidade. Porquê? Porque Fernando Pessoa procurou - e conseguiu - expurgar toda a sensibilidade e todo o sentimentalismo neogarrettistas, neo-românticos e saudosistas, para nos mostrar o mito, despojado e reduzido ao essencial, na sua intemporalidade e no seu rigor por assim dizer canónico. Que é o mito?" Pessoa define-o num dos primeiros poemas da Mensagem:

"O mytho é o nada que é tudo
(...)"





Num texto deste blogue, já fiz referência a este tema, com este quadro...


O Quinto Império, segundo António Quadros
(ler o poema “O Quinto Império” na terceira parte de Mensagem)

Império Material
Império Espiritual
1º - Babilónia
2º - Medo-Persa
3º - Grécia
4º - Roma
5º - Inglaterra
1º - Grécia
2º - Roma
3º - Cristandade
4º - Europa
5º - (Portugal)

  António Quadros considera que Mensagem “é sem dúvida a obra-prima onde Pessoa (…) imprimiu o seu ideal patriótico, sebastianista e regenerador. É um poema nacional, uma versão moderna, espiritualista e profética de Os Lusíadas.”


Diz Pessoa e referindo-se ao Quinto Império, "todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte em pé, um Cadáver mandando". 
Com efeito, o Quinto Império é o Império do Espírito e o mito de D. Sebastião guarda em si a essência do "mito bretão Artur". Sendo que na tradição celta o rei Artur representa o ideal cavaleiresco da demanda do Graal, a aspiração espiritual da casta guerreira. Galaaz é o herói, digno do Santo Graal, o mais puro de todos, o cavaleiro perfeito, invencível nos assuntos terrestres enquanto que Lancelot sê-lo-á mas nos assuntos terrestres.
À semelhança de D. Sebastião, o rei Artur não morre, antes é conduzido para a ilha de Avallon onde permanecerá esperando o momento em que poderá regressar, acompanhado dos seus cavaleiros.




Século XVI, apontado por muitos como o século do início da nossa decadência e de um corte com o passado histórico da nação. Mas não será correto pensar que o futuro predestinado de Portugal assente unicamente no mito do Quinto Império. A "profecia" alimentada pelos investigadores da História esotérica de Portugal, quanto ao seu papel de primeira ordem no futuro mundial, significa o renascer do mito sebastianista neste momento de crise que não é, na sua essência, económica, mas de identidade. E esta só pode ser recuperada através do renascer da espiritualidade e da moral. Ora este mito, pelo que nos é dado conhecer, é como uma espada de dois gumes que tanto corta para um lado como para o outro. E o importante na espada, do ponto de vista simbólico e fático, é a ponta, ou seja, a síntese, o que está para além da dualidade.
Por um lado, o sebastianismo alimenta legitimamente a nossa esperança em recuperar o passado glorioso de que somos herdeiros, e em sairmos deste fosso em que a mediocridade nos instalou. Mas por outro lado, é uma compensação ilegitimamente altiva do complexo de inferioridade de que padecemos desde Alcácer-Quibir.


A Ordem do Templo foi eliminada no século XIV e tinha como missão principal, segundo pareceres entendidos, assegurar a comunicação entre o Oriente e o Ocidente e uma vez que sempre se considerou o Oriente  como o centro do mundo.

Para os Templários, assim como para os Cavaleiros do Graal, a "guerra santa" não tinha um sentido materialista e exterior mas era antes um meio de purificação.
A demanda do Graal exemplifica bem o meio espiritual que envolvia a Idade Média em que os Templários eram considerados os herdeiros da Tradição universal. Com efeito, o cálice do Graal no qual, tradicionalmente assim considerado, José de Arimateia recolheu o sangue de Cristo, representa o recipiente que contém a sabedoria perdida e o néctar da imortalidade. Ora sendo o sangue o princípio da vida relacionado diretamente com o coração, o cálice assume o papel de Centro.
A tradição pretende que o Graal tenha sido talhado numa esmeralda que caíra da fronte de Lúcifer. Para os alquimistas é a luz da esmeralda que penetra os maiores segredos. Se recordarmos que o Conhecimento é um instrumento ambivalente que tanto pode ser benéfico como maléfico, consoante o estado moral daquele que o possui; (...) compreende-se que a demanda do Santo Graal exija condições de vida interior capazes de sacrificar, quer dizer, de tornar sagrado tudo o que se faz, dedicando esses atos à Divindade. É assim que o candidato, para alcançar o Graal, deve ter a alma pura e virgem como Galaaz, isto é, preparada para receber a semente divina.


terça-feira, 26 de maio de 2015

... DO QUE FOMOS, SOMOS E SEREMOS EM GÉNESE


Ideias e excertos de um "Portugal Simbólico" de Eduardo Amarante, Capítulo V, O Quinto Império, página 183 e seguintes, da 2ª edição, 1995.








Refere o autor que o assunto "mito" é, dentro do conceito universal", algo que nos toca bem de perto dado um passado histórico e a pátria que é a nossa.

"O mito encarnou na História graças a um primeiro homem que sonhou" e que o mesmo continuou e possibilitou que um pequeno espaço de terra se tivesse transformado num Império graças aos que deram continuidade a esta ideia. 

"Daí que uns homens inspiram-se noutros, e assim sucessivamente, até que chega um momento álgido em que nós, por uma perda de memória histórica, deixamos de sentir esta corrente invisível e logo cessamos de assegurar a continuidade no futuro, tal um elo quebrado de uma cadeia eterna. Daqui surge paulatinamente a perda de identidade e o progressivo abandono do sentimento de dignidade nacional."

[...]

"É evidente que hoje estamos a atravessar uma crise económica, social, educativa, enfim, estamos numa série de crises que nos acompanham, aliás, já desde o século XVI. Mas o que afeta verdadeiramente Portugal não é a crise económica, é a crise cultural como meio de identificação e também a crise moral e espiritual."

"Dissemos mais acima que o mito encarnou em D. Afonso Henriques, e encarnou porque ele soube sonhar Portugal e fazer viver aos seus compatriotas tempos de glória, tempos de expansão  e tempos de grandeza. Mas, logo que este impulso se desvanece e que, por fraqueza interior, começamos a descuidar-nos da nossa história, afastamo-nos daquilo que o Conquistador sonhou. Sobre D. Afonso Henriques escreveu Fernando Pessoa:



Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,

A espada como benção!

[...]



a continuar.




domingo, 15 de junho de 2014

"OS LUSÍADAS" e "MENSAGEM" - Síntese (parte II)




     Os 44 poemas que constituem a Mensagem encontram-se agrupados em três partes:
 
- Primeira parte - Brasão (os construtores do Império)
 
     : corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.
 
- Segunda parte - Mar Português (o sonho marítimo e a obra das descobertas)
 
     : surge a realização e a vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas, porque "tudo vale a pena", a missão foi cumprida.
 
- Terceira parte - O Encoberto (a imagem do Império moribundo, a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e civilizacional. A esperança do Quinto Império).
 
     : surge a desintegração, havendo, por isso, um presente marcado pelo sofrimento e pela mágoa visto "faltar cumprir- -se Portugal". É preciso acontecer a regeneração, que será anunciada por símbolos e avisos.
 
 
 
 
!   Mensagem recorre ao ocultismo para criar o herói - O Encoberto que se apresenta como D. Sebastião.
O ocultismo remete para um sentimento de mistério em que só o detentor do privilégio esotérico - = oculto / secreto - tem legitimidade para realizar o sonho do Quinto Império.
 
!   O Ocultismo:
- três espaços, o histórico, o mítico e o místico;
- "A ordem espiritual no homem, no universo e em Deus";
- Poder, inteligência e amor na figura de D. Sebastião.
 
!   A conquista do mar não foi, afinal, suficiente pois o império material desfez-se, isto é, a missão ainda não foi cumprida: falta concretizar o novo sonho, um império espiritual.
 
!   A construção do futuro, a revolução cultural, tem de ter em conta o presente mas aproveitando as lições do passado, fundamentando-se nas tradições ancestrais.
 
!   Em Mensagem surgem diversos mitos, nomeadamente o do Sebastianismo e o do Quinto Império. É possível também perceber outros mitos como o do Santo Graal ("Galaaz com pátria" era o Desejado, capaz de permitir o regresso do Graal, o símbolo da união e harmonia entre os povos), o das Ilhas Afortunadas (de "terras sem ter lugar", como o Quinto Império) e o do Encoberto (dentro da mística rosacruciana em cujos princípios se deveria basear o Quinto Império). A conceção mítica leva também Pessoa a usar figuras como Ulisses e o Mostrengo, que o ajudam a explicar o passado dos Portugueses e a defender a sua missão profética.
 
!   Em Mensagem, os poemas, em geral breves, apresentam uma linguagem metafórica e musical, com predominância de frases curtas, apelativas e, muitas vezes, aforísticas, onde abundam a pontuação expressiva e as perguntas retóricas.
A voz lírica reflete sobre o passado heroico de conquistas, vibrando com o espírito do povo português e adquirindo um tom profético.